Das Spektakel der Welt

O espetáculo do mundo

Papai costumava a me levar para todos os cantos, principalmente porque eu sempre pedia. Gostava de sair de casa, ainda que fosse a pé. As ruas nem sempre estavam cheias, às vezes era dia de feira, às vezes tinha algum acidente. Algo acontecia, mas nem sempre. Mas, se acontecia, era porque tinha acontecido e era só isso; não saía para ver algo acontecer, apenas acontecia, não era minha culpa. No entanto, vou me abster de mais detalhes sobre as coisas que aconteciam na rua, pois não é este o meu dever; se quiserem saber, não dependam de mim, apenas saiam de casa. Não me culpem, também, se nada acontecer, pois, às vezes, muitas acontecem, e nós que não prestamos atenção o suficiente, porque somos cheios de problemas, entupidos de preocupações inúteis em sua maioria. Não que devamos ser bobocas o bastante para achar que quando uma rosa nasce no meio do asfalto ela nasceu por causa de alguma coisa ou ver naquilo toda uma nova filosofia. É apenas uma rosa, aprecie-a. Este pequeno escrito que empreendo é apenas mais um acontecimento. A diferença, no entanto, é que ele não ocorre na rua, mas também não ocorreu em minha casa, mas em uma casa qualquer. Será apenas um parágrafo, não importa o tamanho dele; não preciso de mais do que isto. É justo antes dizer que, assim que eu nasci, eu fui inserido numa instituição, em que várias pessoas se encontravam semanalmente para aprender mais sobre algo que não me lembro muito bem. Creio que aprendi nada lá, mas não me importava com isto na época, pois nada era pesado o suficiente para mim, nem mesmo o que viria a acontecer, o que contraria muitos (felizmente, há alguns seres sensatos, pouquíssimos, que mostraram que estes muitos estão errados. Pena que a voz daqueles ecoa em poucos). Em um desses passeios, papai me levou para uma casa, não muito longe da nossa, por isso fomos andando, que era maior que a nossa, havia quatro quartos, o que seria ótimo. O dono daquela casa, que queria alugar a casa para o meu papai, era um bom amigo daquela instituição. Conhecíamo-lo muito bem, já esteve em nossa casa algumas vezes. Ele estava parado em frente ao portão da casa, que guardava uma garagem de um bom tamanho, sozinho, esperando a gente, pelo que parecia. Sorriu e nos cumprimentou. Meu papai e ele ficaram conversando; eu prestei atenção neles por um instante, mas logo fiquei aborrecido, chutando algumas pedras na rua, acertando alguns carros sem querer. Por fim, entrei na casa, deixando-os conversando. Era uma casa bonita. Estava completamente vazia. Parafraseando um bom poeta: tão bela quanto uma casa cheia; cada uma como é. Corria de um lado pro outro, escorregava, caía. Sempre soube que eu tinha de me levantar para cair de novo. Não que isto seja um modo de dizer que eu sempre fui triste, pessimista, pois eu sou o contrário, não porque eu queria, mas porque eu era. Por lá, encontrei o filho do dono da casa. Apareceu em minha frente quando eu tinha acabado de cair, estendendo a mão para me ajudar a levantar. Era bem mais velho que eu, devia ter uns dezesseis anos. Não tinha uma aparência muito bonita, mas não era exageradamente feio. Ri para ele como se ri quando alguém te ajuda a se levantar. Perguntou-me o que achava da casa, disse-me que sentiria falta de estar lá, pois morou ali desde que nascera. Disse que iria gostar de ficar na casa em que ele morou desde pequeno, que era uma ideia boa. Mostrou-me todos os cômodos da casa, contando-me diversas coisas que aconteceram ali, em sua maioria engraçadas. Contou-me como que, uma vez, sua irmã havia quebrado diversas peças de louça porque estava sonâmbula. Lembrou-se de como teve de ajudá-la, pois ela cortara os pés ao tentar andar ainda sonâmbula. Foi seu choro que fez com que todos se apressassem para ir ao seu encontro. Naturalmente, hoje, isto é lembrado com sorrisos e troças, ainda que ela ainda guarde, na sola de seus pés, algumas cicatrizes de tal acontecimento. Faltava apenas um cômodo a ser mostrado, o quarto dele, que estava com a porta fechada. De início, ele não queria entrar ali, mas eu insisti tanto que acabamos por entrar. O que primeiro me chamou atenção foi a pintura das paredes, totalmente rasgada. Ele me contou que era por causa de uns pôsteres que colocara ali. Não explicava, ainda assim, aqueles rasgos, como se ele os tivesse feito com