Die zwei Knaben im Tunnel

Os dois garotos no túnel

Eles estavam correndo bastante. Não entendo bem o porquê, mas eles estavam correndo; com certeza haviam feito algo. Desceram, escorregaram um pouco por causa da neve. Com certeza essa neve era do dia anterior, pois não nevava no momento, o que seria muito pior para os rapazes.

– E aí, foi bom pra você? – perguntou o primeiro rapaz. Puseram-se a rir, mas não entendiam direito o que aquilo significava, apenas falavam porque ouviam isso acompanhado de risadas bobocas dos adultos.

– Mas, cara, por que é que você não me contou antes que a gente ia fazer isso? – perguntou o segundo rapaz – Eu realmente fiquei assustado no início, não entendi direito o que você estava fazendo.

– Se eu te contasse, você acabaria por se opor ao plano, e eu não queria isso.

Os dois rapazes estavam cansados de tanto correr. Eles se olhavam e riam às vezes.

– Ninguém mandou ela se meter com a gente.

– Eu já estava arquitetando um plano para fazer algo com ela, mas não esperava que você estivesse tanto na minha frente.

– Pois é, eu estive pensando desde quando ela nos fez aquilo.

Os rapazes estavam bem satisfeitos do que haviam feito e queriam saber como contariam a um grupo. Então eles começaram a treinar ali mesmo como fariam o discurso.

– A gente teria de começar desde o início.

– Verdade, desde quando conhecemos ela.

– Então seria algo assim:

Há alguns dias atrás, veio à vizinhança uma nova garota, bem bonita, jeitosa. Ela se tornou amiga de todos bem depressa: as mães e os pais gostavam dela, os garotos babavam por ela e as garotas queriam sempre estar com ela. Um dia, dois garotos queriam brincar de pique-esconde com ela. Nessa semana, estavam todas as outras crianças viajando, só estavam lá essas três crianças. A menina estava vestida com um vestido azul com bordados, meia calça grossa, blusa, sapatilhas, luvas e um chapéu preto bem bonito. Os garotos estavam com roupas habituais: calça jeans, blusa, luvas, gorro e cachecol. A menina aceitou de bom grado brincar com eles. Então eles brincaram de pique-esconde. A menina nunca contava. Eu contei e os outros dois se esconderam. Mas esse rapaz acabou por se esconder no mesmo lugar que a garota, sendo que esta já estava lá antes. Foi uma coincidência divertida; eles já não podiam sair dali, pois eu já estava procurando-os. Eles tinham de ficar com os corpos tão colados para não serem vistos que a garota, que gostava dele, acabou por beijar-lhe a bochecha. Foi algo muito bom. Juraram casamento ali mesmo. O mesmo aconteceu quando eu fui me esconder, exatamente a mesma coisa. Foi sinistro. A menina continuou com esse joguinho por bastante tempo, até que os dois rapazes contaram que estavam jurados já. Eles quiseram manter segredo um do outro, mas não conseguiram. Quando ficaram sabendo, ah… a coisa ficou mais que dahora. Os rapazes foram à procura da menina. Eles disseram que queriam mostrar um novo jogo que eles criaram. Andaram bastante até que chegaram numa rodovia bem movimentada, eles estavam numa ponte. “Agora, você tem que fechar os olhos e contar até dez.” Eu fiz alguns sinais para o meu amigo e então a pegamos no colo e quando ela gritou “Dez” eu falei: “CASE-SE COM ISSO!” E ela caiu sem querer no meio dos carros.

– Está bom?

– Está ótimo. Daí eu poderia continuar:

