Uma pequena história para se ler num pequeno dia de sol

para Eurico Nascimento Sampaio

Era uma vez um menino que cultivou uma rosa. E quando a rosa nasceu e sorriu pra ele, ele ficou muito contento porque era uma rosa vermelha e muito linda. Só que era uma rosa inútil porque ninguém a via a não ser o menino. Então o menino guardou com muito carinho a rosa vermelha até que um dia ele pudesse mostrá-la pra alguém porque no fundo ele tinha muita esperança de um dia conhecer alguém que também visse a sua rosa. Como ele.

Até que um dia ele conheceu um outro menino. Que devia ser muito feliz, exatamente porque não era desses meninos que se preocupam com rosas, nem vermelhas, nem brancas, nem nada. Mas não se sabe porque cargas d’água ele, que era um menino muito bonzinho, resolveu dar a sua rosa vermelha pro outro menino, porque ele achava que, embora o outro fosse um menino muito feliz mesmo sem nunca ter visto uma rosa, poderia – muito melhor – ser um menino feliz que vê rosas vermelhas. E também porque ele sabia que as rosas foram feitas mesmo é para serem dadas. Então um dia ele chegou perto do outro menino e, sem dizer nada, mostrou-lhe a sua rosa. Até hoje ninguém sabe se o outro menino viu a rosa vermelha, e ninguém sabe mesmo se ele queria ou não ganha-la, se é que ele a viu…

O fato é que um dia o menino que tinha a rosa vermelha estava na fila da matinê do domingo e ouviu duas meninas conversando atrás dele; e uma dizia pra outra:

A Menina: Você sabe que tem meninos que cultivam rosas vermelhas?

A Outra: Ah, é nada…

A Menina: É sim.

A Outra: Credo!

A Menina: Pois eu estou te falando, menina.

A Outra: Mas pra quê? Que graça tem isso?

A Menina: Eu sei lá, o que eu sei é que cultivam.

A Outra: A gente vê cada coisa que Deus me livre, né?

A Menina: Pois é.

Então o coraçãozinho do menino ficou batendo de força e entre uma batida e outra parece que ele ficava todo vazio por dentro. Aí ele olhou assustado para um lado e para o outro, com medo que alguém estivesse vendo que ele era um menino que tinha uma rosa vermelha. Mas todo mundo estava mais é querendo ver o filme, que por sinal era um filme que diziam que era muito bom. Outros nem queriam ver o filme mas estavam ali na fila da matinê de domingo porque, afinal, a gente tem que aproveitar bem o domingo, então a gente vai no cinema. Então o menino, muito assustado, procurou ficar num cantinho bem despercebido. E procurou pro resto da vida ficar bem longe daquelas duas meninas que ele achava muito espertas e por isso perigosas.

Mas a verdade é que, quando o menino mostrou a rosa pro outro menino, que não se sabe se viu ou não, ele disse:

O Outro Menino: Tu sabe de uma coisa? Eu vou ver se dá pra juntar um dinheirinho e vou na zona. Tu sabe o que é a zona? É um lugar que a gente paga e vai pra cama com uma mulher. Diz que eu ainda sou um pouco franguinho pra ir na zona, mas olha: eu boto um terno e ninguém diz que eu não tenho dezoito anos, que eu já estou ficando bem taludinho.

Mas o menino estava tão contente de mostrar a rosa vermelha que ele tinha cultivado que parece que nem escutou o que o outro dizia e ficou mostrando a sua rosa vermelha. Então o outro disse:

O Outro Menino: Tu sabia que eu vou passar pro primeiro quadro do time lá do colégio?

Parece que ele não sabia e ficou mostrando a rosa vermelha.

Uma outra vez ele vinha num ônibus muito cheio, na saída do colégio, e na frente dele vinha um par de namorados. E como o namorado estava olhando distraído para a rua, a namorada perguntou:

A Namorada: Em que é que você está pensando?

O Namorado: Em nada.

