Abgrund

Abismo

A E.L.

A solidão, comumente, me carcome por dentro, até que faça dali sair uma lágrima que não entendo bem. A noite não tem Lua, e minha escrita não tem propósito. Por vezes, vejo a janela de meu apartamento e olho para baixo com aquele sentimento brusco de saber que as coisas existem como uma náusea, uma vertigem abismosa que sobe pelos olhos até não restar mais nada, senão uma turva visão da queda. São esses os momentos em que sei que estou vivo, justamente quando estou a sofrer, quando vejo que cada pedaço de meu corpo é sangue, o mesmo sangue que me matará, o mesmo que me faz feliz. Sinto que em mim dorme chorando uma criança agachada, lacrimosa, desesperada com olhos tão abertos que tudo o que toco não sou eu, mas ela. A cada passo que dou, cada sensação metafísica de carne e chão que me sobrevém, sinto-me cada vez mais metamorfoseado neste ser que em mim jaz que não consigo ser qualquer outra coisa, não me permito ser qualquer outra coisa, senão ela, seja o que for. E, paulatinamente, como um pequeno balão no céu noturno deteriorando-se, as pessoas começam a me olhar qual não fosse eu um semelhante delas, como se meu corpo se diluísse na calçada fria e seca. Com o passar das horas, torna-se essa a minha forma comum de ser, a forma com que eu sei que devo me manter para viver. Conhecimento das coisas, despertas em mim o inconsciente que me impede de ver outra vida! E, olhando para trás, sinto como se tudo o que passou o tivesse feito em questão de segundos, como se eu fosse o maior culpado de tudo o que aconteceu ter acontecido assim. Não sei o que deveria fazer agora, se eu não fosse esse ser pequeno monstruoso. Meu olhar é baixo, e ouso sempre o olhar as pessoas, ainda que estas sintam um nojo tremendo de mim, como se uma qualidade, uma pequeno defeito de meu corpo fosse o suficiente para que tudo em mim seja o desprezível. Ah, mas a natureza não tem olhos e por isso mata todos sem quê nem por quê. Refugio-me aonde as coisas estão maximamente afastadas de mim. A solidão não mais me carcome, mas torna-se minha única companheira possível, a única coisa que pode me dar a impressão de que ainda vivo, apesar de todas as marcas de dor e cansaço que minha retina imprime em mim. A desilusão de tudo me fez agachada em meu canto, chorada apenas para mim mesma. Dou-me conta hoje de que as minhas lágrimas, que só sinto pararem de sair quando eu me esqueço delas, foram o maior símbolo da minha felicidade e que ela nunca passou de saber que estou só. A companhia mais próxima que tenho de mim é meu sonho, onde até ali estou como estou. Já procurei por milhares de portas que me levassem àquele lugar que dizem ser dono de toda felicidade humana e inumana, mas tudo o que encontrei foi o outro lado da porta, as paredes eram invisíveis e nada havia por trás além do que o que eu podia ver contornando-a. A felicidade é a porta fechada, é ter a ideia do que há além dela sem nunca a abrir. Meu corpo de menina é frágil, mas a minha alma é mais frágil ainda. Mas, tudo isto é consequência de viver, é consequência de não ter um mapa que possa guiar os passos, pois ele só se faz à medida que a duração de cada segundo existe conosco dentro. Pergunto-me dos porquês das coisas, pois não sei o que mais fazer, não sei no que mais pensar. A minha desilusão cria de novo toda a metafísica, a qual, pronta, eu cuspo de mim, ela não passa de uma bola de pelo. Nem metafísica, nem física, nem nada, apenas alguma coisa que me faz durar. Assim, a cada dia, a cada morte que causo, eu sinto que estou me tornando qualquer coisa que é o que devia ser desde sempre. Estou tão abatida que já não me sei de outra forma, não quero outra.

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