Mas eu, percebendo que ele iria matá-la, puxei-a pela blusa. A menina ficou tão assustada que chorou bastante. Acabamos por convencê-la que tudo fazia parte do jogo e que depois, quando estivesse mais calma, podia fazer isso comigo. Ela se acalmou e acabou por voltar a ficar risonha e bonita do jeito que era. Na verdade, nem sei como ela não ouviu ele gritando, mas tudo bem. Levamo-la para uma casa e dissemos que havia uma outra brincadeira muito mais divertida e segura. Ela ficou apreensiva, mas logo aceitou e quis saber qual era a brincadeira. Fizeram primeiro comigo, só pra amenizar o efeito da outra brincadeira. Fizemos qualquer bobagem lá, ela gostou e pediu para ser a próxima. Então a botamos na mesa, amarramos ela e vendamos seus olhos. Dissemos que faríamos a brincadeira do jeito das meninas, que assim ela iria gostar mais. Ela ficou ansiosa para começarmos. Começamos pegando uma barata e a fizemos comer. Já que ela não podia ver, não foi grande problema, ela até gostou do gosto. Ficamos olhando-a e tentando sacar alguma outra ideia. A menina tinha estômago de aço, conseguiu engolir coisas que ela vomitaria se pudesse ver. Então resolvemos uma coisa ainda mais legal: tiramos sua venda e demos um beijo em suas bochechas. Logo ela entendeu no que se metera, logo pôde entender que não poderia sair dali sem pagar caro. Os rapazes se olharam e beijaram a menina na boca ao mesmo tempo. Foi engraçado, porque ela ficou toda lambida. Ela começou a chorar e pedir desculpas. Fazia um beiçinho muito fofo. Só que não havia perdão para aquilo, ela teria de se contentar com isso. Tiramos no par ou ímpar quem ia começar. Eu ganhei. Comecei dando muita paulada na cara dela. Ela chorava bastante e já estava bem machucada. Foi a vez dele. Fez o mesmo. Ao final de três rodadas, ela já não tinha forças para falar, nem para gritar. Soltamos ela. Ela cuspia sangue e tinha marcas roxas por todo o corpo. Então simplesmente demos o golpe final.

– Está bom?

– Está ótimo.

§

Quando saíra de casa, a mãe pediu para ela se cuidar, como era praxe. A menina foi alegre, mas já estava tarde pra volta, e isso não acontecia de jeito algum. A mãe achou estranho. Era viúva; o marido morreu, foi a doença de Charcot, não havia jeito. Durou mais do que os médicos premeditaram, mas morreu. A mãe, desde então, fizera o máximo para que sua filha não sentisse falta daquilo que os outros têm, sempre tentou ocupar os dois lugares, tentou sempre estar disposta, uma mãe plural. Já estava tarde, mas tentou não se preocupar. Ainda assim, saiu à rua em sua busca. Estava frio, ela não pretendia ir muito longe, então não vestiu muita blusa. Percebendo que teria de ir mais longe do que imaginara, voltou e se agasalhou mais. Saiu em uma busca silenciosa, ela não é o tipo de mulher que gosta de baderna, sedições, mutirões e qualquer coisa que chame muita atenção, gosta de ficar no seu canto. Procurando em todos os cantos e perguntando gentilmente àlgumas pessoas se viram a filha, começou a se preocupar. Mantendo a calma, lógico. Aventurou-se a ir a lugares pouco prováveis de sua filha estar, mas não custava nada olhar lá. Então ela acabou se deparando com o único outro lugar que ela podia estar, além da estrada. Já tinha lhe falado um monte de vezes para não ir além da estrada, era perigoso, era longe de casa, e se ela se machucasse, seria mais difícil de socorrê-la. “Ah, essas crianças.” – pensou. Então começou a procurá-la além-estrada. Conseguiu encontrá-la, infelizmente. Chorou bastante, óbvio. Não entendia as razões de nada. Mas enfim, todos já sabem sobre essas coisas. Mas e daí? E depois? A mãe deixou o corpo onde estava, ficou bastante desnorteada, resolveu ir pra casa e ligar pra polícia e declará-la como perdida, assim traria menos confusão talvez. Mas antes de ir pra casa a mãe resolveu se sentar em algum lugar, acabou por encontrar um túnel logo abaixo de onde estava. Encontrou ali dois garotos, amigos dela, ela sabia. Ficou ali com eles, não fazia diferença se eles estavam ali ou não, o mais importante era que a filha nunca mais estaria ali. Os rapazes pensaram em sair, mas acharam que isso seria suspeito aos olhos da mãe. Resolveram ficar. A mulher os via brincar de algo, eles brincavam com a neve. Ela perguntou se podia participar da brincadeira, os rapazes não viam problema. Eles estavam desenhando na neve. A mulher desenhou uma janela aberta; o primeiro rapaz desenhou um boneco com uma espada; e o outro desenhou um diabinho e um anjinho. A mulher conseguiu esboçar um sorriso com todos aqueles desenhos. Os rapazes se olharam e sorriram também para ela, acabando por abraçá-la. A mulher chorou tendo-os ao seu lado, os garotos não souberam como reagir. Acariciavam-na os cabelos e enxugavam suas lágrimas, a mulher pediu desculpa por fazer aquele papel na frente deles, que eles não tinham culpa de nada. Os garotos abraçaram-na ainda mais forte e disseram que a ajudariam no que ela precisasse. Ela agradeceu e retribuiu o abraço, disse que os pais deles têm sorte de tê-los como filhos. Recomendou que voltassem pra casa, pois já era tarde. Os rapazes não titubearam – não era essa a deixa? –. A mulher aproveitou para ir também. Foi junto com eles, não por desconfiança, mas por achar que seria melhor ir acompanhada, não queria estar sozinha. “Nem que fossem esses os assassinos, eu pediria que me acompanhassem até em casa.” – pensou e riu desse pensamento. Os garotos fizeram de tudo para que ela ficasse mais alegre, eles queriam vê-la sorrir. Eles conseguiram às vezes, mas não durava muito, a ferida ainda estava muito recente, muito aberta. Os rapazes deixaram-na em casa e queriam muito saber o que houve com ela, o porquê de ela estar tão triste. Ela os convidou para dentro, mas afirmou que só os deixaria ali por alguns minutos, não muitos, pois já era tarde e seus pais já deviam estar preocupados.

