Wörter

Palavras

Talvez isso seja meu único consolo para quando estiver sozinho. Ah! Se eu tivesse cuidado com mais carinho das palavras, de tantas que serviram para tantas coisas… Tirando a confusão de ser e de pensar e de julgar, tirando a loucura de estar vivo e o medo de morrer… Há algo que merece mais cuidado e carinho. Há algo que não pode mais ser desprezado. Se a vida é um jogo, onde a regra é subjetiva e só tem graça graças a linguagem, a palavra, a escrita, por que não cuidar com mais carinho daquilo que forja o nosso ser?  Algum tempo atrás, em um passado não muito distante, as palavras bastavam-me. Como eu precisei das palavras e como elas foram importantes. Ecos do passado. Letras e palavras que me livraram da inexistência. Que me deram mais vida. Que me fizeram continuar a querer mais palavras. Que me cansaram também. Que me fortaleceram e enfraqueceram-me. Que ajudaram a natureza a deixar-me mais maluco e confuso do que eu precisava. Sei que precisarei muito delas ainda. E quero-as, todas, e todos os sentimentos que elas podem despertar. Sabendo sempre que as regras são subjetivas.

Erzählung über nichts

Conto sobre nada

É um fato irrefutável: eu estou cansado. Mas nem sempre foi assim, e isso já é algo bem previsível, pois nenhum escrito poderia ser sobre um cara que está sempre cansado e fica para sempre cansado, morre cansado. Eu nem sempre fui cansado. Já tive alguma disposição, talvez até demais – por isso devo ter nenhuma hoje em dia. Quando eu era criança, eu não era cansado senão no fim do dia e nos dias de aulas aborrecedoras. Infância normal, uma surra aqui, uma morte ali, nada ou tudo demais. Eu tinha um amigo que se chamava Paulo. Visto hoje em dia, ele se parecia, de fato, com aquela história daquele alemão de duas crianças que crescem e se beijam no final. Algo bem doido. Mas nós não nos beijamos (pelo menos ainda não, não morri). Ele me protegia de algumas coisas, era bem legal. Não entendia como ele fazia para afugentar os que implicavam comigo, mas conseguia. Um dia ele me falou: “Eu não vou estar aqui para sempre. Bulk up!”. Ele me ensinara o inglês, às vezes conversávamos nesse idioma, mas preferíamos o idioma materno, porque era mais bonito. Mas eu nunca bulkupei. Ele via isso. Mas era legal como a gente costumava a conversar sobre algumas coisas, tínhamos um modo bem peripatético de resolver as coisas – amávamos as caminhadas. Ele me induziu muitas vezes a matar aula. E eu matava sem perdão. Íamos para tudo quanto era lugar, comíamos doces ao invés do pão – pois preferíamos passar mal depois em prol de desfrutarmos bem o agora. Mas nunca passamos mal depois, isso é tudo história de alemão ressentido, talvez ele fosse alérgico a doces. Um dia fomos a uma baía e decidimos que tínhamos de atravessá-la, porque as baías servem para isso. Tentamos construir um barco, mas não tínhamos habilidade suficiente. Resolvemos usar nosso dinheiro e atravessar num navio de verdade. Foi legal, havia marinheiros lá, trabalhando excessivamente para que o navio ficasse direito. A gente tentou conversar com um deles, mas não estavam muito afim – talvez procurassem ainda alguma ilha desconhecida. Quando descemos na terra desconhecida, pois nunca tínhamos atravessado a baía, começamos a xeretar tudo. Acabamos parando num campo – óbvio que chegamos lá com alguma cantoria, caso contrário não seria possível nada disso. O campo era legal, almoçamos algumas frutas que encontramos por lá, o que foi ótimo, pois economizamos dinheiro. Por ali, achamos uma casa abandonada, bem sujinha e estranha. Pensamos que ali poderíamos começar alguma civilização, titubeamos nessa ideia, até que vimos que ali era muito estranho – uma civilização no meio do campo não era algo possível, não hoje. Então continuamos um pouco mais naquela casa, até que acabamos por quebrar uma coisa que não me lembro o que era, o que nos fez querer correr para bem longe dali. Sentamos, então, na sombra de uma árvore. Por ali ficamos bastante tempo. Paulo devia estar olhando para as nuvens. Eu olhava para nada, nadando. A partir daí, eu fiz mais nada, fazer nada parecia ser divertido. Mas meu avô disse que eu devia crescer e ir ganhar meu próprio pão, porque ele não ia mais me sustentar. Então eu virei gente. Era adolescente – pelo menos era o que diziam, acabei por acreditar –, eu já podia trabalhar. Continuei morando com meu avô, mas trazia dinheiro para casa agora. Não sei como, mas eu arranjava tempo para ler. Era algo interessante e ainda é. Já naquela época eu sentia que um cansaço iria se apossar de mim. Mas eu ainda tinha o vigor da adolescência – não podia ouvir o conselho do policial e desistir simplesmente, eu tinha de achar aquele caminho. Entrei pra faculdade. Eu me formei summa cum lauda e tirei nota máxima nas pós-graduações. Mas que grande bosta. Palestras, palestras e mais palestras – aulas, aulas e mais aulas – escritos, escritos e mais escritos – etc., etc. e mais etc. Agora eu estou cansado. Nadando.