Weiße Worte

Palavras Brancas 

Estou entristecido. Triste com o destino que escolhi, com a covardia que até aqui tem me acompanhado. Decepcionado com tudo em que acreditei e com o resto do que acredito. Envergonhado da vaidade que senti de coisas passadas. Cansado de ter esperanças sobre coisas que nem sei se quero. Enfastiado de esperar a mudança sem agir. Torturado com a hesitação no momento da ação; com o passo para trás que insiste em me perseguir. Preocupado com a preguiça que me domina e impede de fazer o que não gosto, mas acho que tenho que fazer e para fazer o que acho gosto, mas não tenho certeza. Atônito com o pensamento de pensar o que sou, desamparado em perceber o que me tornei, aturdido em observar o tempo que escorreu pelas minhas mãos e desesperado em ver o tempo que me resta esvair-se lentamente sem o menor esboço de reação. “Criamos nossa realidade através de nossos pensamentos”; estaria eu criando a realidade que mais me apraz? Se não, por quê? Estaria eu querendo sabotar-me e privar-me de ser eu mesmo? Sei o que quero ser (ou como gostaria de ser)? Não, não o sei. Se soubesse não estaria deambulando a escrever. Estaria apenas sendo.

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Atualizando o post com Fernando Pessoa. 

“Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).

Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.

Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.

Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.”

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966

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