um canivete. Fiquei vendo-os com grande admiração. Ele se sentou num cunhal do quarto e ficou ali, parecia estar com uma cara mais pesada. Olhava para uma das paredes, mas sem pensar nela. Sentei-me ao seu lado, tentava ver o que ele via, olhando para onde ele olhava, mas não consegui entender. Comecei a falar com ele, então, que eu queria que este fosse o meu quarto, no caso de meu pai conseguir alugar ou comprar a casa. Ele sorriu para mim e disse que seria ótimo. De repente, o rapaz me convidou para um jogo, uma brincadeira, em que eu tinha de ficar deitado no chão enquanto ele me olhava, em pé, examinando-me. Disse que queria tentar a carreira de médico e queria começar a treinar a partir do que muito viu em filmes médicos. De fato, ele gostava muito daquela ideia; sabia que ele já tinha assistido a vários documentários de diversas faculdades de medicina que mostravam todas as partes do corpo humano, discorrendo detalhadamente sobre cada uma delas. Olhava o meu corpo como se visse a mais bela de todas as esculturas. Ajoelhou-se e começou a mexer em meus olhos, nariz, orelhas. Mandou-me abrir minha boca e ficou olhando lá dentro. Mandou-me levantar e me despir, pois assim seria melhor para examinar meus pulmões e outras partes de meu corpo. Fiquei um pouco relutante, pois já fazia tempo desde que aprendera que meu corpo era meu templo, que meu corpo era sagrado, que é feio mostrar meu pênis e nádegas para outras pessoas. Enfim, não queria arranjar confusão, pois sabia que meu pai brigaria muito comigo se soubesse disso. Por isso, eu disse que seria melhor, então, fecharmos a porta, para que ninguém, nem meu pai nem o dele, me visse daquele jeito. Concordou e fechou a porta, enquanto eu me despia. Eu estava de costas para a porta, totalmente nu, olhando para fora através das pequenas frestas da janela fechada. Porque ele ainda não tinha aparecido, olhei em minha volta e o vi, olhando-me da porta. Falei nada, apenas fiquei de frente a ele, esperando que me examinasse. Em absoluto, eu me sentia desconfortável, sempre gostei de ficar nu na verdade. Achava muito injusto que apenas meu pai e minha mãe pudessem ficar pelados e felizes com isto (ainda que apenas no quarto deles), e impedir que eu ficasse feliz daquele jeito também. Não via mesmo qual era o problema, por isso que até cheguei a ficar feliz quando ele pediu que eu me despisse. Não estava nem frio nem quente, era ameno, e a janela, que estava fechada apenas na metade (era uma janela grande, de modo que os vizinhos nunca poderiam ver nem a mim nem a ele), iluminava bastante o quarto, o céu estava sem nuvem alguma. Era um dia bonito demais. Nada aconteceu por um bom tempo, ele me olhava, eu olhava ele, os rasgões nas paredes, tentava imaginar como era a disposição das coisas ali. Finalmente, ele se aproximou de mim, virou-me de costas, botou seu ouvido perto de uma das minhas escápulas e mandou que eu falasse “trinta e três” e depois tossisse, botou seu ouvido perto da outra escápula e mandou que eu fizesse o mesmo. Disse-me que estava tudo bem com meus pulmões. Mandou que eu me deitasse de novo no chão e começou a mexer na minha barriga. Ali, também, estava tudo bem. Pediu que eu me virasse, separou minhas nádegas e ficou olhando ali, dizendo-me que estava tudo bem e que eu podia me virar. Olhou um pouco para o meu pênis também, mas não falou nada, apenas passou direto para as minhas pernas. Disse que daqui uns três anos começariam a nascer pelos por ali. Isto não me preocupou. De repente, ele subiu de volta para olhar a minha cabeça. Começou a mexer nos meus cabelos, procurando saber se eu tinha alguma cicatriz por ali. Eu disse que tinha uma na testa e algumas outras na cabeça. Ele conseguiu achá-las. Contei-lhe sobre como eu ganhei uma das cicatrizes, enquanto brincava. Ele disse que não se surpreendeu, já que me encontrou, aqui, quase arranjando outra. Rimos disto. De repente, ele me beijou na boca. Tentei afastá-lo, mas não conseguia. Ele se afastou por um instante, estando ainda perto de mim, olhando-me de cima. Perguntei-lhe o que era aquilo. Ele disse que era nada e voltou a me beijar. Não consegui continuar lutando contra ele, pois era muito mais forte que eu. Sentia que brincava com a minha língua. Minhas mãos estavam forçadas contra o chão por causa das dele. Disse-me que se gritasse, iria me bater, e ele não