Der tolle Dick

O gorducho bacana

Uma vez era um gordo muito mau que possuía uma empresa do mal. Como todas, essa tinha a alcunha de boazinha, uma empresa de caridade. Ele, como todo gorducho, era dono/líder dessa máfia. Naturalmente, ele tinha muitas mulheres gostosas, pois nenhuma podia-lhe servir de espelho. Não era amado por poucos, estes são os chamados “conspiradores”. Mas a maioria o amava, e sendo assim, sua empresa progredia. Qual era o objetivo da máfia? Ah, sei lá… talvez traficar crianças bonitas para um bar de strip-infantil e botar as feias de faxineiras. Era uma máfia mafiosa que fazia mafiedades.  O gordo era feliz, e também o eram seus lacaios, os outros mafiosos. Porém, fantasticamente, uma emissora, que não era patrocinada por essa empresa, um dia descobriu todo o paradeiro da empresa, divulgando-o sem nem sequer tentar um suborno. A empresa entrou em colapso. Mentira, óbvio. Quem disse que era uma grande emissora? No máximo umas duzentas pessoas assistiram a essa matéria. Mesmo assim foi tida pela maioria desses telespectadores por pilhéria. Bem que essa emissora queria que o humor deste gordo fosse regido pelo segundo movimento da sétima de Beethoven; mas ele estava mais pra “heroica”. Mas tal qual a peste, a notícia começou a se espalhar. Porém, o gordo era gordo, malandrão: mandou matar o pessoal todo dessa emissora e foi ao ar desmentir tudo e lamentar a morte deles. Foi algo engraçado. Como o gordo era confiável, ninguém duvidou. Tal qual a escravidão, a vida continua. O gordo se tornou mais gordo, rico, influente e poderoso, tendo mais mulheres, mafiando mais, até morrer, deixando seu legado para alguém aí.

Der kleine Mörder

O pequeno assassino

O rapazola estava sentado numa cadeira; o pai, bastante forte, segurava-se com as duas mãos para não cair no precipício. O garoto estava com as duas mãos no rosto e os cotovelos nos joelhos. Calmo, olhava para longe.

– Por que te sentas aí quando podia ajudar teu pai?

Um sorriso de soslaio se criou no rosto do infante. Porém parecia não rir do pai. Ou talvez risse, não sei. O fato é que estava sorrindo.

– Estranho… o fato de você ser meu pai parece te fazer pensar que está acima de qualquer outro homem para mim. Sei que os homens não são iguais, mas você não é diferente. Pego em meu pênis como se tocasse meus cabelos; penso em ti como se pensasse em qualquer outro homem.

– E por que maneira pensas em si mesmo?

– Penso em mim mesmo como se pensasse em mim mesmo, assim como você. Porque todos se olham no espelho.

O menino fica em silêncio e começa a brincar com as mãos. O pai já nem sentia o esforço de se aguentar. Olhava para ele como se o peso de seu corpo agora estivesse em seus olhos, pois aquilo equivalia ao peso do mundo, o silêncio.

– Como se me esquecesse brincas aí. Angustias-me e nem sabes o quanto.

O rapaz já dormia.

– Fico aqui imaginando como tua mãe se sentiria se nos visse nessa condição, o quanto ela choraria. Pense quando ela ainda lhe dava de mamar; o quanto nós nos divertíamos. Podemos ter tudo de volta. Mas dormes…

Após um tempo o pequeno acordou. Pôs-se na mesma posição de antes e olhou ao seu pai. O pai não conseguia olhá-lo fixamente. Uma hora quis tentar, mas não conseguiu, ou estava com os olhos cansados pelo sono, ou estava delirando. Limitou-se a olhá-lo uma vez ou outra. Mas ele ainda o olhava fixamente.

– No momento do desespero acontece uma interessante troca de personalidades: os homens viram mulheres e as mulheres, homens. Queria saber o porquê, mas também queria me importar mais.

O pai olhava precipício abaixo.

