Am schlimmsten, am schlimmsten Ereignis

O pior, o pior dos acontecimentos

Se eu contasse a vocês, acho que não acreditariam no que se vê quando se vê. Não dá para acreditar, é algo atormentador demais.

Aqui é tudo muito diferente. O ar é diferente, seco, ensolarado. Com o tempo, no entanto, eu aprendi a respirar com guelras. Já consegui me acostumar a isso, pois é muito parecido com aprender um novo idioma, aos poucos e com vivência constante se consegue dominar. E fica até agradável depois disso. Algumas coisas já são mais difíceis de se acostumar, mas nada que nossa boa ciência já não tenha me precavido, tornando, assim, a tarefa muito mais fácil e aprazível. Muitas construções, sim, sim, muitas construções em locais estranhos, pouco usuais. Lugares que nossa ciência poderia mostrar com facilidade ser o pior lugar, pois há obstrução do bom ar. Na verdade, é o tipo de conta que se consegue fazer de cabeça. Outra coisa muito interessante é o modo de se portar aqui: há os que andam de acordo com a classe a que pertencem, há os que andam como se de outra classe fossem e há os que rastejam. Não é compreensível, apesar de previsível, como isso ocorre, uma vez que todos estão na mesma classe.

Após dito o que foi dito, porque está dito, quero falar sobre algo que me aconteceu há pouco, exatamente alguns minutos atrás, algo assustador e estranho, horrível. As locomotivas daqui são tão horríveis que é preferível andar a pé, mesmo longas distâncias. Enquanto me dirigia para casa, eu estava, como é natural, com mil pensamentos em mente e corpo, estava andando olhando para tudo, mas sem perceber que a calçada diminuía de tamanho, possibilitando apenas que uma pessoa ali andasse. E isso por uma boa distância. Andava e andava, até que me deparei com o que há de pior, meu senhor, o que há de mais horrível nesse mundo, o que não poderia ser visto e nem tocado, muito menos ouvido, algo que para a nossa ciência é um mistério. Vocês não acreditariam se eu dissesse o que eu direi, pois era inacreditável, era algo totalmente novo. Não era miragem, não era ilusão, não era sortilégio e muito menos ideia de algum deus. Aquilo era um brasileiro. Meu senhor, não acreditas em mim? Pois então espere, porque a historieta não acaba aqui, há mais, há mais.

Eu estava abismado pela visão. Era um rapaz da minha idade, sem camisa, segurava muitos sacos pretos (daqueles de lixo), tinha um cabelo um pouquinho grande, oleoso, mas bonito (o que assusta). Ele me olhava como se… não sei, não há o que dizer, ele me olhava. Eu também o olhava, olhava-o como se fosse um ser de outro mundo, o que não é mentira. Daí eu percebi que na calçada não cabia nós dois. Fui para a rua, ficando bem próximo da calçada, pois as máquinas não param. Senhor, ele ainda estava olhando para mim, ele ainda estava olhando para mim. As diferenças eram imensas: eu, um rapaz de óculos escuros, calça jeans e uma boa camisa, muitos livros na mochila; ele, um rapaz que foi parido na privada, confundido com bosta, uma bosta chorante, que carregava nas mãos seus irmãos. Não dá para acreditar no que te contarei agora, é meio impossível, improvável, mas, sim, aconteceu e foi diante de meus olhos, diante de meu corpo, enquanto eu passava por ele, quando ele estava muito próximo de mim.

– Calçada pequena, né?

Aquela voz, aquele timbre, aquilo… não tinha como acreditar. O brasileiro falou. Consta isso em algum livro? Consta essa informação em algum tratado? Não, não há, não existe, eu sou o primeiro a ouvir um brasileiro, sou o primeiro a constatar que o brasileiro tem voz. Uma voz de merda, mas ainda assim, ele tem voz, senhor. Uma voz que sai como se estivesse mascando chiclete, voz que sai com sorriso. Mas como? Como poderia ele se dirigir a mim se ele nunca me tivesse visto? O que fez com que ele falasse? Uma calçada estreita? Mas uma calçada estreita não é motivo de fala, é motivo de nada. Ainda assim, o brasileiro falou quando estava numa calçada estreita, ele falou. De supetão eu me virei e respondi:

– É!

Como ri, meu senhor. O brasileiro achou que eu não o ia responder, ele já tinha se voltado pra trás antes de eu o fazer, ele me olhava ainda, até ter se virado para seguir seu caminho. Mas eu me recusei a perder a visão daquele brasileiro que falou. Eu o respondi sorrindo, não me lembro se ele também sorriu ao ouvir minha resposta, mas isso não importa.

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Esta entrada foi postada em Sven.

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