queria fazer isto. Apesar de tudo, cooperei, pois não queria me machucar. Sequer pensava que meu pai estava lá fora e que, se ele me machucasse, não teria para onde fugir, tendo de enfrentar meu pai e o dele. Não tinha tempo e nem condições de pensar nisto, apenas me deixei levar. Ele me levantou, limpou-me com a mão, pois o chão estava um pouco sujo de poeira, e me pediu para imitar um cachorro. Não entendi direito e pedi para que ele me mostrasse o que era isso. Ele então se ajoelhou e pôs as mãos no chão. Fiz que nem ele, que veio por trás de mim e começou a machucar o meu ânus. Na verdade, não machucava tanto assim, mas não era uma dor agradável. Não durou muito tempo e senti que meu ânus estava com algum líquido dentro dele, alguma coisa que depois eu limpei no banheiro de minha casa. Quando terminou tudo aquilo, pediu que eu me vestisse e disse-me para que não contasse a ninguém o que se passou ali. No todo, ele ainda era aquele rapaz legal que eu conhecia, consegui perdoá-lo no mesmo instante por ter me machucado daquele jeito sem eu ter feito coisa alguma. No entanto, eu me sentia um lixo, arrasado, bastante destruído. Uma tristeza enorme se apossou de mim, mas que eu soube evitar exteriorizar graças ao rapaz, que andava sorridente ao meu lado, saindo de casa para ir se encontrar com nossos pais. Despedimo-nos dos dois e fomos para casa. Doía um pouco para andar. Meu pai me perguntou o que havia. Disse que havia machucado um pouco meu pé. Ele acreditou. Chegando em casa, não quis ir para outro lugar senão o meu quarto. Não queria sair de lá e não teria saído se não fosse por minha mãe me obrigar a descer para jantar. Conseguia fingir bem que estava tudo bem e cheguei até, de tanto fingir, a me esquecer do que ocorrera, conseguindo rir e agir segundo a norma, quer dizer, normalmente. Não obstante, a primeira noite foi a mais insuportável de todas. Não consegui dormir, não conseguia pensar em nada diferente. Recusava-me a ir contar ao meu pai e minha mãe o que acontecera, pois aquela instituição, em que ia desde que nasci, tinha um livro que sempre me ensinou que a homossexualidade (e eu já sabia muito bem o que era isso) era um pecado imperdoável e que qualquer um que o cometesse cairia em perdição eterna, sofreria no fogo do inferno. Apesar de nunca ter acreditado nisto, era um pouco impossível não conseguir pensar neste inferno depois de, sem querer, ter cometido um ato que era abominado por tantos. Acredito que, de fato, a partir daí, minha vida se tornou um inferno. Pensei e cheguei a acreditar, então, que o inferno não era uma questão post mortem. Por uma semana, eu não consegui dormir mais que uma hora por noite, causando-me problemas na escola, pois eu estava totalmente impaciente com tudo e todos. Meu rosto estava com um aspecto de total pusilanimidade, estava com olheiras enormes. Meus pais começaram a perceber isto logo nos meus primeiros dias de insônia e me perguntavam o que estava acontecendo, por que eu estava com aquele aspecto e humor. Ah! eles jamais poderiam entender que seu filho fora estuprado. Se eles soubessem, eu estaria, terminantemente, condenado ao inferno para sempre. Inventava qualquer desculpa para aquilo tudo, ou, simplesmente, os abraçava, fazendo-os se esquecer do que estava acontecendo comigo. Meu quarto passou a ser meu antro ectópico. Não aguentava sair para brincar, só queria fazê-lo em meu quarto. Apesar dele continuar sendo meu quarto e nada mais que isto, eu tinha a impressão de que ele também poderia ser um continente. Somente depois que eu destruí, não completamente, este continente no meu quarto que eu pude descobrir outros novos. Mas, enquanto isto não acontecia, eu continuava ali, meus brinquedos e eu. Chegou, então, o dia para irmos àquela instituição, sendo que eu sabia que iria me encontrar com ele. Não quis ir e pedi para meus pais me deixarem em casa, pois não estava me sentindo muito bem, disse que se eu fosse eu poderia vomitar, que seria melhor eu ficar de cama. Relutantes, eles foram para lá e me deixaram em casa sozinho. De feito, eu não estava me sentindo bem, não por estar doente, mas porque não dormira aquela noite também. Quando eles saíram, esperei cerca de dez minutos em minha cama, pois era mais ou menos o tempo até eles chegarem lá, e me levantei, sem disposição alguma, extremamente enojado de tudo, sem fome, apesar de não ter conseguido comer mais do que quatro garfadas na janta. Encostei com força minha testa na parede e fiquei naquela posição por algum tempo. Não me lembro no que estava pensando no momento. Desci as escadas e saí de casa. Fiquei olhando nossa varanda. E, ali, nada aconteceu senão o que aconteceu. Nada de extraordinário aconteceu, nada de surreal aconteceu, nada de cósmico aconteceu. Tudo estava como devia estar. O vento ventou, não para me acalmar (o que aconteceu), mas porque ventou. Foi dentro desta normalidade surda das coisas que eu, finalmente, percebi que o que me aconteceu não poderia ter deixado de acontecer. Jamais. Isto seria absurdo demais. Foi este, e não houve outro, momento em que conseguiu rir de verdade. Finalmente, percebi que aquilo que não pode ser mudado tem de ser comemorado com algum esquecimento. Corri para dentro de casa, arrumei-me, comi bastante, pois estava morto de fome, e fui para a tal instituição. Chegando lá, deparo-me com ele, que me olha feliz por eu ter vindo. Eu o cumprimento como sempre o cumprimentei e sigo para a sala onde estão meus pais. Ficaram impressionados a me ver ali, sorridente e tão contrário ao que eu estava sendo desde então. Mas, eu sabia que não estava nem um pouco ao contrário dos dias anteriores. Não sabia e nem queria explicar como não era o contrário, apenas não era. E apesar de toda baboseira que estava sendo dita ali, todas as predicações, todas as ordens, todos os pecados, todos os deveres, eu, enfim, pude ver que o inferno é a melhor de todas as coisas que já conheci e ouvi falar, pois eu era o primeiro sobrevivente de lá. Não que eu tenha ido ao céu depois que saí de lá. Apenas fiquei onde sempre estive e de onde nunca sairei, neste território imenso e impossível chamado mundo.

Glückse(e)ligkeit

A felicidade na tragédia

De repente, sinto que, finalmente, a vida pode valer a pena, todas as penas que eu tiver de sofrer. Literaturas que retratam a positividade da vida, sem nunca se esquecer de fazer suas incursões pelo negativo, pelos fantasmas da vida, por aquilo que a denigre e a faz odiosa, é algo que revigora e se configura como necessário ao extremo nos dias de hoje. Entender a literatura de massa como uma que se põe fora desse plano, pois está sempre inserida num campo moral, em que há o bem e o mal, em que há um final feliz, como se a positividade só pudesse florir num final feliz, em um “pra sempre” estúpido, é perceber os próprios problemas da cultura atual, da condição atual, do pensamento atual, ou de sua falta. Grandes esperanças, de Charles Dickens, é um livro alegre, apesar das várias críticas insistirem que ele é triste, terrível. A vida sempre foi triste e terrível, críticos extraterrestres. O caso é retratar a positividade inerente de um personagem anômalo, que olha para o “monstro” da tristeza e da orfandade e sorri com muito gosto. Este “monstro” é pura idiotice, pois não há monstros de jeito algum – só se torna monstro quando nos convencemos disso. Algo parece sempre se tornar aquilo que o forçamos ser, aquilo que modelamos dele. O mundo deixa de ser receptáculo de mar, terra e lixo, para se tornar qualquer coisa que um poeta queira. Nunca haverá objetividade alguma (ah! como minto, pois não tenho olhos abertos?), pois nunca haverão visões iguais. – O devir-cósmico da criança, que os artistas devêm, segundo os autores, nada mais é que essa alegria que se joga para muito longe da Terra (pois não esqueçamos que nomes de astros devem ser escritos com letra maiúscula), que se joga no Sol, ou nos anéis de Saturno, ou no esquecido Plutão. A literatura de massa, em suas origens, com certeza era cósmica, era geradora de pensamento (o mesmo, com certeza, pode ser dito da literatura fantástica, pois Tolkien pensava), de alegria (pensemos em Balzac, p.ex.) – Não se deve ler essa tal de alegria como pura retardadice, pura boboquice, mas uma que se junta a tudo, que se cola. Alegria triste, chorosa, melancólica, mortífera, sádica, masoquista, psicótica, obsessiva, infantil, juvenil, adulta, senil, moribunda, retardada, boboca, idiota, sexual, transexual etc. Parece que a alegria, aqui, se torna um conceito abstrato demais. Talvez seja mais legal pensar, então, que se trata de um modo trágico de vida: mata-se os filhos numa vingança alegre; arrancam-se os olhos num arrependimento alegre. Epicuro.

