Irgend, irgendetwas…

Qualquer, qualquer coisa…

Pareço sentir o pesadelo de não ter dormido um sono que nunca tive, uma desigualdade latente lancinante entre os espaços de cada olhar de um olho meu, distorção intermitente não sei se dos objetos ou de mim, se da alma ou da pele. Quando paro e, a começar por meus dedos, sinto qualquer coisa, que creio ser o que tenho dentro, formar uma côdea por sobre minha pele que avança sem parar, sem que eu queira que faça algo diferente do que o que está, tenho a impressão de que qualquer coisa que venha a fazer não será capaz de chegar mais perto das sensações que sei ter no instante do que o silêncio, que no fundo não é mais que uma forma de comunicação de um corpo gritante. — Qualquer coisa, qualquer, que deixe minha vida mais devagar, mais natural e mais real.

Não por tristeza ou ódio ao que nunca tive ou ao que não fui, nem pela realidade retilínea do cotidiano, joguei-me num fluxo indefinível, num oceano sem partida nem fim, seteira sem sina nem ponto qualquer de retorno. Não sei o que vejo por dentro, sequer sei se é por dentro que vejo: importa-me mais ver do que a direção e sentido do objeto. Sei-me um qualquer estrangeiro que se interpõe nos sentidos sem meios, sem motivos para si, que somente ocorre fora da história, de qualquer memória.

Ander

Outro

Assim como não há culpa nem culpados, não há transgressão. Não há fruto que nos torne adultos nem ciência que vista o fruto. O cerne é o que há de podre e, por isso, continuará a ciência buscando pelo seio bom das coisas. Não creio que sigam uma linha reta ou torta, mas uma via sem rumo, mapa, auxílio, e assim segue, brumoso ou não. Aceito o que há, e se me pergunto o porquê de algo é por convenção, duvido jamais de sensação alguma minha, pois é do que minha existência se compõe. amalgamando-se com o estar das coisas. Defronte a mim, mil crianças, homens e mulheres rezam com claustroso fervor por estar prestes à morrer e conseguir enxergar isso frente eles. Se chorasse, choraria. Se sorrisse. sorriria. Cônscio de não haver Verdade e Harmonia, não me movo contra a ocorrência do cotidiano, não obstante fosse não sei que deus. Sobre o sangue construímos a imagem do que somos. Sob o sangue me lanço, vivendo inesperado de tal chuva, errando nas vias nodosas de azul miscidas com vermelho.

Beichten

Confissões de uma mente doentia
ou apenas desejosa de sangue daqueles a quem a morte é necessária

Sou perverso sim. Minha mente é diabólica. Eu gosto de almas suicidas, elas parecem reais. Eu gosto da inconsequência dos atos, do pouco caso com o ambiente ao redor. Gosto do egoísmo e de pensar apenas na minha necessidade. Preocupo-me apenas comigo e gosto de ser imprevisível no trato com os demais. Gosto de romper regras pré-estabelecidas, que me prendem a algo, e mesmo que não me prenda gosto de contrariá-las por simples diversão e para deixar bem claro quem é que dá as cartas. Apesar de me “enquadrar” na moral vigente neste pequeno espaço do universo [por vezes me rio desta tola moral judaico-cristã, tudo seria tão mais prazeroso sem ela, farão novas convenções, mas esqueçam as que até então têm predominado], na minha adorável mente as coisas funcionam diferentes. Piedade, compaixão são palavras que há muito foram banidas dentro de mim, pensem consigo mesmo, se todos cuidassem de suas próprias vidas não precisariam da ajuda de outrem, chega de parlatório, criem pessoas, não vermes, e não deixe os vermes reproduzirem, eis o segredo para a sanidade da sociedade; a mesma parcela da sociedade que se diz bondosa é a mesma que cria os problemas na sociedade para em seguida darem a solução; não necessito da bondade de vermes, nem dos seus problemas e soluções. Clamo a todos para repudiarem o resíduo de verme que há dentro de cada um e a não reproduzirem mais vermes, desta forma, quem sabe, um dia acabará essa raça de pregadores da morte e a quem se deve pregar a morte. Do contrário, permanecerei com minha mente doentia, desejosa de sangue daqueles a quem a morte é necessária. Quereriam estar mortos, e nós santificamos vossa vontade, mas não percam vosso tempo convencendo ao próximo a morrer também. Vão depressa!