Allzumenschliches

No fim das contas somos o reflexo qualquer das experiências que tivemos na vida.
Somos o produto daquilo que experimentamos,
daquilo que se assemelhou,
transfigurou e incorporou em nosso ser,
pensar e agir.
Somos aquilo que queríamos ser,
mesmo sem querer ser coisa alguma.
Somos também aquilo que não pudemos evitar ser,
por sermos demasiadamente humanos.
Somos aquilo que se quis;
aquilo que se evitou ser e aquilo que não pensávamos que seríamos.
Somos aquilo que pudemos ser um dia e aquilo que será até quando puder existir.
Somos aqueles que escolhem ser,
aqueles que impreterivelmente devem escolher.
E continuaremos a ser qualquer coisa daquilo que não podemos evitar em vir a ser,
sendo quem somos,
demasiadamente humanos.

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Quantos erros, arrependimentos, desgostos, remorsos, ódios, lástimas, autodesprezos, baixa autoestima, nostalgia fracassada, lágrimas nunca derramadas, e tudo numa vida, num preátimo cósmico que não será recordado, não estará nas tábulas da história, nem em suas entrelinhas, como a dizer que sua vida não vale a pena, não vale nem não valer, não vale o não que ela oferece, não vale a linguagem de que você desfruta. Nada. Revolta intensa contra o que passou, o subjuntivo, o ângulo mínimo que fora necessário para a extrema felicidade, o tempo governado de Saturno, nunca mais volta nem será, nem temos sequer mais a possibilidade de dizer que foi. O tempo de ouro solidificou-se no ouro a conduzir imagens televisas. Ouro que suja o corpo de um tom preto impossível em qualquer continente, inexistente senão nele próprio. Isso envolve minha alma. Me arrasta para o fundo inalcançável. Quebra pernas e braços, reduz o absoluto no absolutamente. Nada. Minha voz se dissipa frente a possibilidade de um ângulo obtuso, escaleno demais. Não sei mais para onde vou. A história não me marcará. A doença não faz mais que me afundar na história. Nesse escrito não há força. Gangrena. Pus escorre pelo meu ouvido, e é disso que me alimento. Só posso me alimentar disso. Não me foi concedida a graça de preencher minha necessidade de nitrogênio com outra substância. Só a doença me salva. Me oferece o pão e a faca. Não há mais quem nasça de joelho algum porque ele está dobrado, rezando por clemência ao único ser que pode ser que tenha algo a me oferecer que não seja a gosma auricular. As lágrimas me ressecam; evito-as. Não enlouquecer é o mais importante. Tristeza até vai, mas enlouqueceduras não. Quero estar despreocupado. Não ter quem cuide de mim, como uma enfermeira. O manicômio é o signo da loucura. Mas onde terminam suas grades? Me aterra, Lídia, não saber mais para onde ir. Me deixe em paz, vá embora, não precisa mais ficar. Estou me acostumando, algo em meu joelho quer despontar. Desde que não seja uma cruz, eu aceito. Nada sairá de meus testículos. Se for para eu ter filho, que saia do meu joelho. Terá de ser forte, mais forte que uma florzinha besta. Poema trouxa. Durmo ajoelhado. Meu filho não terá descanso. Apenas minha mão, vez por outra, surge da escuridão. Cresce, seus muros não acabam. Constroem muralhas quem quer evitar porrada, mas muro é signo de murro. Pura atividade. E você, trouxinha, é o passivo da história. Abre as penas e deixa entrar, que dói menos. Vaselina é cimento. Se acostuma: nada melhor que os costumes. Porto seguro. Grande mãe, gorda e flamejante mãe, em cujo seio encontro alimento saudável e puro. Vomito. Meu corpo, algo de doente e corrosivo de que a teratologia ainda não ouviu dizer, rejeita. Explode de meus orifícios meu alimento. Senhor, dai descanso aos meus joelhos, pois não suporto mais o passado. Minhas costas doem, não aguento mais os mistérios. Sê corajoso e desvela-te por ti mesmo! É o quê? Meus olhos que são trevados? Até quando essa desculpa? Alimento branco gosmento sai de minhas orelhas: eis o ser, maior tesouro, grande mistério de todos os tempos: nitrogênio. Guerras. Mas dê descanso aos meus joelhos. Sinto algo querer sair dele, uma dança, piruetas. Mas nada disso posso, a culpa me enverga. Atavismo, que sejas apenas um mito. Apenas um dito científico. Nada mais. Nada. Sugo o branco, repleto de verdura, azulura, marronura, que sai de meus ouvidos e jogo no chão, já to cheio. Plenamente saciado, pronto para sentir fome de novo. Tempo, me deixa em paz. Teus idos não podem, para sempre, querer carregar-me. Quedo para não mais permitir tanta drenagem de meus fluidos. Renovações. Quero. Surge de mim. Não sei explicar, mas não quero. Surge, por favor! Senhor, bem amado salvador de todos os tempos, preencha-me. Seja tu, seja eu, preencha-me. Que o nitrogênio não me baste! que o azoto não me baste! Ouço a rua, ouço as aves, ouço as plantas, as placas, marcas, pó. Não volto, não volto! Vou.