– Tua vida inteira foi um fracasso. Devias ter sido a razão de unificação de teus pais – não é a tua religião que diz que o casamento é um pressuposto para o reino dos céus? –, mas foste a ruína, porque eles queriam um novo começo, uma nova criança, uma nova possibilidade, mas você fracassou em todos os sentidos. Bastou crescer. Parece que você desejou ser o pior, mesmo não o sendo, apenas para poder criar uma personalidade autônoma, para se rebelar contra eles. Parece que os jovens só são capazes de ser, criar, desenvolver, enquanto inversos. Mas cuidado, não olhe muito pro abismo. Hoje você vive se lamentando, reclamando e xingando pelos muitos problemas, pelas tantas injustiças, tudo; mas eu não te culpo (mentira), talvez esse seja o modo que você achou para dar algum sentido àlguma coisa que você ainda nem sabe o que é. Os jovens, e isso é engraçado, se preocupam tanto em negar as coisas que acabam por se tornar adultos em negativo – os verdadeiros arquitetos são raros. – neste instante o pai o olha como a um monstro – Mas todos estão fadados ao abismo. Lembro de você ter me dito sobre os roubos que você cometeu com teus amigos durante a juventude: você tinha dinheiro!, você não era da classe de teus amigos, você tinha um milhão de talheres para comer, dependendo do que era servido. Mas o ter pela compra não traz nenhum preenchimento, assim como não trazia o ser educado. Você gostava de subir na casa de amigos que moravam em prédios só para poder cuspir nas pessoas. Tudo pra mascarar o fato de que ao final do dia você teria de voltar pra casa e ser escarrado por seus pais. Você me incentivou a andar de bicicleta com o pressuposto de que foi algo muito bom e influenciante em tua juventude. O motivo é óbvio: você amava o ar fresco e forte em sua cara – você o queria inteiramente –, pois os teus pais te roubavam todo ar. Você matava cachorros e ratos, desmembrando, estes últimos, sobre uma vela, porque você queria saber como teus pais se sentiam ao te ver. Você…

Neste instante o pai caiu no abismo.

– Ela também fez isso! – gritou a criança, olhando muito curiosa para o pai cadente.

Sentou-se.

– O peso da vida deve ser grande.

Der genie Mensch

O homem gênio

Nunca ouviram falar do homem que de sua casa saiu no meio do crepúsculo, na rua consideravelmente populosa, pôs-se a gritar como em tom de discurso estivesse: “Parem! Parem!”? Como era de se esperar, a plateia não entendeu o que ele falava, ou melhor, não entendeu o porquê de ele aquilo falar. – “Parem de me louvar, parem de me copiar, parem de me desenvolver, parem de me citar, parem de me enforcar! Não, não, não quero mais isso! Parem com tudo! Suspendam os livros! Suspendam os leitores! Suspendam tudo aquilo que tiver alguma relação comigo!” – O povo o olhava cada vez mais atonitamente – “Por que será que ele faz isso?” – “Um homem tão conceituado, de sua estirpe.” – “Deve estar louco, isso é bem comum pros gênios.” – “Parem, parem!”, exclamou. “Não entendem que eu não quero ser nada disso? Não entendem que eu quero ser refutado?”

Die Selbstbildung

A formação-própria

Parece-me certo dizer que aquilo que há de mais impressionante no conhecer não é ele em si, mas o fato de esquecermos o que sabíamos para dar lugar ao que apreendemos de novo. É impossível olhar da maneira antiga algo que já obtemos mais conhecimento. No máximo, ela se mantém ali como uma forma de rememoração, mas nunca de memoração. Tão-somente para rirmos de como víamos as coisas, para saber reconhecer o erro – aí está um bom uso da rememoração. Mas quando estamos no ato de pensar e aprender, aquilo que tínhamos por certo cai por terra para permitir o reerguer de uma terra mais bonita e caótica. O aprender é um eterno esquecer, decerto, e isso porque temos ânsia pelo novo. O cristianismo (e todas as outras religiões) não permitiu nada além do oposto disso – 13 regras de fé, salmos, leis, sermões, isto é, dogmas. Se há religião, há falta do esquecimento, logo, não há educação, mas apenas doutrinação, que é o esquecimento do esquecimento. O aprendizado só é possível enquanto autônomo, enquanto lúdico.

