Der kleine Mörder

O pequeno assassino

O rapazola estava sentado numa cadeira; o pai, bastante forte, segurava-se com as duas mãos para não cair no precipício. O garoto estava com as duas mãos no rosto e os cotovelos nos joelhos. Calmo, olhava para longe.

– Por que te sentas aí quando podia ajudar teu pai?

Um sorriso de soslaio se criou no rosto do infante. Porém parecia não rir do pai. Ou talvez risse, não sei. O fato é que estava sorrindo.

– Estranho… o fato de você ser meu pai parece te fazer pensar que está acima de qualquer outro homem para mim. Sei que os homens não são iguais, mas você não é diferente. Pego em meu pênis como se tocasse meus cabelos; penso em ti como se pensasse em qualquer outro homem.

– E por que maneira pensas em si mesmo?

– Penso em mim mesmo como se pensasse em mim mesmo, assim como você. Porque todos se olham no espelho.

O menino fica em silêncio e começa a brincar com as mãos. O pai já nem sentia o esforço de se aguentar. Olhava para ele como se o peso de seu corpo agora estivesse em seus olhos, pois aquilo equivalia ao peso do mundo, o silêncio.

– Como se me esquecesse brincas aí. Angustias-me e nem sabes o quanto.

O rapaz já dormia.

– Fico aqui imaginando como tua mãe se sentiria se nos visse nessa condição, o quanto ela choraria. Pense quando ela ainda lhe dava de mamar; o quanto nós nos divertíamos. Podemos ter tudo de volta. Mas dormes…

Após um tempo o pequeno acordou. Pôs-se na mesma posição de antes e olhou ao seu pai. O pai não conseguia olhá-lo fixamente. Uma hora quis tentar, mas não conseguiu, ou estava com os olhos cansados pelo sono, ou estava delirando. Limitou-se a olhá-lo uma vez ou outra. Mas ele ainda o olhava fixamente.

– No momento do desespero acontece uma interessante troca de personalidades: os homens viram mulheres e as mulheres, homens. Queria saber o porquê, mas também queria me importar mais.

O pai olhava precipício abaixo.

– Tua vida inteira foi um fracasso. Devias ter sido a razão de unificação de teus pais – não é a tua religião que diz que o casamento é um pressuposto para o reino dos céus? –, mas foste a ruína, porque eles queriam um novo começo, uma nova criança, uma nova possibilidade, mas você fracassou em todos os sentidos. Bastou crescer. Parece que você desejou ser o pior, mesmo não o sendo, apenas para poder criar uma personalidade autônoma, para se rebelar contra eles. Parece que os jovens só são capazes de ser, criar, desenvolver, enquanto inversos. Mas cuidado, não olhe muito pro abismo. Hoje você vive se lamentando, reclamando e xingando pelos muitos problemas, pelas tantas injustiças, tudo; mas eu não te culpo (mentira), talvez esse seja o modo que você achou para dar algum sentido àlguma coisa que você ainda nem sabe o que é. Os jovens, e isso é engraçado, se preocupam tanto em negar as coisas que acabam por se tornar adultos em negativo – os verdadeiros arquitetos são raros. – neste instante o pai o olha como a um monstro – Mas todos estão fadados ao abismo. Lembro de você ter me dito sobre os roubos que você cometeu com teus amigos durante a juventude: você tinha dinheiro!, você não era da classe de teus amigos, você tinha um milhão de talheres para comer, dependendo do que era servido. Mas o ter pela compra não traz nenhum preenchimento, assim como não trazia o ser educado. Você gostava de subir na casa de amigos que moravam em prédios só para poder cuspir nas pessoas. Tudo pra mascarar o fato de que ao final do dia você teria de voltar pra casa e ser escarrado por seus pais. Você me incentivou a andar de bicicleta com o pressuposto de que foi algo muito bom e influenciante em tua juventude. O motivo é óbvio: você amava o ar fresco e forte em sua cara – você o queria inteiramente –, pois os teus pais te roubavam todo ar. Você matava cachorros e ratos, desmembrando, estes últimos, sobre uma vela, porque você queria saber como teus pais se sentiam ao te ver. Você…

Neste instante o pai caiu no abismo.

– Ela também fez isso! – gritou a criança, olhando muito curiosa para o pai cadente.

Sentou-se.

– O peso da vida deve ser grande.

Anúncios

Um comentário em “Der kleine Mörder

  1. Liz disse:

    mó daora!
    Esse final é arrepiante.

Comentem!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s