Krank

Eu só preciso dizer que eu estou aterrorizado com a vida. Com a incrível realidade dela. Com a finitude de tudo. Estou doente e isso não é segredo para mim. Há muito não consigo raciocinar com a ingenuidade de uma criança. Com a doçura de uma jovem apaixonada. Com o delírio da certeza ou com o niilismo de brilhantes filósofos. Estou incrivelmente aterrorizado e amedrontado com o hoje, o agora, o vir a ser incerto. Estou doente. Sim, doente. E isso não é literatura, não é um conto, não é isso ou aquilo. Isso é exclusivamente um pedido de socorro. Daqueles que fazemos em momentos de fé e que neste momento justamente pela falta dela caímos helicoidalmente num abismo de desespero e aflição.

 

 

Eu sou um menino. Um menino sem nome e sobrenome. Um entre tantos, incógnito. Um entre tantos, no grupo dos tantos que não compreendem a si mesmo, seus desejos, suas vontades, seus quereres, seus pensamentos e suas escolhas. E há algo que não me deixa prosseguir. Há algo que, simplesmente, domina meus pensamentos e me leva à conclusão de que a vida pode ser mesmo algo fantástico, sem dúvida. Principalmente quando estamos convencidos da ilusão que nossas mentes criam e desfrutam. Ela é mais doce e fantástica ainda quando muitos, em uníssono, passam a viver as ilusões numa sincronicidade absurdamente inebriante. Mas ao mesmo tempo pode ser algo terrivelmente amargo e é cruel discorrer sobre isso quando se busca justamente a cura para a amargura através da escrita. É que a escrita é silêncio e também não é. Uma linha bem escrita soa mais forte que qualquer revolução já feita. Qualquer berro. Por isso escrevo. Por doer demais falar em vão. Sempre falamos em vão. Há uma verdadeira conspiração do que dizemos em destruir o que queríamos ter dito. Mas de alguma forma, é preciso ousar. Por isso escrevo. Como quem teve uma revelação súbita de que a vida é maravilhosa, como já disse. Porque ela é. Tudo o que parece se voltar para nossa destruição é apenas efeito do que queremos. Um dia de chuva que queríamos que fosse de sol. Ou o sol que está quente demais. Mas quando se diz que deveríamos lutar, creio não ser exatamente contra a natureza, ainda que usem exemplos como os meus para confronto. Os ascetas da vida. Eles querem dizer que deveríamos lutar contra aquilo que o homem produz. Luta homem contra homem, e não contra a natureza, que, sim, devemos aceitar, porque não tem como nos fazer mal — e a recíproca não é verdadeira. Mas o que isso tem a ver comigo? Tive um momento em que todos os problemas deixaram de existir. Não como um cientista que se depara com um novo método para explicar mais ainda a estrutura implicada do real. Esse momento, muitos o vivenciaram já. Não tem nada de novo; eu que sou novo nisso tudo, e também mais velho, já que ainda vivo. Só um segundo mais velho que seja. No momento em que não tive mais escolhas senão olhar pra baixo, para saber onde estava, e então pra frente, de pronto sabendo aonde vou. O sempilongo, o instante ativo. O que tanto tememos. A questão incessante: mil desejos satisfeitos ou apenas um conquistado? Viver o todo-dia das gentes ou avançar no escuro? É certo que de ambos os pontos tudo é divino. E onde então a diferença? É como quando nos dedicamos a uma arte. É com muita admiração que olharemos sempre para os polímatas de todos os séculos. E nem para tanto, um artista que domine mais de um estilo já será agraciado em seu meio, e quem sabe até pelos reis. No entanto, aquele que todos chamam de sábio, bem estilo Pai Mei e San San Chan, típico velho que anda devagar e corcunda pra disfarçar, é quem domina perfeitamente apenas uma coisa. O que significa: saber usá-la de todos os ângulos possíveis. Da Vinci é considerado polímata porque soube desenhar de diversas maneiras. Se um cientista adentra o espaço ficcional, ele não escreve ficção, mas uma monografia. Um romancista, fazendo ciência, poetiza. Não há quem faça mais de uma coisa na vida, só quem a faz de muitas maneiras. E essa é praticamente a definição de ser: ser dito de muitas maneiras. Acontece apenas de haver alguns paranoicos perfeccionistas. É assim que sou só. E perdido. Truncado. Satisfazer ou conquistar? E o que pode ser conquistado? A riqueza da vida? Mas como não cair na satisfação? E por que não cair nela e ser mais um? Talvez, de qualquer maneira, aqui ou lá, sejamos já apenas mais um. Então não é bem essa questão que importa. Quando me apaixonava, meu corpo fluía como uma ampulheta. Um grão de cada vez, devagar como todo melhor orgasmo, a loucura do lento. E quando o lençol estava molhado o suficiente, dormia e o dia seguinte virava a ampulheta por si próprio. Todos os dias. Incessante, eu me acabava. Ter todos os dias um prazo de validade, todos os dias me jogar no lixo para ir comprar um novo depois. Sempre me pareceu assim o homem da rotina. E por vezes, a mulher me pareceu ainda mais rotineira na rotina de vencer obstáculos. Uma graça, eles dois! Mas não pensem que eu odeio o amor (nossa, que frase…). Apenas não gosto muito de como se ama. Certamente, só conquistamos o que amamos. Não dá pra ser diferente. Pra usar esse exemplo gracioso de agora, até hoje não ouvi falar de pessoa que pudesse conquistar a rotina, é sempre o contrário. A rotina nos ama, ama tudo o que é vivo. Somos conquistados a todo momento. É do tão pouco amor que nutrimos pela rotina, porque nunca houve consentimento total nessa relação, que nos descartamos ao final do dia, como algo sujo que precisa, o quanto antes, ser substituído — porque não é possível que sejamos só isso. Bem como quando somos roubados ou uma barata anda por nossa mão. De tão pouco amor que sabemos nutrir, como saber conquistar o que se deseja? Como uma ampulheta com duas âmbulas, não dá pra quebrar a rotina a dois, não de início. Quebrar o tempo. Espalhar sua areia. E então medir.

