Der Unnatürlich und das Ich-fasziniert

O anômalo e o eu fascinado

“‘a-nomalia’ […] designa o desigual, o rugoso,
a aspereza, a ponta de desterritorialização.”

A relação de um eu fascinado e o anômalo é extremamente violenta, louca. Enquanto aquele é atravessado de um devir-para o superior, este é banhado de um devir-superior – todo anômalo é educador, discente para todos os vetores em relação ao eu fascinado. Este sabe o que quer, almeja, mas sofre por nunca se tornar isso que quer – a angústia da individuação. (Decerto que hoje é o tempo dessa angústia, basta checar como pessoas famosas vivem dizendo que é possível a qualquer um chegar onde eles estão.) Ele tem de se contentar com o fato de sua subjetividade nunca se perder, lidar de frente e se alegrar com sua condição. Uma das funções do anômalo é mostrar o limite da individualidade, a impossibilidade da alteridade. Ele causa o desejo de ultrapassar a linha que ele atravessou – nada além dele promove a evolução da humanidade. Hitler foi o último anômalo que o mundo presenciou até agora (antes dele, Napoleão) – e não é verdade que as ciências que se preocupam com a cultura e afins até hoje tentam se livrar de um tal pensamento fascista, arte fascista etc.? Chegará o momento em que a Alemanha terá de criar um novo hino nacional, senão ele será somente instrumental, de tantos versos que eles quererão pular para fugir desse nacionalismo exacerbado, desse remorso. – Nunca o anômalo é adulto, ele é sempre criança, sempre banhado pelo devir-cósmico da criança, dançante, sempre solfejando. O que acontece, no entanto, para que esse solfejo, no anômalo, seja de outra ordem? Um solfejo que não se exterioriza mais na melodia, no estribilho, na partitura, mas no silêncio, num olhar, num semblante, num sorriso. Há toda uma outra potência regendo o devir-música (ou até devir-político) do anômalo. Potências de solidão – Kierkegaard chamou a isso de cavaleiro da fé. Ainda que esteja em meio a uma multidão, ele é capaz de criar para si seu próprio contradomínio, podendo ou não ter relação unívoca com o domínio, i.e., a multidão (nesse caso, pois o domínio é a própria matilha, o bloco criado pela matilha). Em sua canção solitária, há a inversão: o anômalo se torna domínio, enquanto que sua canção se torna contradomínio. Daí decorre toda uma transformação do sujeito anômalo: não mais um fora de si, mas um intenso dentro de si, autopenetração, autofagia. Nada de outros, camaleões, deuses e Deus, mas uma subjetividade inteiramente banhada de si mesma; um domínio formador de contradomínios, formador de alianças que consequenciam transformações intensas e imperceptíveis, fusões, desfusões e destruições. Como se percebe, a denominação do anômalo depende de seu referencial, assim como tudo em física. Se a relação entre domínio e contradomínio nem sempre é unívoca, falar somente de função é não atender a todas as possibilidades de um anômalo – teremos de denominá-la desfunção. Desfuncionamento, então, não é o mesmo que mau funcionamento. – O eu fascinado está numa função em relação ao anômalo. O anômalo está numa desfunção em relação ao eu fascinado. Não é o caso de dizer que o eu fascinado é passivo e o anômalo, ativo. Há sempre atividade e ganho. O eu fascinado é um domínio que faz aliança com o contradomínio que é o anômalo. Esse contradomínio pode ser de qualquer ordem: próximo, distante; real, fictício; vivo, morto; etc. A visão do contradomínio já é um dos modos de aliançar. O anômalo é um ser à parte, um arquipélago não mapeado, que não precisa necessariamente realizar alianças com o eu fascinado – ele as permite, sua imagem conceitual as permite. Essa imagem conceitual é banhada com as moléculas do solfejo do anômalo – um grito também é um solfejo capaz de desencadear/fazer aliança com um devir intenso, como um devir-fúria. Toda a luta do eu fascinado se baseia em seu desejo de capturar essas moléculas que compõem a imagem conceitual do anômalo, a fim de aliançar.

Gedanken

Pensamentos

Em relação aos meus não há nada de explicativo neles, são conclusões-inacabadas, algo terminado com seu florescimento incógnito, com um fim diferente a cada dia e com seu desenvolvimento silencioso. É um conjunto de verdades pessoais que ocultam seu nascimento, seu desenvolvimento. Por vezes parecem ao proprietário deles jóias refinadas, polidas ao extremo e algo mais precioso que qualquer outro. Há claramente aqueles que vislumbraram/vislumbram seu nascimento, desenvolvimento e conseguiram/conseguem expressá-los aos demais em seus livros ou coisa parecida. Há os engenhosos, que querem provar a verdade dos seus por uma matemática duvidosa; os kantianos, que pelo uso da razão envaideceram os deles a um nível de verdade excelsa; os escritores, que devem usá-los de modo criativo, esses são os mais felizes, não precisam preocupar-se em absoluto com o teor deles, são livres, inclusive para prodigalizar bobagens; os filósofos, que veem neles o fruto de seu “trabalho”, vivem travando batalhas intelectuais para dar a voz mais alta; o rebanho, por sua vez, reproduz todo o lixo de pensamentos.