Verfall

Decadência

É como estar cansado. Como se as horas estivessem mortas. Como se os dias fossem piscadas. É como um rio transformado em lágrima. Coisas mortas, natimortos. Um aborto espontâneo. Incontrolavelmente livre – aprisionado como reflexo. Determinado aleatoriamente. Sujeitado inconscientemente. Bipolaridade existencial. Chicoteamento enérgico e descontrolado de si próprio. Confusão desorganizada. Perda de sentido. Decadência. Engasgar com o próprio vômito. Perda parcial de memória – total – (memórias falsas). Inexistência contraditória. Contradição impessoal. Letras e frases que se arrastam. Inconcebível interpretação. Fluxo desordenado de ideias, loucura. Demência controlada pelo medo. Medo inexistente. Esconderijos visíveis, esquisofrenoide. Pleonasmo. Sem fôlego, até o momento em que as coisas fluem, até o momento em que elas decidem pegar no tranco, até o momento em que nos esquecemos de quem somos. Assim, alegrando-se indevidamente da tolice de ser, sem ser um ser, somos. Papéis irreais. Sonhos irreais, letras sujas. Nem um pingo de nobreza escorre… Inadvertidamente lamentável. A angústia de ser incompleto. 8 ou 80. Quem tudo quer nada tem. Marcas indeléveis. Definitiva em um ser irreal. Fantasmagórico. Intermitentemente constante. Contraditório. Pleonástico. Indefinível. Impessoal. Terceira pessoa do singular. Jogado em um canto, do avesso. Imprecisamente prescindível. Lembre-te, o que há de grande em ti, morre contigo. Há almas que nunca se descobrirão, a não ser que se principie por inventá-las. Insensatez. Incoerência. De minha parte, poupá-lo-ei. Ele não se poupará. Auge doentio. Caos. Irrefletidamente cansado. Decididamente anulado. Conclusivamente despedido. Naturalmente enterrado. Que desse resto de qualquer coisa ignóbil possa eclodir… nada vale a pena em rebanho.

Der Knabe

O rapaz

É um rapaz. 21 anos, com certa saliência. Ele parece ser do tipo solitário, do tipo leitor. Aquele tipo de rapaz que gosta de ficar horas a fio numa praia com algum livro de filosofia. Ou algo do tipo, é-me difícil de dizer. Até para ele é difícil de dizer algo sobre si mesmo – ele sempre acaba por ficar em silêncio face a essas perguntas. Não é algo que o agrada, parece sentir-se desconfortável em atribuir qualquer coisa que o limite a fala, escrita ou filosofia. Não havia nada mais sufocante do que se apresentar. Por isso ele não tinha nome, em suas horas de solidão. Ele não tinha idade e nem nada. Algo complicado.

Era do tipo peculiar, talvez. Não fazia questão de ter amigos e nem inimigos. Ele os tinha, decerto, mas gostava de dar mais lugar à sua solidão. Gostava da internet, mas ela sempre acabava por tirá-lo do sério: nunca havia nada de bom: um monte de jovens e adultos presunçosos que esperam ser ouvidos. Ele não queria ser ouvido, parecia, antes, querer se ouvir. Mas, ele não acreditava em Deus ou deus ou deuses, naturalmente. Mas, quanta descrição, quanta chatice! Era apenas um rapaz.

Um dia, quando estava em sua querida praia lendo algum livro, ele se encontrou com uma garota. Uma garota bem bonita, de cabelo cacheado, loira. Ela mostrou interesse pelo rapaz que estava ali sozinho, mas feliz com seu livro. Não pôde aguentar não ir falar com o rapaz, desvencilhando-se de suas amigas. Ela não queria, por algum motivo, que elas a vissem, então pediu para que continuassem sem ela. A garota começou se aproximando timidamente do rapaz; ele nem sequer a percebia, o mundo é a sua vontade e representação, logo, ele o destrói como bem entender. A garota percebia que ele não a via e que nem a veria. Então ela foi se aproximando mais, até que se sentou ao seu lado. A garota, como é natural de todos e todas, estava curiosa para saber o que ele lia. O rapaz ainda assim não a percebeu. Então ela inclinou a cabeça, quase imitando uma ema, e conseguiu ver que livro era. Ela o cutucou.

– Olá. Tudo bem?

O rapaz ficou relutante. “O que será que essa menina quer? Não percebe que leio?”

– Tudo bem sim.

O rapaz não queria saber se ela estava bem ou não – isso sinceramente não o interessava em nada.

– O que você está achando do livro?

Ele poderia ser mais interessante. Tipo você, você é interessante.

A garota imediatamente corou.

