Kleine Betrachtung über das Kind in Kieślowski

Pequena consideração sobre a criança em Kieślovski

A criança, no nível físico, pois podemos dar a falsa impressão de que estamos tratando de uma criança que não existe, escapa dessas subjetivações extremamente rígidas que a sociedade e outras instituições de poder, a todo instante, obrigam-na a seguir. Em um curta-metragem chamado Gadające głowy (Cabeças falantes) (1980), o diretor polonês Kieślowski faz três perguntas (“Em que ano você nasceu? Quem é você? O que você mais deseja?”) para diversas pessoas, desde um bebê de 1 ano até uma senhora de 100 anos, numa linha que a todo tempo se contorce. Na quarta criança, nascida em 1976, o diretor a pergunta “Quem é você?”, recebendo uma das mais incríveis e desconcertantes respostas: “Nie wiem”, i.e., “Não sei”. O que primeiro chama a atenção é a tranquilidade e espontaneidade com que a criança fala isto, como se não houvesse problema essa falta de identificação. Mas, de fato, não há. A criança, quando não coagida a tal, não possui necessidade alguma de algo que a torne o que ela é, pois é disto que ela tenta fugir exatamente. Assim, o corpo possuído por um demônio toma proporções de uma realidade avassaladora. Deleuze e Guattari, a todo instante, insistem que o devir é extremamente real, age em todos os níveis, desde o imperceptível até o intenso. O demônio é um meio pelo qual a criança se abre para aquilo a que ela se direciona e a que se direciona a ela.

Outra coisa que chama a atenção: a linha de fuga criada por tal indiscernibilidade dela com ela própria. Isto é algo também identificável na criança anterior, de 1977, que responde ser apenas “Uma criança”. Deleuze, no capítulo IX, intitulado “O que as crianças dizem…”, chama a atenção para o fato de o devir apenas poder se exprimir através do artigo indefinido. Isto se torna facilmente explicável através de tudo o que já foi dito: o artigo indefinido não diz respeito a uma falta, pois “o indefinido não carece de nada, sobretudo de determinação”. A “determinação do devir” acontece num plano em que as coisas deixam de ter alguma fixidez e passam a representar uma singularidade, ou seja, a borda de um território. A indeterminação de algo é a possibilidade de um movimento ab. Assim, quando uma criança diz que não sabe quem é ou que é “uma criança”, não está querendo dizer que é nada ou o nada, mas, arriscamos, ela dá expressão à sua abertura, sua capacidade de se perder num meio, que é o próprio devir.

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5 comentários em “Kleine Betrachtung über das Kind in Kieślowski

  1. Ana Idris disse:

    Eu assisti esse vídeo e confesso que uma lágrima escorreu de meus olhos. É algo muito sensível, por vezes triste. Nós podemos ver que os sonhos da humanidade são muito parecidos, independente da ação do tempo.

    “A criança, quando não coagida a tal, não possui necessidade alguma de algo que a torne o que ela é, pois é disto que ela tenta fugir exatamente.”

    Concordo em gênero, número e grau. A criança não tem necessidade alguma de autoafirmação, coisas que nós adultos precisamos, como uma droga injetável. Somos cobrados o tempo todo em ser “algo”, “alguém”. O mundo está cada vez mais autoafirmativo!

    Enfim, este vídeo entrou para minha lista de favoritos. 😀

  2. Llew disse:

    Realmente muito bom, aliás, muito bom blog, parabéns a vocês – de coração – gostei mesmo de vocês.

  3. NZ disse:

    Textos lindíssimos. O blog de vocês está nos meus favoritos. Adorei o texto “homem e animal” e as reflexões sobre não conseguir transpor tudo que se quer para o papel, em um sensível escrito que começa com a cor roxa detrás do sol. Algo assim. Há uma atmosfera mágica e serena por aqui.

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