§

É lógico que os rapazes sabiam a razão da tristeza da mulher, mas eles queriam ouvir isso de seus lábios, queriam poder mostrar que estavam muito sentidos pela perda. A mulher veio da cozinha trazendo duas xícaras de leite quente, o que foi bem apreciado pelos rapazes. Voltou à cozinha e trouxe sua xícara de café. Os rapazes, que estavam de frente pra mulher, mudaram de lugar e ficaram ao lado dela, queriam intimidade e não tinham vergonha disso, e a mulher aceitou com muito apreço. Conhecendo como chegar aonde queriam, os rapazes não começaram com perguntas imbecis do tipo “Ué, onde está a sua filha?”. Eles começaram conversando sobre como gostavam de morar ali, como as coisas ficaram mais legais quando elas se mudaram para a vila. A mulher ficava mais triste e os rapazes a acalmaram de novo. Perguntaram-na o que houve e que queriam saber a verdade, pois eles não eram burros só porque eram crianças. Ela disse saber disso e que precisava apenas de um pouco de tempo. Então ela começou a falar sobre como sua filha ainda não estava em casa, sobre como estava preocupada e saíra à sua procura. Os rapazes prestavam muito atenção na história, o que impulsionou a mulher a continuá-la. À medida que falava, a mulher se sentia mais leve, o que é normal, como todos sabem. Mas também as lágrimas saíam com mais frequência e as pausas se alongavam cada vez mais. Os garotos eram pacientes, o chocolate ainda estava quente. Algumas lágrimas caíam também de seus rostos; a mulher se recompunha. Até que chegou no grande clímax:

– Encontrei minha filha num casebre, quase uma cabana. A porta estava aberta, parece que os assassinos queriam que todos vissem o que acontecera. Ela estava deitada e havia sangue à sua volta. O corpo estava estirado no chão, o braço direito na frente, o esquerdo pra trás, e as pernas estavam retas, parece que foram quebradas, o que a impossibilitava de mexê-las. O cabelo estava todo por cima da cabeça, junto ao sangue. Tinha um corte imenso na cabeça, provavelmente foi uma faca. Atrás dela havia uma cadeira e atrás da cadeira haviam cordas, com certeza as que foram usadas para amarrá-la. Eu quis virar seu corpo, quis ver o rosto de minha filha pela última vez. (Pausa). Eu sabia que era ela pela roupa, mas nunca saberia se visse só o rosto. (Pausa). Botei o corpo de volta na posição em que estava e fui embora, mas acabei por entrar no túnel em que vocês estavam. Resolvi chamar a polícia e dizer que minha filha está perdida.

Os rapazes soluçavam de choro junto a mãe. Talvez se arrependessem do que fizeram, talvez tenham percebido que não valia a pena ter feito o que fizeram. A mulher os abraçou e falou que já era hora de irem embora, não queria que suas mães brigassem com eles, e que qualquer coisa era só falar que estavam na casa dela à convite dela para um chocolate quente. Os rapazes a abraçaram por mais alguns minutos e foram embora.

§

– Até que enfim pudemos sair de lá.

– Verdade.

Os rapazes andaram até que se separaram.

– Boa noite – disseram ambos.