– Mas, por quê? O que não chama muita atenção?

– Bem, o autor é bem fraco em seus argumentos, ele se contradiz, às vezes. Ele atribui certas coisas a coisas que não tem nada a ver. Como pode um autor desses fazer ou ter feito tanto sucesso? As pessoas não sabem ler.

– Concordo contigo. Fora que esse livro contradiz totalmente aquele outro.

– Verdade! Já o leu?

– Lógico, sempre me interessei pelo assunto.

A conversa continuou de forma a cada vez mais se aprofundar no assunto. Bem, todos sabem, agora, que ela virou namorada dele, que eles ficaram loucos um pelo outro, fizeram muito sexo. E como é de se esperar, terminaram. Mas, isso não importa, isso não é uma comédia romântica.

O rapaz costumava a vê-la com olhos bem diferentes. Ele passou a ler menos e prestar mais atenção nela, a querê-la mais, a ser menos ele mesmo. Estava lendo menos, escrevendo menos, pensando menos. Como? Ele simplesmente passou a ter apenas um objeto sensível, a garota. Dificilmente ele conseguia se importar com outra coisa.

Em um dado momento, a garota começou a contar mais sobre o que pensava para o rapaz. Nunca ficara tão feliz, o rapaz. Finalmente poderia entender melhor o que passava por aquela cabeça pensante, uma pessoa diferente, jovial. Grega, quem sabe. Prometeu-a que não faria concessão alguma, queria apenas ouvir.

– O pensamento é instintivo. Parece-me que essa conclusão é irrefutável, pois por mais que você tente não pensar – como querem os ascetas – você acaba por pensar em não pensar, logo, pensa. E me parece ainda mais difícil dizer que não há certas coisas que são inerentes de se pensar: entendes do que falo? Então, acho muito difícil conceber um mundo à toa. Não me soa direito um relógio nascer de algo que não um relojoeiro. Isso é Voltaire; sei que sabe. Mas, não me importo. Vou para lá, vou pra acolá, e você sabe disso. Não deixarei de ir, pois são lugares que me fazem bem.

“Ó! Mas essa puta!”, pensou o rapaz. “Como pode ela ser tão atrevida! Uma verdadeira vadia. Não consegue compreender nada de nada, e ainda fala como se fosse alguém que pensasse. Não sabe o que lê, não sabe ouvir boas músicas. Uma verdadeira meretriz.”

– Não responderei, como prometi.

O rapaz não mudou seu olhar sobre ela: ainda a amava.

Seu quarto não era mais seu. Ele agora o dividia com a garota. Era um lugar bem calmo, arrumado, límpido, com uma prateleira com bons livros, ao lado havia a mesa do computador, do outro lado havia a cama, e de um outro havia uma mesa de estudos, com vários livros, papéis, canetas todas empoeiradas. Ele não se dava conta das nuances de seu quarto de hoje com o de outrora. Ele só via aquilo que a garota tocava, só via os lugares em que ela estava. Às vezes ele ficava olhando pro chão.

A garota sabia seduzir, “como uma verdadeira libertina”, pensava ele. Assustava-se com muita facilidade. “Quando uma mulher quer algo, ela fica assustadora.” Isso lhe parecia uma boa verdade, apesar de não ter tido muito contato com garotas, até agora. “Será que ela pode ser visto como uma metonímia?” Ele não se cansava de pensar isso, parecia haver algum tipo de arrependimento pelo tempo “perdido” em meio a seus livros. Mas, ele sabia que não era tempo perdido, ele sabia que aquilo não duraria muito. Mas, e daí?

Quanto mais tempo passava com ela, mais se sentia perdido. Perdidamente apaixonado? Perdidamente perdido? Nem ele saberia dizer. O caso é que ele estava perdido, de alguma forma, não importava no quê. Parecia sentir falta dos tempos de leitura, mas nem se lembrava de considerar isso. Talvez porque sua namorada não estivesse nessa consideração. O caso é que ele estava começando a odiá-la. Ou antes, começando a odiar amá-la. Odiar não poder se desvencilhar de algo tão maldito quanto aquela mulher. Seria ela algum tipo de deusa hindu que criou o mundo e pode destruí-lo? Não é isso absurdo? Mas, e daí que tal consideração vinha do silêncio? Ou daquilo que não se pode ouvir? De que importa? Não tem a menor importância isso, o que importa é que ela criara o mundo dentro desse rapaz e que esse rapaz sabia que ela podia destruí-lo. Ela parecia tomar formas diferentes. Parecia que dava vários nós numa agulheta, vários e vários. Pra que isso? Estaria doida? Ou eu estou enxergando coisas? Mas, e daí?

