Möglichkeit zur Glücklichkeit

Possibilidade para a felicidade

Numa aula qualquer, no meio de uma interpretação de uma peça de teatro de um autor qualquer, alguém diz que a felicidade dos autores é infantil, esse professor qualquer responde: “É interessante você falar sobre essa ‘felicidade infantil’, já que o autor, aqui, não dá muitas chances para esse tipo de felicidade; enquanto que a criança tem sempre essa possibilidade para a felicidade, ela não tem medo de ser feliz.” – Isso não só soa como é bastante bonito, mas apenas num nível superficial, pois o que se configura não é tão simples assim. A criança não tem a possibilidade para a felicidade, ela sequer conhece a felicidade. Pergunte a uma criança pobre e a uma rica: ambas dirão não saber o que é de fato a felicidade, ou dirão coisas muito vagas. Mas então seria o caso de dizer que só se pode sentir aquilo de que se tem conhecimento? Não, mas também não podemos dizer que o nosso conceito de felicidade seja aquele que pensamos ver quando a criança está sorrindo. Não é raro ver crianças que estão chorando na rua, mas nem por isso pode-se dizer que estão tristes. Trata-se de relações, agenciamentos. Uma criança sorri ao receber um chocolate e chora ao receber um susto porque suas potências reagem de tal forma que a permite dessa forma agir, sendo que nem toda criança age dessa maneira quando recebe um chocolate ou um susto, afirmando a pluralidade. Esquecimento é muito mais importante do que uma possibilidade, pois esta palavra implica algo ser passível de acontecer, quando, de fato, acontece, mas nem sempre se percebe. Quando Epicuro fala de uma vida sem tristeza, de puro prazer do sábio, ele não quer dizer de uma tristeza ou desprazer do jeito que nós entendemos, mas está muito mais ligada à ideia de um esquecimento ativo daquilo que nos impede de ter uma vida positiva. Epicuro é muito infantil – e assim foram também seus seguidores, como Lucrécio, aquele que acalmou o espírito latino, tal qual aquele o grego. Felicidade imperceptível – disso pouco sabemos, pouco temos permissão de saber em nosso tempo – Heiterkeit –, justamente por pensarmos que aquilo que ocorre na criança é necessariamente o que ocorre nos adultos, transferindo todos os conceitos que criamos para nós para dentro de um campo que nada tem a ver com isso.

Mensch

Humano

Você estava ali esperando para ser um joguete. E todas as circunstâncias estavam ao meu favor. Tão esperta e tão inocente ao mesmo tempo. Brinquei como uma criança. Não por maldade ou perversidade, mas sim por pura diversão e prazer. Está tudo na minha mente, e mesmo que eu queira nunca será apagado. Olhos imaginários que me escrutam. Perdoe-me consciência doentia. Culpar-me-ei de quê? De ter vivido? De ter experimentado e ter dado liberdade a minha vontade? Por ser humano?