§

A mulher fechara a porta e ficou ali chorando. Agradeceu bastante por aqueles meninos estarem ali no túnel àquela hora, não sabe como teria sobrevivido. Foi pra cama sem escovar os dentes, sem trocar de roupa e com a janela aberta. A mulher estava estirada na cama de casal, sofrendo por agora estar sozinha. Os garotos foram a sua única companhia, seu único ombro, alívio. Ela queria muito que o dia seguinte chegasse, mas sabia que não tinha como, pois a polícia estaria ali em breve, haveria todo tipo de interrogatório, ela teria de mentir. Ou mentir parcialmente, já que ela não devia saber onde está a filha. Seriam mais momentos de tortura. Ela já estava bem cansada. Perguntava-se por que chamou a polícia logo naquela hora? Por que não esperou até de manhã? Ficou remoendo essas perguntas, mas talvez do jeito que estava fosse melhor. Uma brisinha fria entrava pela janela. Levantou-se e fechou a janela.

“[…] gereizt in ihrem Herz […]”

“[…] irritada em seu coração […]”

Talvez o problema de toda a humanidade seja que ela se conhece demais. Ou pelo menos sempre achou se conhecer demais. Isso acabou por gerar o cansaço que temos hoje (talvez não seja algo apenas de hoje), esse cansaço de tudo, pensar, respirar, olhar, usar, ler, se focar. Está-se cansado de muita coisa, da vida, com certeza. Estamos implorando por acontecimentos, por uma espinha. Estamos fingindo estar cegos para que possamos mudar um pouco a rotina incessante de tudo. Enfim, o grande nojo da humanidade está se tornando algo generalizado dentro da própria humanidade. Talvez isso seja combatido com as festas quase báquicas que hoje temos (que na verdade sempre tivemos, ou não se lembram das luxuosas festas francesas e seus doces?) que vão desde a classe mais baixa até a mais alta. Procura-se algum sentido de ser nessas festas, alguma coisa que não nos permita ser mais um personagem de Dostoiévski, naquela indecisão sempre extrema, sempre com resolução no impulso, no ato do momento e não no ato planejado. Mas e se a vida fosse impulso? Impulso de vida, vida como instantaneidade, literalmente, impulsividade. Nossos planos vão todos por água abaixo quando percebemos que o momento de fazer é o momento de maior medo, o momento de agir é o momento de maior animalidade. O homem está posto no instante, ele nunca está na eternidade, nunca está no passado ou no futuro, pois o presente é o momento posto, logo, é o único segundo em que podemos ter algum controle, algum poder, alguma autonomia. Não adianta fugir, não adianta ter deuses, não adianta ter santos: isso não sumirá da cabeça, não se recalcará, não se inconscientizará. A angústia do homem é a angústia do momento posto, por isso a vida é uma festa, a vida tem de ser mascarada com a festa. O cansaço do conhecer: não é esse o pior dos males? A única possibilidade é evitar o cansaço. O cansaço só poderia ser dilacerado com o tornar-se a si mesmo estrangeiro. Não importa o outro, o outro é sempre estrangeiro, pois a alteridade não existe.– O autoestrangeirismo é a possibilidade daquele que cria, que escreve, que molda a cultura, pois este nunca se cansa de si, nunca se cansa, pois o conhecido não existe.

Falsche Gedanken

Pensamentos Errados

Um verme. Pisoteado. Uma profunda dor tomara conta daquele individuo. Uma dor sem remédio. Há momentos em que olhamos para nós mesmos e nos perguntamos: o que fizemos para nós mesmos? O que aconteceu enquanto estávamos ausentes de nós mesmos? Como nos tornamos o que somos? Há momentos em que nos sentimos o pior dos seres, o mais imundo, sujo; há momentos em que nos comparamos a vermes. Isso era o que passava na cabeça daquele homem que, sentado ao meu lado, falava sem se preocupar com minha presença. Aquele era um dia tranquilo, um domingo de tarde. Eu estava sentado naquele banco fazia duas horas. O sol brilhava incansavelmente, o que não trazia nenhum problema. Nunca havia observado uma árvore maior do que aquela que deixava quase metade da praça debaixo de uma sombra deliciosa. Eu estava absorto nas minhas reflexões, como sempre gosto de estar. Gostava muito de ficar sozinho em casa com meus livros e minhas reflexões, mas de um tempo para cá, venho precisando ver as coisas, ver a vida acontecer, talvez influenciado por um pensamento do Caeiro:

Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Não saberia explicar, mas, de fato, poucas vezes tenho pensamentos, digamos, filosóficos ou pensamentos com um objetivo, minha mente é uma bagunça, nunca tive disciplina. Às vezes questiono-me acerca disso. Quando pequeno, nem tão pequeno assim, devia ter meus quinze ou dezesseis anos, me veio à mente um pensamento que nunca me largou e que eu nunca entendi direito, entre minhas caminhadas noturnas, enquanto passava por debaixo de um poste de luz e ela projetava minha sombra para frente eu dizia àquela breve acompanhante: as pessoas precisam de histórias e precisam sentir, não importa quais sejam as histórias e nem o que elas irão sentir, quanto mais histórias e mais coisas elas sentirem, mais fascinante será a vida delas. Elas precisam viver… Mas isso não importa, voltemos ao meu relato sobre aquele homem distraído. Aquele rapaz não parecia estar depressivo ou coisa do tipo, parecia encenar um papel, parecia saber que todos nós temos o poder de escolher com que máscara vamos atuar. De súbito me veio à mente: ele deve estar se preocupando em sentir, deve saber a importância de sentir o quanto mais seja possível. Fico pensando se ele deseja para si mesmo, de tempos em tempos, o que Nietzsche “desejava” a quem importava para ele; se não me falha a memória, a frase em que Friedrich diz o que deseja a todos com quem ele realmente se importa, é mais ou menos assim: “A todos com quem realmente me importo, desejo sofrimento, desolação, doença, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de auto-confiança, e a desgraça dos derrotados”. Seria muita imaginação minha supor tudo isso. O fato é que ele não me parecia ser daquele jeito. Em certo momento ele disparou uma chuva de autodepreciação, nada daquilo me convencia. Três horas se passaram, havíamos nós dois permanecidos em silêncio. O sol que até então brilhava, estava se despedindo lentamente, parecia que eu nunca mais iria levantar daquele banco, estava esperando aquele homem se levantar primeiro. Depois de tanto tempo em silêncio, quando já havia me acostumado com aquela conversa de respirações, abruptamente o homem me questionou:

– Você deve estar imaginando inúmeras coisas a meu respeito, não está?

– Estou sim. Respondi cordialmente.

– Provavelmente ficaria com um pensamento distorcido a meu respeito se eu levantasse daqui e fosse embora sem lhe contar que sou ator e estava apenas repassando meu monólogo.

– É provável. Redargui pensativo.

E, como o sol, ele se foi e eu fiquei ali por um bom tempo ainda.

Um relato bobo e sem importância, é o que parece provável.

Warum lügen?

Por que mentir?

Tenho para mim que ser feliz é ser imbecil
É viver uma imbecilidade alegre
É esconder a triste infelicidade
Tenho para mim que isso de que falo é mentira
Porque estou feliz
Porque minto que estou feliz
Tenho para mim que todos mentem para mim
Isso é triste
Isso não me deixa feliz
Tenho para mim que a mentira não tem alvo
Ela é para os outros
Ela é para si próprio
Tenho para mim que mentir é fundamental
Para poder viver em paz
Para poder viver feliz
Tenho para mim que nada do que falo importa
Por não estar mentindo
Por não estar mentindo

Die Lebenestema

O videstema

As pessoas se preocupam tanto com a vida que – não, não direi que elas acabam por se esquecer de viver – se esquecem de que ela nada mais é do que um videstema. Segmentemos as ações de vida: todas parecem apontar para um mesmo local: as consequências funestas, as perdas. Dizem que se fumarmos muita maconha nosso cérebro perde neurônios, eles morrem. Mas de que vale isso? Ande na rua: há chance de um carro desgovernado te acertar; alguém te roubar ou sequestrar etc. Esquecem-se, portanto, de que a consequência de viver é morrer. Nasceu? Já está morrendo. Logo, a segmentação é válida e é passível de ser feito, mas e o que sobra dela? O que fazer? Não há meios de sobrevivência porque a vivência já é o limite – esse prefixo serve somente para os padres e seus cordeiros de forma geral. Nossa infância é o momento mais feliz de nossa vida porque não temos consciência de morte – não, não por ignorância, se fosse assim seria antes de tudo por sabedoria –, mas, isso sim, porque a vida está em seu auge, ela ainda é grande, afirmadora, de pouca memória. Muitas vezes isso perdura até a adolescência – ah, mas esses são bem felizes. Não porque aproveitam a vida sem pensar no futuro (pois a criança guarda seu brinquedo), esses são os tolos – mas me refiro aos afirmadores da vida, aos alegres sofredores. – Pois é, a vida é videstema.