“Sentou-se, mexendo o drinque e sentindo-se distante de mim. Preocupa-se
com a maneira pela qual o seu amor por mim vem e vai, aparece e desaparece.
Duvida de sua realidade simplesmente porque não é tão homogeneamente
gostável quanto um gatinho. Deus sabe que
 é triste. A voz humana conspira
para profanar tudo sobre a terra.”
“acontece que eu sei, e é muito difícil que alguém o saiba melhor do que eu,
que um escritor extasiadamente feliz é na maioria das vezes um tipo
deprimente demais para se ter por perto”

J. D. Salinger

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Sofro, Lídia…

Antes mesmo de poder sentar-se sobre a cama e espairecer o dia na noite claustrosa de seu quarto, por onde se movia a parede undosamente, náusea de estar imersa em longínquo estanho, ouvindo assomos vagos de folas a banhar sutil o chão antigo, sentiu a dor comprimir-lhe a cabeça, e tentou protegê-la com suas mãos qual um elmo. Que face corada! As bochechas queimavam em protesto de ondas, cortejo maldito que implora pelo outro, préstito ebúlico que incandesce pela solidão. De tal modo, sequer se lembrava por que estava assim, sofria não obstante a razão, enquanto sua mão viajava pelas paragens de cobertor alpino, os olhos diferenciavam, ao seu lado, um pequeno maço de papéis dobrados, certamente endereçado a ela, única herança do homem, recobrava-se aos poucos, de cujas exéquias participara havia horas. O dia passava distante dela, não reteve um lapso que fosse, senão o da mortalha e do cadafalso. Ah, pensava, soubesse ele o quanto sonhei.

Enfim, num relance de movimento impetuoso, embaralhando a visão, jogou-se da cama e se pôs de joelhos frente aonde estava o maço, rigidamente plano, obra típica – mussitava – de um homem como ele. Se ainda não o abrira, era devido à reverência de sempre diante dele, agora nessa sua imagem sósia, esplendor apoteótico da sapiência que ela, sentindo-se jovem despreparada de todo, nunca pensava conseguir ter. Aquele monte grosso de papel dobrado, grecoarquitetonicamente dobrado, o qual abriu com a consciência ainda onírica de quem mal acorda. Rugia a fome na presença daquelas letras ignotas, que, ainda que organizadas, confluíam com o maçante aumento sonoro de gritos e buzinas, conversas sobre nada insistentemente mantidas. Levantou-se, tomou banho e comeu como se respirasse, de modo tão maquínico que, tempos depois, recordando-se, se assustou.

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