Matrimônio ao Solar

Não dar uma de esperto por saber o que penso… era o que minha esposa me dizia no exato dia de nosso casamento, embora, também, a todo instante insistisse que não podia ser vista. Em verdade, fui deixar tudo para a última hora, não comprei nem aluguei terno, não cortei o cabelo, não me barbeei, nem tinha ainda tomado banho. Faltava muito pouco tempo para o casamento e eu ainda estava ali, contemplando a natureza em minha solidão, sentado na soleira de minha casa, que em breve seria nossa, ouvindo o som vago do farfalhar das folhas e de distantes sabiás, gorjeando por vezes seus sons costumeiros, por vezes sons cromáticos, o que me assustava de primeira. Enfim, estava sendo o mesmo ridículo de sempre, achando que há alguma coisa nesse todo alguma coisa, apenas mais um pós-contemporaneozinho imaginando palavras difíceis para me destacar. Mas, não sei ser outro.

Aos poucos, meus amigos se reuniram em torno de mim — parece que tinham se encontrado por minhas costas e agora apareciam de supetão — e berravam contra mim, dizendo que não merecia a mulher que teria, que eu devia honrar o casamento, que não restava muito tempo. Tudo o que eu já sabia, mas ainda assim rebatia, dizendo que tudo me tomaria, no máximo, vinte minutos, que eu não sou nenhum pedaço de filé repleto de nédio para demorar tanto no preparo, muito menos um apreço que não tem preço. Assim, me levantei e fui me arrumar, tamanha fora a insistência dessas pestes. O que me impressiona no ser humano, quer dizer, em mim, é o caso de não conseguir não sucumbir às circunstâncias: tenha uma aranha ao seu lado, irá correr mundo afora — atrás ou contra ela —, não importe o quão firme e bem resolvido em suas morais ele seja. Por mim, não teria ido me arrumar, queria apenas continuar vendo os cirros distantes que refletiam a miragem física e metafísica de minha amada no céu sem cores, de um preto no branco, muro branco-buraco negro de contornos esbatidos e sujeitos esfacelados. Esfacelados face à face da morte tesoureira em direção ao cabelo. Ora essa, que mal poderia haver em eu ser absorvido por tal imagem de minha amada, essa belíssima sereia, ninfa, medeia de meus sonhos reais, para os mais recônditos espaços de sua alma? Eu teria, então, tão pouca razão em simplesmente desejar existir sem viver em noites de vida sem amanhecer? Sequer uma metáfora num livro antigo eu posso ser? Que dureza viver. — Se já estou pronto? Lógico! Eu não falei que era rápido? Vocês se preocupam muito. Quem vai me levar para o templo, onde sacrificaremos a solidão de nós dois? Ah, é na esquina do Bar do Conde? Sim sim, por lá se chega mais rápido na catedral de São Pedro de Alcântara, santa catedral esfumaçada, engloutie, esfumaçada.

Mal me aproximo dela e já me sinto puxado, qual amante resgatado do inferno que é visto por seu herói e, assim, puxado de volta à presença de Hades. Salve-se quem puder. Essa catedral inteira me toca o rosto: é a minha futura esposa, ela não me espera dentro da catedral, mas em sua porta, como que a me receber, enlaça seu braço esquerdo no meu direito e entra junto comigo, ao som do órgão imenso, de sons túndricos, de um frio que me absorvia a alma inteira nesse envolver de braços e líquidos sudorais. Foi um fim de tarde completamente ligada ao sideral de beijos e festas de noite entrada, celebração carnavalesca, permeada de danças tribais em roda ou solitárias, festejando agora o matrimônio ao luar.

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