“[…] gereizt in ihrem Herz […]”

“[…] irritada em seu coração […]”

Talvez o problema de toda a humanidade seja que ela se conhece demais. Ou pelo menos sempre achou se conhecer demais. Isso acabou por gerar o cansaço que temos hoje (talvez não seja algo apenas de hoje), esse cansaço de tudo, pensar, respirar, olhar, usar, ler, se focar. Está-se cansado de muita coisa, da vida, com certeza. Estamos implorando por acontecimentos, por uma espinha. Estamos fingindo estar cegos para que possamos mudar um pouco a rotina incessante de tudo. Enfim, o grande nojo da humanidade está se tornando algo generalizado dentro da própria humanidade. Talvez isso seja combatido com as festas quase báquicas que hoje temos (que na verdade sempre tivemos, ou não se lembram das luxuosas festas francesas e seus doces?) que vão desde a classe mais baixa até a mais alta. Procura-se algum sentido de ser nessas festas, alguma coisa que não nos permita ser mais um personagem de Dostoiévski, naquela indecisão sempre extrema, sempre com resolução no impulso, no ato do momento e não no ato planejado. Mas e se a vida fosse impulso? Impulso de vida, vida como instantaneidade, literalmente, impulsividade. Nossos planos vão todos por água abaixo quando percebemos que o momento de fazer é o momento de maior medo, o momento de agir é o momento de maior animalidade. O homem está posto no instante, ele nunca está na eternidade, nunca está no passado ou no futuro, pois o presente é o momento posto, logo, é o único segundo em que podemos ter algum controle, algum poder, alguma autonomia. Não adianta fugir, não adianta ter deuses, não adianta ter santos: isso não sumirá da cabeça, não se recalcará, não se inconscientizará. A angústia do homem é a angústia do momento posto, por isso a vida é uma festa, a vida tem de ser mascarada com a festa. O cansaço do conhecer: não é esse o pior dos males? A única possibilidade é evitar o cansaço. O cansaço só poderia ser dilacerado com o tornar-se a si mesmo estrangeiro. Não importa o outro, o outro é sempre estrangeiro, pois a alteridade não existe.– O autoestrangeirismo é a possibilidade daquele que cria, que escreve, que molda a cultura, pois este nunca se cansa de si, nunca se cansa, pois o conhecido não existe.

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