A Namorada: É o quê. Você não quer dizer é porque não estava pensando em mim.

Foi quando o ônibus parou num ponto e subiu uma pessoa muito esquisita. Então o namorado disse:

O Namorado: Dá uma olhada só pr’aquilo ali…

A Namorada: Não adianta disfarçar não; você não estava pensando em mim…

O Namorado: Olha lá; é uma dessas pessoas.

A Namorada: Que pessoas?

O Namorado: Que cultivam rosas vermelhas.

A Namorada: Ah! é?

O Namorado: É…

A Namorada: Você me ama mesmo?

O Namorado: Pra sempre.

Só que dessa vez o menino já sabia que ninguém via a sua rosa mesmo, tanto que ele quase nem ficou vermelho, e ninguém notou que ele se encolheu um pouquinho só no banco do ônibus. Daí ele estava muito ansioso e curioso e, bem disfarçado, ele ficou examinando a pessoa muito esquisita que tinha subido. As duas moças que estavam sentadas no banco de trás começaram a rir e falar baixinho, mas deu bem pra escutar o que elas falavam.

A Moça: Lurdinha do céu, olha só o que acabou de subir no ônibus…

A Outra: Ai, que não fica olhando…

E riam.

Mas o grupo de rapazes, do outro lado, nem sequer procuravam falar baixo.

O Rapaz: Espera passar por aqui que eu vou passar o pé. Tu vai ver gente estatelada aí no chão.

O Outro: Duvido.

O Outro: Eu também duvido.

O Rapaz: Duvida?! Pois então tu vai ver só.

O Outro: Vai ser o maior sarro.

E riam.

E o menino que tinha a rosa vermelha ficou observando a pessoa esquisita que subiu no ônibus, mas com muito cuidado que era pra ninguém notar que ele estava observando. Só que a pessoa esquisita que subiu no ônibus desceu quase no ponto final, quando já tinha pouca gente no ônibus, e a sorte é que o menino só descia no ponto final mesmo e assim ele pôde observar bem. Mas quando a pessoa esquisita passou, uma velha de meia soquete preta e berruga no queixo olhou muito espantada e falou bem alto pra mulher de vestido estampadinho que estava do lado.

A Velha: Como está tudo mudado hoje em dia, a senhora não acha?

A Mulher: Nem me fale…

E olharam feio, muito dignas.

E o menino ficou olhando, olhando quando a pessoa esquisita desceu e quase estraga tudo pondo a cabeça pra fora da janelinha do ônibus e fazendo todo mundo saber que ele estava olhando. Mas a verdade é que ele ficou sabendo de uma vez por todas que a pessoa esquisita que desceu do ônibus não tinha uma rosa vermelha porque se tivesse ele a teria visto. Isso não tem dúvida nenhuma porque ele era um desses meninos que veem rosas vermelhas.

Mas ele estava mostrando a rosa vermelha pro outro menino, que até hoje ninguém sabe se a viu ou não, quando passou uma mulher andando com os calcanhares um pouco sujos em cima do salto fino. Então o outro menino disse:

 

O Outro Menino: Você viu só que boa?!

Mas ele não viu porque estava muito concentrado mostrando a sua rosa vermelha pela primeira vez na vida.

Também uma noite os pais do menino que tinha uma rosa vermelha pensaram que ele estava dormindo e conversaram. Só que ele não estava dormindo ainda e por isso escutou o que a sua mãe dizia:

 

A Mãe: Nosso filho é muito bonzinho, não é?

O Pai: É.

A Mãe: Nosso filho é muito honesto, não é?

O Pai: É.

A Mãe: Nosso filho é muito inteligente, não é?

O Pai: Por isso ele vai ser alguma coisa na vida.

A Mãe: Que bom. Nós educamos bem o nosso filho, não é?

O Pai: Educamos.

A Mãe: Nosso filho é muito bonito, não é?

O Pai: Nosso filho vai ser um homem de bem.