Um dia desses eles resolveram sair para algum restaurante ou boate ou qualquer merda do tipo. Não importa. O lugar era um tipo de bar blues, com um bom ar, boa música, comida e bebida. Não poderia ficar melhor: sua mulher estava ali, ele estava ali, o garçom estava ali e sumia, como é natural. Seus lugares eram bem confortáveis, não dessas poltronas falsamente confortáveis, mas do tipo que você pode ser engolido por ela, tal qual uma andorinha na barriga de uma balofa. A garota comia graciosamente, o rapaz a observava com um carinho tão grande, um amor tão além da conta. Seu olhar o deixava maluco, ela sabia o que fazia e como o fazer. O rapaz sabia que ela sabia, mas fingia não saber, afinal, pra quê? Estava ele caindo no abismo, por que, então, não imaginar que não caía e transformar o abismo numa praia? Não poderia o fazer mal e nem bem, tanto faz. O rapaz entendia a garota, a garota o entendia. Mas, a garota não se entendia. Isso causava um certo desconforto no rapaz, ele queria que ela se entendesse, mas ela cria. O rapaz não podia pensar em música melhor do que “Strani Amori”. Parecia gritar dentro de si uma incessante sua voz: “prigioneri liberi”. Entendê-lo? Nunca conseguiria. Apesar de ele apreciar Renato Russo como poucos sabiam apreciar, ele não entendia o porquê de essa sua voz se repetir tanto. Pra que se repetia? Mas, mais importante, e daí?

A garota não parecia ter família. Aquelas amigas o rapaz nunca mais viu com ela. Então ele começou a imaginar que talvez o mesmo estivesse acontecendo com a garota, quer dizer, o mesmo por que ele estava passando a garota também passava. Ele começou a cogitar seriamente essa possibilidade, começando a segui-la mais ferozmente do que nunca. Não que ele precisasse ser uma espião, é só que às vezes seu olhar ficava embaçado por sua visão. Ele não entendia isso. Mas, acabou por não descobrir nada. A garota não mostrava nada. Talvez não sentisse. Ele estava imaginando coisas. A garota o fazia mal. Ele não se importava, porque ele gostava de sofrer, foi o que percebera. Ou talvez aquele mal não fosse um pleno mal. A garota não o fazia mal. Esqueçam. É um rapaz estranho, complicado. Nem ele saberia como se descrever no momento ou como descrever o que aquela garota fazia com ele. O rapaz não queria mais pensar, a garota fez isso com ele, agora ele tem de pagar o preço de ter parado de ler aquele livro na praia. Tudo por causa de uma garota estranha. Que medo da mulher que quer algo.

Mas, o medo dele não era essas coisas todas. Ele não parecia temer muita coisa. Costumava a rir e sorrir bastante, mas não era daqueles que ria de uma piada e nem aquele que as contava. Ele ria dos trouxas: os trouxas divertem mais do que qualquer televisão.

A garota, pela primeira vez, sai da casa do rapaz e o leva para sua casa. Eles, naturalmente, fazem sexo em todos os cômodos e então ficam na mesa conversando. Não vale a pena mostrar o que conversaram. A casa era bonita e grande. Mas, era um silêncio tão grande sempre: não havia cachorro, gato, papagaio, mosquito, nada! Aquilo era uma casa silenciosa. Talvez a casa fosse à prova de som. Não importava. A casa agradava-o. Pinturas de Renoir e Monet. Havia uma em especial que o impressionava de uma maneira que ele se sentiu um Míchkin vendo a pintura de Jesus na casa de Rogójin. Era uma criança pintando. Nossa, como aquilo o estonteava, como aquilo o fazia voar para dentro da pintura e além de toda pintura, mundo, corpo e realidade. Ele se via criança e se era e estava criança. Pela primeira vez pôde se sentir algo além de si mesmo – nada metafísico, nada nada, apenas sensação. Ele tinha uma vontade gritante de ser aquilo que a criança estava pintando. Talvez de ser também aquele pincel. Às vezes queria ser a criança. Mas, no fundo, queria ser o quadro inteiro. Aquele quadro representava o todo do todo. Ele ficou aflitíssimo por não poder ver o que a criança pintava. Chegou a pensar que ela pintava o próprio quadro que ele via, mas a criança não se importava com isso. Talvez ele estivesse pintando Picasso. Mas, é mentira, ela estava pintando o nada, porque ela estava criançando, criando, brincando. O rapaz começou a gritar muito alto, a bater os pés contra o chão violentamente. Começou a rir como nunca. A namorada parece não o ter ouvido, mas isso não importava. O rapaz nunca fora tão feliz.

