Wiederherauferlebnis

Redivivência

Minha vida sempre esteve direcionada às grandes alturas, grandes imagens, belas também. Sobre essa montanha, acima de mil metros de qualquer homem, vendo-o realmente como se me mostrou desde sempre, eu, nesse abrir e fechar de olhos, consumirei minha vida através de mãos que são minhas. Sou um samurai honroso, conhecedor de minhas normas e, desde sempre, grande afirmador de meu destino, fosse ele qual fosse: matei outro samurai, logo, devo igualmente me matar. Matei minha última companhia, meu último amigo, grande samurai de tempos inauditos, antigo mestre meu, que, infelizmente, deixou-se escapar por vias intrilháveis para qualquer um que pertencesse a minha laia. Matei com a mais pura consciência de que a minha morte seria a próxima; matei com o mais doce sabor de sangue em minha língua e em meu corpo, sabendo que o próximo a escorrer pelo vento seria o meu. Assim manda a tradição, assim manda minha alma.

Em verdade: que medo sempre tive de estar só, de estar sem ele; que medo sempre me apavorou por saber que seu caminho seria o da desgraça. Tive-o por amigo, sabendo que amanhã nossas espadas entrariam em embate até a morte. Que temor sempre me afligiu, que horror de saber que, a qualquer instante, eu estaria sentindo meu punho empurrar a lâmina contra sua carne, sentindo na minha pele o som de uma vida se esvaindo aos poucos. Eu sabia disso tudo desde o início, mas não me arrependo do que fiz. Onde, então, buscar consolação para tão grandes tormentas, jazidas em animal tão fraco e frágil quanto o homem? Não podia ser em outro canto, senão onde o homem era mais forte, mais ágil e ignorante: na infância.

Estive com crianças, brinquei com elas, conversei com elas, como que entre iguais. Quantas delas não possuíam uma sedução felina, líquida, com danças de brasa ardente e toques de lascívia inalvedria? Atingi grandes alturas por estar sozinho com elas. As mais raras palavras vieram-me da imaginação.

Hoje, finalmente, estou só. Só sem ninguém. Vim ao mundo com a alma depositada no fado de morrer só. A espada já está direcionada ao peito, sua lâmina mais vidente do que nunca, refletindo o luar no meu olho, tornando-me cego. Eis que… empunhada a espada, sentindo o sangue escorrer por minha barriga ao meu pênis, ouço um baque terrível, um urro terrível, uivo vetusto da dor humana: olho para baixo e ali está uma criança jogada no chão, com sangue no rosto, feridas terríveis abertas; ao longe, vejo uma riquixá correndo a toda velocidade, fugindo provavelmente. Estaco no chão, árvore solitária da montanha, e ouço seu pequeno corpo rastejando em direção a mim, rastejando o corpo inteiro, levado apenas por seus braços… lento, lento, deslizando pela terra, deixando seu sangue como rastro… o rapaz dançou para lesma, e sua parede era a terra…

Finalmente, aproximando-se de mim, a boca de mussitações inexplicáveis, senão pela linguagem universal da dor, seus olhos refletiam a Lua, sem que ele a olhasse. Vi por ele outra Terra a que pudesse receber a iluminação de tão grandiosa Lua. Lembrei-me dos versos que fiz um dia com meu amigo, à maneira de nossos haikais sem metro:

Retinoblastoma:
Meu resumo de vida.
A impureza altiva do corpo.

Vendo-o incontinenti, ele alcançou as minhas pernas e fez uma força que nunca tive para se levantar; pegou na lâmina da espada, cortando toda sua mão e dedos, de modo que, apoiando-se nela para se manter em pé, pegou uma de minhas mãos e a jogou para dentro de sua grande ferida exposta, soltando gritos inexplicáveis de choro, pressionando fortemente meu pulso para que não a tirasse dali. Não me movi. E ficamos nessa posição até que pudéssemos ouvir o último suspiro que ele daria.

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Matrimônio ao Dilúculo

                Doce criança que em tudo acredita, vai ao encontro da tua parceira matrimonial, com toda a altivez que o teu ser um dia teve e não olhes para trás. Queres fugir da tua solidão? Queres atrever-se ao desconhecido? Queres fazer da tua vontade a concretização objetivada pela tua companheira do fruto do amor? Que diz a tua vontade para ti? Escolheste isto, sacrificar tua solidão, às cegas? Ou escolhestes isso em meio dos teus pensamentos mais iluminados? Já não te basta ser estúpido soturnamente? Queres estender a tua estupidez ao lume social? Ou ainda escolheste isto por capricho do teu instinto mais animalesco? Tua lubricidade custar-te-á caro!

                Torturam-me a esta altura da madrugada, sob os olhares de Nix, esses meus questionamentos e as minhas autoexortações. Afinal, por que eu, amante incomensurável da solidão, desposar-me-ei? Serei eu um covarde ou um desbravador? Doce aurora de minha vida! Seja qual for a minha caminhada, que nunca me abandone o riso. Ó madrugada, doce companheira, tu não tens desapontado-me, és fiel, amena e sabe silenciar. Se Hera assim o quer, desposar-me-ia com maior felicidade sob o teu luar a refletir os solares raios dourados.