Sem saber por que, o menino ficou com o coração muito quentinho, só que um pouco assustado, e no dia seguinte, como fazia todas as manhãs, o menino beijou a face da sua mãe.

O que acontece é que no colégio do menino que tinha uma rosa vermelha corria um boato que havia uns meninos que estudavam lá que tinham rosas vermelhas. Diziam que esse ou aquele ou aquele outro tinha uma rosa vermelha mas ninguém tinha certeza porque, como já se sabe, não é todo mundo que as vê. Aliás, era melhor dizer que pouquíssimas pessoas as veem. Aliás… será que tem alguém que as vê? Além do menino que tinha uma rosa vermelha, é claro, que desse já se sabe. Mas tinha um certo menino moreno que todos tinham certeza que tinha uma rosa vermelha, tanto que até diziam:

Os Meninos: Olha, eu não sei não, mas pelo jeito…

Até que um dia, na saída do colégio, todo mundo estava muito alvoroçado exatamente porque era uma véspera de feriado. E como era uma véspera de feriado todo mundo achou que era um excelente dia pra se fazer uma enorme algazarra bem no meio da rua. Então um menino de um grupinho que ia andando na frente do menino que tinha uma rosa vermelha viu o menino moreno que diziam que tinham uma rosa vermelha andando um pouco mais na frente por aquela rua feia por onde todos tinham que passar para ir para o ponto de ônibus. Então o menino do grupinho disse pro outro:

O Menino do Grupinho: Olha só quem vai indo ali na frente…

O Outro: Ah! o tal que tem a rosa!

O Outro: Diz que não.

O Outro: Diz que sim.

O Menino do Grupinho: Pois então está na hora de tirar isso a limpo. Vamos?

Os Outros: Vamos.

E correram atrás do menino moreno.

O menino que tinha a rosa vermelha não sabia o que ia acontecer, mas ficou tão assustado como nunca ficou em toda a sua vida e se encostou num muro branco, ficando tão branco ele mesmo que quase se confundia com o muro. O que era muito bom porque o que ele queria mesmo era desaparecer, mas sem ter coragem para dar um passo. E viu quando o grupinho, correndo atrás do menino moreno, o alcançou. Então todos os meninos do grupinho falavam ao mesmo tempo com o menino moreno, como se fossem bater nele, e tão alto que não se entendia. Mas o menino moreno parece que não tinha medo e falava muito alto também. Até que um menino do grupinho se adiantou e ficou olhando muito de perto para o menino moreno, que por sua vez foi muito destemido e deu-lhe um empurrão. Então todos começaram a empurrar e xingar o menino moreno que também xingava, e fizeram uma roda com o menino moreno no meio e o empurravam para o meio quase sempre pela cabeça, o que fazia parecer que o menino moreno tivesse a cabeça muito pesada e tentasse equilibra-la correndo para um lado e para o outro, a cabeça na frente. Os livros do menino moreno caíram no chão bem à mostra a sabatina de português com um zero escrito com a raiva da letra do professor de português, com lápis vermelho bem no alto da sabatina. Os outros meninos do colégio que iam passando para o ponto de ônibus paravam e ficavam olhando. E parece que aquilo tudo era muito gozado porque as pessoas que ia passando, quando não paravam para ver, continuavam rindo e balançando a cabeça “esses moleques…”

O menino que tinha uma rosa vermelha, bem encostado no muro, tinha tanto medo que não enxergou mais nada. E quando voltou a enxergar parece que foi algum tempo depois, porque a rua feia estava vazia, só uma ou outra pessoa passando como sempre. Então, ele foi andando para o ponto do ônibus com vontade de chorar e com medo de chorar ali bem no meio da rua feia e estragar tudo porque os outros, vendo-o chorar, logo iam pensar alguma coisa. Mas quando ele ia passando perto de um terreno baldio saiu de trás dos tijolos do muro quebrado, quem? Pois exatamente o menino moreno que tinha ali se escondido dos outros. O menino que tinha a rosa vermelha ficou duro de susto. O menino moreno foi andando e dizendo:

O Menino Moreno: Tu viu o que aqueles filhos da puta fizeram?

Ele mais que depressa disse que não e ficou mais duro de susto.

O Menino Moreno: Com’é, tu vai ficar parado aí?

Ele disse que não e foi andando.

O Menino Moreno: Tu não viu?! Ah, mas eles me pagam, aqueles cornos. A mãe deles não é séria. Mas eu vou pegar um por um, ah, se vou… tu vai ver só. Tão pensando o quê? Que eu ia me borrar todo só porque eles resolveram que eu sou desses que têm uma rosa?

O menino que tinha uma rosa vermelha e que estava quase sem fala de susto conseguiu falar e perguntou pro menino moreno se afinal ele tinha mesmo uma rosa ou não. Mas perguntou mais por perguntar porque, sendo um menino que vê rosas, ele estava farto de saber que o menino moreno não tinha rosa nenhuma. Mas perguntou porque, enfim, podia ser que houvesse tipo de rosas que ele não visse, imagine só: ele, que era um menino que tinha uma rosa vermelha. Mas o menino moreno respondeu:

O Menino Moreno: Eu não, que eu não tenho rosa nenhuma. E mesmo porque se eu tivesse um eu nem sabia o que fazer com ela. Eu não dou desses. Tu pensa que é assim, que é qualquer um que vai tendo rosas? Não é não. Dizem que é muito raro que tenha uma. E tu acha que eu ia dar essa ganja de ficar explicando pra eles que não, que eu não tenho rosa nenhuma? Eu não. Deixa eles que pensem. Deixa eles que comigo eu resolvo logo é na porrada, não é explicando não. Tu vai ver só: eu ainda pego um por um.

Até que um belo dia, quando ele voltou da praia no domingo de manhã, o menino que tinha uma rosa escutou a dona Nair, que morava bem em frente e que tinha ido lá na sua casa buscar a receita de uma torta de camarão que estava muito em moda, ouviu-a dizendo pra sua mãe na cozinha enquanto ele lavava os pés no tanque pra não espalhar areia pela casa toda:

A Dona Nair: Mas é um caso sério, dona fulana, é um caso muito sério… Ah! quer dizer que primeiro a gente aferventa o camarão? Ah! sei. Mas, olha, o negócio hoje em dia não anda sopa não. Imagina a senhora que antigamente quase não se ouvia falar em que cultiva rosas. Ah, quer dizer que o molho a gente faz com a água da fervura do camarão?! Mas que interessante! Mas parece que cada dia que passa a gente ouve falar em mais gente que cultiva rosas. Cada vez mais, não acha a senhora? Antigamente não era assim não. Sei, sei, engrossar o molho com farinha de trigo; depois a senhora me empresta um lápis que eu vou tomar nota de tudo direitinho. Mas como eu ia dizendo, dona fulana, a gente que tem filhos precisa tomar um cuidado que só vendo hoje em dia porque cada dia se ouve falar em mais gente que cultiva rosas…

O menino que tinha uma rosa nem comeu direito naquele domingo, e era macarronada. Mas ele estava muito preocupado porque, ele nunca pensou que pudesse ouvir, falados dentro da sua própria casa, aqueles nomes que só os meninos da escola falavam abertamente.

Até que então o outro menino, que sabe-se lá se viu ou não a rosa que o menino que tinha uma rosa lhe mostrava, disse:

O Outro Menino: Olha aqui, tu quer saber de uma coisa? Tu quer saber qual é o meu negócio? O meu negócio é subir na vida. Por isso é que o ano que vem eu vou pra São Paulo e vou fazer o cursinho pra engenharia. É. Engenharia é o que dá dinheiro e o meu negócio mesmo é dinheiro, tá me entendendo?