„Die Welle“ und die Überwindung des Faschismus

“A onda” e a superação do fascismo

A ideia de que não há mais como fazer poesia depois de Auschwitz, hoje, nos parece mais do que absurda. Nem tanto para aqueles que viveram movimentos como o “Diretas Já”, p.ex., pois este clima do século XX ainda ferve em suas veias. Mas, para nós, nova geração, geração pertencente ao século XXI por excelência, que possui, mais forte que nunca, a capacidade do esquecimento, apesar de tudo estar contra esta, não sentimos mais esse tipo de coisa, somos contra na verdade. No entanto, esquecer não é sinônimo de superação completa, é parte desta. Até que ponto pode ser o esquecimento um meio para novas possibilidades? Esta é uma questão que se põem aqueles que pesquisam história principalmente, pois há sempre essa questão da memória embutida nela: até que ponto (re)lembrar é útil? No entanto, não podemos nos deixar iludir, pois agir contra os movimentos da história, movimentos de devir essencialmente, seria tolice. O fascismo não acabou porque Hitler morreu e a Aliança perdeu a guerra. Aliás, sequer podemos chamar isto de fascismo, pura tolice, como se o que ocorreu em meados de um século qualquer fosse mais importante que qualquer outro tempo em algum ponto da história. O fascismo não é novo; e nós só não temos relatos de coisas “terríveis” (igualmente ou até mais) por fatores que vão desde o analfabetismo até a própria destruição dos documentos históricos (leia-se, qualquer escrito sobre uma guerra. Tomemos como exemplo a grande epopeia ateia de Lucano, “Farsália”). Aliás, pensemos sobre esta obra mesmo e analisemos o que o (pobre coitado do) Adorno quis dizer sobre a morte da poesia: o jeito de Lucano de denunciar a guerra e o derramamento desnecessário de sangue é feito através da própria poesia, e isto não é novidade. Herdamos dos latinos este pavor e tendência à guerra, pois, certamente, não é dos gregos que absorvemos isto. Enquanto a guerra era a mãe de todas as coisas gregas, a guerra era a proporcionadora da paz latina, como disseram os poetas de seus tempos. Nos tempos de hoje, no entanto, qualquer morte é proporcionadora de explosões. Temos acesso demais, notícia demais, sangue demais. Não prego a morte das guerras, pois o que seria de nós sem nossos jogos, o que seria do homem sem seu espírito agonístico? Não podemos ser tão egoístas a ponto de tirar uma das maiores virtudes do homem, que é o seu desejo imperialista (ouso mais ainda: instinto imperialista). Mas, é por causa daquela demasia toda de todas as coisas que pensamos que o momento presente é o onde tudo será resolvido definitivamente. Numa época em que nos gabamos de tanto avanço, como pode ser que retrogradamos ou não mudamos aquele velho instinto da dita “época das luzes” de acreditar que o fim do mundo é sempre iminente, que Satã irá chegar com seus sequazes, que o estrangeiro de hoje será a ruína de todo o mundo, de todos os tempos etc.? Todo esse espetáculo estúpido, tolo e inútil de morte de todas as coisas é nada mais que consequência de uma época de fraqueza extrema: “Sofremos as piores dores! Auschwitz chegou! Quem poderia esperar isto do Homem? Declaro a morte de tudo, pois não mais aguento a minha própria existência!” – Eis, então, que chega-me à consciência a luz daquilo que representa o maior amor da sociedade, o maior amor dos filósofos e cientistas da negatividade: inconsciente, negação da vontade, igualdade e “morte”, todos conceitos voltados para aquilo que é mais anti-humano e que, ainda assim, representa uma utopia; e o que quer a sociedade, senão utopias? Que os filólogos e historiadores continuem dizendo que o epicurismo surge apenas em tempos de trevas e crises – e que continue surgindo, pois não há afirmação e felicidade maiores.