Die Freudenschichten

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As camadas da alegria

Nada ocorre como desejamos. A vida inteira é regida por incertezas que o planejamento mascara. Assim me sentia quando via minha mãe pendurada naquele penhasco. Não pensava que a mataria daquela maneira, mas, de qualquer forma, era o que eu queria fazer. Acabou que pouco importou o modo. Peguei de uma vez a pedra e bati com força em sua cabeça, enquanto minhas pernas ainda tremiam pelo peso da pedra. O baque me veio mais alto que seu pequeno grito de dor antes que pudesse morrer. Em momento algum, deixei de vê-la cair. Desde o momento em que ainda podia ver seu rosto com clareza, repleto de sangue pelos meus golpes anteriores, até quando seu corpo se partiu nas rochas e foi engolido pelo mar, eu percebi que seu corpo inteiro ecoava as camadas escamosas do mar onde seria jogada. Seus olhos, castanhos, nesse momento derradeiro me luziam azul, branco e gnáissico. Jamais me esquecerei, por alegria minha, de que sua última lufada de vida foi repleta de amor por mim, sempre correspondido. Meu sorriso foi o que talvez a fez esquecer de que também sorria, embora estivesse em face a um momento que sempre quisera evitar, como todos. Não fui preso, ainda hoje vejo essas águas em que minha mãe caiu e onde eu também joguei meu pai e meu lindo primo, que não fazia nada mais que nos visitar. Já havia muito que meus pais mostravam preferência maior por ele. Eu também mostrava grande amor por ele, oferecia minha cama (eu dormia no chão), trazia comida para ele antes de acordar, brincávamos horas e horas a fio, até o anoitecer e também sob o luar. Para tanto, tínhamos que sair escondidos pela janela. Invadíamos prédios, quebrávamos seus vidros com pedras que recolhíamos no caminho, incinerávamos mendigos (não sem antes botar uma rolha em suas bocas, afinal de contas, não queríamos acordar ninguém de bem), sentíamos frio intenso e conversávamos muito, seja nos troncos das árvores, seja em bancos de praça isolada. Ríamos da vida como se seu peso fosse o de não existir. Numa dessas noites, eu revelei para ele que um dia o mataria. Não sabia que reação esperar dele, pois nunca avisei besouro algum que iria o matar, ainda que me afeiçoasse a ele: ele virou para mim, com suas bochechas e nariz vermelhos de frio, riu e disse que planos para o futuro eram inúteis. Foi com ele que aprendi a viver.

— Primo, pouco importa.

Eu o amei e tive muito mais apreço por ele a partir de então. Meu pai trabalhava muito, como a minha mãe, e, como ela, sempre arranjava momentos para estar comigo, conversar, sair. Ele era um homem incrível e me assustava com o tamanho de sua inteligência. