Kindesgefühl

Sentimento de criança

Eu queria levar uma vida solitária em uma cabana ou chalé em uma montanha gelada e coberta por neve. Esse poderia ser meu objetivo para uma década vindoura. Queria livrar-me da sucessão de imagens repetidas ao longo do dia, livrar do cenário velho e cansativo, dos rostos pálidos de zumbis produtivos e incansavelmente tagarelas. Pensado isso, abstraio daí o sentimento que me invade, a paz montanhesca, o frio aconchegante, o calor de uma roupa pesada que aqueça meu corpo, o bem estar de um gole de chocolate quente, a companhia de um livro e uma bela e confortável poltrona ao lado de uma janela com vista para a paisagem alva. As suas variantes também são belas imagens que permeiam minha imaginação, a tristeza momentânea que em certos tempos nos assolam ao olhar atento ao redor e a ausência de vida constatada. Ah, são tantas! Quão belas me parecem. Não merecem ficar expostas no papel. A vida é algo fascinante. Pensar na vida me deixa paralisado. Pensar e fazer uma retrospectiva de sensações, emoções e sentimentos de outrora ao mesmo tempo em que me tira o fôlego e me proporciona certa felicidade, tanto pelos bons momentos, quanto pelos momentos superados, me deixa angustiado por motivos escusos. E o que falar dos sentimentos primeiros, quando ainda nossos olhos são pueris e atentos a tudo quanto é novo? Que coisa bela, de verdade. Há algo mais fascinante que a descoberta infantil das coisas? Há algo mais extraordinário do que a meninil e neófita sede pelo novo de uma criança? Há algo mais fascinante do que aprender? Aprender com os olhos curiosos de criança, sem o lodo que nós que nos consideramos adultos carregamos em maiores ou menores quantidades conosco. Como se livrar do lodo sem aprender a desaprender?

“O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
 
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
 
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.”
 
13-3-1914

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1946.

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