E não se sabe por que o menino que tinha uma rosa, que nem sequer estava escutando o que o outro menino dizia, estremeceu bem no fundo da sua rosa vermelha nunca vista. E o outro, então, disse:

O Outro Menino: É, meu chapa, quem sabe sabe. Ela não bota o meu bagre de molho. Que eu já tô é muito invocado. Quem tem mulher é soldado. Quem tem amigo é puta. Quem não tem cão caça com gato. Caixa. Bolacha. Cocacha. Parangolé. Bico de pato. E outros bichos.

Aliás, o que até hoje não se sabe também é se o menino que tinha uma rosa sequer ouvia o que o outro menino falava.

Mas pra encurtar a história chegou logo aquela noite em que ele não estava dormindo e os pais dele pensavam que ele estava dormindo e conversaram:

A Mãe: Você acha que o nosso filho é desses que têm uma rosa?

O Pai: Não, que esperança…

A Mãe: Ai, eu não sei. A dona Nair me disse tanta coisa. Diz que hoje em dia… tanta coisa que a gente fica até meio zonza.

O Pai: Ora, mas que bobagem. Ele é o nosso filho…

A Mãe: Ele não, não é?

O Pai: Pois é. Ele vai vencer na vida.

Foi então que o menino que tinha uma rosa chorou bem baixinho de tanto medo e decepção e sabe-se lá mais o que… E mais tarde, quando tinha certeza que todo mundo da casa já estava dormindo, ele foi bem devagarinho no banheiro e quando passou pela frente do espelho ficou com tanta pena de si mesmo que desandou a chorar de novo embora a sua rosa estivesse assim tão mais vermelha e viçosa.

Mas, embora aquela noite tivesse passado bem devagar, o dia seguinte chegou como tinha que chegar mesmo e, então, ele foi para o colégio disposto a falar com um padre, porque ele andava num colégio de padres, um que tinha dito na classe que aquele menino que tivesse algum problema podia ir falar com ele sem nenhuma vergonha porque ele estava lá e era padre, era pra ajudar mesmo.

Então, o menino que tinha uma rosa chegou perto do padre e disse, com a cabeça completamente zonza, que tinha um problema. O padre disse:

O Padre: O que é, meu filho? Diga.

Então o menino que tinha uma rosa quase desistiu mas, como já não dava mais pra voltar atrás, ele teve mesmo que dizer que ele era um desses meninos que tinha uma rosa. O padre disse:

O Padre: Você se masturba, meu filho?

Ele disse que sim, mas que ele era um desses meninos que têm rosas. O padre disse:

O Padre: Com que frequência, meu filho?

Para ser honesto ele devia responder que era todo dia, mas ele fez que não entendeu e disse pro padre que era um menino que tinha uma rosa. O padre disse:

O Padre: Eu também já fui moço, meu filho, e compreendo essas coisas. Mas você deve fugir da tentação do demônio, meu filho. A masturbação despersonaliza o homem, faz mal à saúde e embota o cérebro, meu filho.

Para ser uma pessoa realmente culta ele deveria correr para o dicionário e procurar o que quer dizer a palavra embota e era o que ele faria mesmo se não estivesse tão assustado. Portanto, o que ele fez foi correr sem rumo e deixar o padre falando sozinho, e deixar o outro menino, que até hoje ninguém sabe se viu a sua rosa ou não, falando sozinho, e deixar a dona Nair falando sozinha, e deixar a mulher de meia soquete e berruga no queixo falando sozinho. Foi o que ele fez.

E só parou quando se trancou no banheiro, que era o único lugar na casa que ele podia entrar e passar a chave na porta sem levantar suspeitas. Então, depois que ele chorou muito e maldisse a hora que não morreu no sarampo que teve aos três de idade – depois ele decidiu, como quem decide entrar num convento para sempre, ele decidiu matar a sua rosa.