Após tais episódios, o rapaz começou, aos poucos, a voltar às suas leituras. Ele não conseguia mais não só ver a garota. Ele teve de tirar o antolho. Ele se destruiu ao tirar o antolho, então ele precisava se reconstruir. Os livros não eram refúgio algum. A realidade e a garota não eram refúgio algum. “Nada é refúgio – que ideia de refúgio tão negativizada é essa? Não há negatividade, apenas fluxos”, pensava o rapaz. “Se a negatividade não existe, então não existe qualquer possibilidade de algo estar negativizado tanto em sua essência quanto fora dela. Trazendo à tona o pensamento do fluxo, com certeza estarei dando ao devir seu devido lugar, pois, assim como é com o universo, as coisas seguem fluxos ora baixos, ora médios e ora grandes. Mas, também a positividade não há, do mesmo jeito. A realidade não é positivo e nem negativo, ela não tem nada de um princípio de parâmetros. E as coisas são da mesma forma. A negatividade de algo não é uma negatividade em si, mas apenas um estado dela. Se fosse pensar em outros termos, diria que o mal é aquilo que há de fluxo grande, o tempo decorrente dele é o médio, e o tempo do bem é o de fluxo baixo, pois é no fluxo baixo que há menor, quase nenhuma, atividade, logo, é o tempo de preservação daquilo que suscitou no fluxo grande, principalmente. O mundo é um fluxo, e se não for, pouco importa para qualquer um. Poucas coisas mudarão algo.”

O rapaz aos poucos compreendia mais a garota. “Somente quando me afastei dela que a entendi. O próximo é penoso”, pensou ele. Quanto mais a entendia, mais sentia certo nojo dela, pois via como ela era todo o oposto do que ele pensava e agia. Ela lia textos imbecis, ouvia músicas mentecaptas. Mas, ele ainda a amava – e o pior era ela saber disso. A garota era um monstro, ele não entendia nada dela. Quanto mais tempo ele se afastava dela, quanto mais a evitava, mais via seus movimentos. A garota pareceu sumir por um tempo: não ligava, não mandava mensagens e nem nada, sumira. Ele começou a se preocupar um pouco. Após alguns dias sem contato algum, ele foi procurá-la. Foi à sua casa, foi à praia que se encontraram pela primeira vez, foi ao bar, foi a todos os lugares possíveis, mas parece que a possibilidade não estava com ele.

Passados mais alguns dias, ele começou a ficar preocupadíssimo. Ele não podia matar um inseto sequer que diversos pensamentos horríveis o cercavam. Um exemplo: “Como posso carregar o fardo de ter arrancado a vida, a possibilidade de algo, sua fluxuosidade. Todas as possibilidades que ela tinha de fazer algo, de viver algo, de ser algo foram reduzidas ao nada, tudo está fadado a esse fim. Mas, quem aguentará o fardo de morrer? Como pude eu carregar mais esse peso? Tudo por causa de nada! …” O rapaz se martirizava pelas menores coisas, pelas mais efêmeras e risíveis. Então ele se lembrava da terrível pergunta: e daí?

A garota sumiu. O rapaz não. Ele parava para pensar sobre toda essa relação. Ele se ria bastante: tudo isso virou um quadro bem bonito, peculiar e primeiro de sua série. O rapaz, então, percebeu uma coisa engraçada: ambos nunca falaram sobre os pais e nenhum parente. Talvez aquelas amigas da garota fossem suas parentes. Mas, é mais provável que essa garota nunca tenha existido. Talvez ele tenha feito sexo consigo mesmo esse tempo todo.