                Ó, doce criança que em tudo acredita, vai e não olhes para trás. Que Eros traga ao teu matrimônio uma linda criança e que ela se chame Nix. Ó doce criança, terás sempre onde repousar, sob os olhares de Ártemis, até a hora dilucular.

Matrimônio ao Solar

Não dar uma de esperto por saber o que penso… era o que minha esposa me dizia no exato dia de nosso casamento, embora, também, a todo instante insistisse que não podia ser vista. Em verdade, fui deixar tudo para a última hora, não comprei nem aluguei terno, não cortei o cabelo, não me barbeei, nem tinha ainda tomado banho. Faltava muito pouco tempo para o casamento e eu ainda estava ali, contemplando a natureza em minha solidão, sentado na soleira de minha casa, que em breve seria nossa, ouvindo o som vago do farfalhar das folhas e de distantes sabiás, gorjeando por vezes seus sons costumeiros, por vezes sons cromáticos, o que me assustava de primeira. Enfim, estava sendo o mesmo ridículo de sempre, achando que há alguma coisa nesse todo alguma coisa, apenas mais um pós-contemporaneozinho imaginando palavras difíceis para me destacar. Mas, não sei ser outro.

Aos poucos, meus amigos se reuniram em torno de mim — parece que tinham se encontrado por minhas costas e agora apareciam de supetão — e berravam contra mim, dizendo que não merecia a mulher que teria, que eu devia honrar o casamento, que não restava muito tempo. Tudo o que eu já sabia, mas ainda assim rebatia, dizendo que tudo me tomaria, no máximo, vinte minutos, que eu não sou nenhum pedaço de filé repleto de nédio para demorar tanto no preparo, muito menos um apreço que não tem preço. Assim, me levantei e fui me arrumar, tamanha fora a insistência dessas pestes. O que me impressiona no ser humano, quer dizer, em mim, é o caso de não conseguir não sucumbir às circunstâncias: tenha uma aranha ao seu lado, irá correr mundo afora — atrás ou contra ela —, não importe o quão firme e bem resolvido em suas morais ele seja. Por mim, não teria ido me arrumar, queria apenas continuar vendo os cirros distantes que refletiam a miragem física e metafísica de minha amada no céu sem cores, de um preto no branco, muro branco-buraco negro de contornos esbatidos e sujeitos esfacelados. Esfacelados face à face da morte tesoureira em direção ao cabelo. Ora essa, que mal poderia haver em eu ser absorvido por tal imagem de minha amada, essa belíssima sereia, ninfa, medeia de meus sonhos reais, para os mais recônditos espaços de sua alma? Eu teria, então, tão pouca razão em simplesmente desejar existir sem viver em noites de vida sem amanhecer? Sequer uma metáfora num livro antigo eu posso ser? Que dureza viver. — Se já estou pronto? Lógico! Eu não falei que era rápido? Vocês se preocupam muito. Quem vai me levar para o templo, onde sacrificaremos a solidão de nós dois? Ah, é na esquina do Bar do Conde? Sim sim, por lá se chega mais rápido na catedral de São Pedro de Alcântara, santa catedral esfumaçada, engloutie, esfumaçada.

Mal me aproximo dela e já me sinto puxado, qual amante resgatado do inferno que é visto por seu herói e, assim, puxado de volta à presença de Hades. Salve-se quem puder. Essa catedral inteira me toca o rosto: é a minha futura esposa, ela não me espera dentro da catedral, mas em sua porta, como que a me receber, enlaça seu braço esquerdo no meu direito e entra junto comigo, ao som do órgão imenso, de sons túndricos, de um frio que me absorvia a alma inteira nesse envolver de braços e líquidos sudorais. Foi um fim de tarde completamente ligada ao sideral de beijos e festas de noite entrada, celebração carnavalesca, permeada de danças tribais em roda ou solitárias, festejando agora o matrimônio ao luar.

Weiße Worte

Palavras Brancas 

Estou entristecido. Triste com o destino que escolhi, com a covardia que até aqui tem me acompanhado. Decepcionado com tudo em que acreditei e com o resto do que acredito. Envergonhado da vaidade que senti de coisas passadas. Cansado de ter esperanças sobre coisas que nem sei se quero. Enfastiado de esperar a mudança sem agir. Torturado com a hesitação no momento da ação; com o passo para trás que insiste em me perseguir. Preocupado com a preguiça que me domina e impede de fazer o que não gosto, mas acho que tenho que fazer e para fazer o que acho gosto, mas não tenho certeza. Atônito com o pensamento de pensar o que sou, desamparado em perceber o que me tornei, aturdido em observar o tempo que escorreu pelas minhas mãos e desesperado em ver o tempo que me resta esvair-se lentamente sem o menor esboço de reação. “Criamos nossa realidade através de nossos pensamentos”; estaria eu criando a realidade que mais me apraz? Se não, por quê? Estaria eu querendo sabotar-me e privar-me de ser eu mesmo? Sei o que quero ser (ou como gostaria de ser)? Não, não o sei. Se soubesse não estaria deambulando a escrever. Estaria apenas sendo.

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Atualizando o post com Fernando Pessoa. 

“Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).

Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.

Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.

Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.”

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966