Ele planejou tudo direitinho: no domingo, quando saiu da matinê, em vez de ir direto para a casa da vó encontrar com sua mãe, ele passou pela sua casa, onde ele sabia que não tinha ninguém. Foi direto para o porão. Então, como quem se desfaz de um cadáver, ele enterrou a rosa vermelha perto de um pilar manchado de umidade. Ele disfarçou bem o terreno. Mas sempre se notava uma suave elevação no lugar em que a rosa estava enterrada. Mas ele estava muito nervoso e saiu do porão, lavou as mãos no tanque e foi pra casa da vó.

A mãe bem que achou estranho que ele não quisesse comer os canudinhos recheados de cocada que a vó fizera para o lanche e que ele gostava tanto, mas pensou que rapazinho nessa idade era isso mesmo. De maneira que só de madrugada, quando ele tinha certeza que todo mundo na casa já estava dormindo, é que ele pôde dizer a si mesmo o quanto era infeliz e chorar. E depois de um suspiro profundo, antes de dormir, ele, que acreditava em tudo, ainda pediu a Deus que pelo menos fizesse com que a sua rosa vermelha murchasse antes que um dia seu pai vendesse a casa e a demolissem para fazer um prédio de apartamentos. E ele gelou só de imaginar. E pôde imaginar direitinho um dia um pedreiro achando a sua rosa toda suja de terra e em meia-decomposição, com mau cheiro. E o pedreiro ia então pôr uma tábua inclinada sobre aquele cadáver de rosa e ia recomendar para que ninguém se aproximasse. E todos iam vir olhar mas de longe para não se comprometer, em roda, todos os vizinhos da rua, do quarteirão, do bairro, todos olhando de longe para não ter que dar o nome e endereço como testemunhas que “eu não, isso é uma chateação”, todos com cara de nojo e desaprovação “onde já se viu uma coisa dessas”, “e isso era lugar”, como aconteceu quando acharam um feto de cinco meses na lata de lixo de um prédio ali perto. Depois o pedreiro ia chamar a polícia por causa da responsabilidade. E a polícia ia investigar. E iam descobri-lo. E a vizinhança ia se torcer de tato rir e desaprovar. E…

Naquela noite o menino que tinha uma rosa sonhou coisas formidáveis. Sonhou que toda a vizinhança estava rindo mesmo, como ele imaginara, num campo, e bem no meio do campo estava caída, desamparada, a rosa vermelha que com toda força tentava criar raízes para poder levantar na terra. Mas a vizinhança ria. Era preciso que alguém ajudasse a rosa vermelha a criar raízes e o menino quase esquece tudo e vai tomar a rosa no seus braços. Quase ele esquece tudo e vai beijar a sua rosa vermelha e pedir-lhe perdão. Quase. Mas a vizinhança, o bairro inteiro, toda a humanidade estava ali no campo e ria, ria, ria. Até que seu pai virou-se para ele e disse:

O Pai: Você não acha graça?!

Até que, então, toda a humanidade abria caminho para passarem todos os cavalos do mundo que, fogosos, vinham trotando para pisotear a rosa vermelha. Que acabou sendo apenas uma pequena mancha vermelha esmagada bem no meio daquele campo vazio. Sim, porque depois do espetáculo toda a humanidade se voltou e foi tratar da vida.

Os sete dias de nojo que se seguiram ao enterro da rosa vermelha o menino que tinha uma rosa quase nem sentiu, tão preocupado estava de medo que alguém descobrisse no porão da sua casa. E toda noite ele ficava muito preocupado antes de dormir, com uma rosa vermelha enterrada no porão.

O que, depois, o menino desta história sentiu ou deixou de sentir já ninguém mais sabe, como todo mundo. O que se sabe é que algum tempo depois ele foi para São Paulo fazer cursinho para engenharia. E depois ele conheceu uma moça. E eles se casaram, tiveram alguns filhos e foram infelizes para sempre.

Santos, 12 de junho de 1967.

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SOFFREDINI, C. A. “Uma pequena história para se ler num pequeno dia de sol”. In: ABRAMOVICH, F. (org.). O mito da infância feliz. São Paulo: Summus. 1983.

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