Leiden

Sofrimento

Hoje acordei com a certeza de que a felicidade deve ser passageira, o que de fato interessa ao ser humano é a dor e o sofrimento, a tristeza por assim dizer. Eu mesmo ao escutar um violino chorar sinto-me extasiado. Quão mais triste é o ser, mais nobre ele é. Quão maior a doença, maior a alegria de vida. Foi o que um dia pude apreender de alguém que passou por mim e tinha olhos de mundo, longe, onde tudo quanto é o que é existe com um pundonor que é difícil não se sentir alegre. Isto faz crescer ainda mais a vontade de viver das coisas, ainda que todos os filósofos insistam: “É impossível!” – quantos deles souberam falar isto enquanto olhavam para esta tal coisa impossível e pisavam em um chão diferente de seus escritórios, de suas salas de aula, sentados em qualquer outro lugar que não fosse a cadeira que nunca erra, ainda que contribua em erros? Não dá para confiar naquilo que vemos escrito, pois a chuva não permite que o escrito se mantenha; é a felicidade, passageira e, por isso, sempre voltante, da própria natureza não saber se lembrar. Nem gregos nem romanos souberam venerar isto tudo com a mesma intensidade que eu possuo hoje, da qual tenho uma certeza absoluta e que me angustia não saber nomear um deus para isto: a felicidade da vida é saber adoecer. Os conhecedores gritam-me de novo: “Que tipo de realidade é essa que se afirma pelo negativo? Você não vê as coisas!” – Mas, quem falou que a tristeza é uma negatividade? Ah, vida, que triste quem não soube ser. Hoje eu acordei. Amainaremos ou encresparemos as velas da nossa alma ao sofrimento? Nos comportaremos feito vermes ou escolheremos viver nobremente sem a ignóbil felicidade deles que ao sentir aproximar-se a tempestade encolhem-se mais que depressa?

Autores: Sven; Gean.

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Kleine Betrachtung über das Kind in Kieślowski

Pequena consideração sobre a criança em Kieślovski

A criança, no nível físico, pois podemos dar a falsa impressão de que estamos tratando de uma criança que não existe, escapa dessas subjetivações extremamente rígidas que a sociedade e outras instituições de poder, a todo instante, obrigam-na a seguir. Em um curta-metragem chamado Gadające głowy (Cabeças falantes) (1980), o diretor polonês Kieślowski faz três perguntas (“Em que ano você nasceu? Quem é você? O que você mais deseja?”) para diversas pessoas, desde um bebê de 1 ano até uma senhora de 100 anos, numa linha que a todo tempo se contorce. Na quarta criança, nascida em 1976, o diretor a pergunta “Quem é você?”, recebendo uma das mais incríveis e desconcertantes respostas: “Nie wiem”, i.e., “Não sei”. O que primeiro chama a atenção é a tranquilidade e espontaneidade com que a criança fala isto, como se não houvesse problema essa falta de identificação. Mas, de fato, não há. A criança, quando não coagida a tal, não possui necessidade alguma de algo que a torne o que ela é, pois é disto que ela tenta fugir exatamente. Assim, o corpo possuído por um demônio toma proporções de uma realidade avassaladora. Deleuze e Guattari, a todo instante, insistem que o devir é extremamente real, age em todos os níveis, desde o imperceptível até o intenso. O demônio é um meio pelo qual a criança se abre para aquilo a que ela se direciona e a que se direciona a ela.

Outra coisa que chama a atenção: a linha de fuga criada por tal indiscernibilidade dela com ela própria. Isto é algo também identificável na criança anterior, de 1977, que responde ser apenas “Uma criança”. Deleuze, no capítulo IX, intitulado “O que as crianças dizem…”, chama a atenção para o fato de o devir apenas poder se exprimir através do artigo indefinido. Isto se torna facilmente explicável através de tudo o que já foi dito: o artigo indefinido não diz respeito a uma falta, pois “o indefinido não carece de nada, sobretudo de determinação”. A “determinação do devir” acontece num plano em que as coisas deixam de ter alguma fixidez e passam a representar uma singularidade, ou seja, a borda de um território. A indeterminação de algo é a possibilidade de um movimento ab. Assim, quando uma criança diz que não sabe quem é ou que é “uma criança”, não está querendo dizer que é nada ou o nada, mas, arriscamos, ela dá expressão à sua abertura, sua capacidade de se perder num meio, que é o próprio devir.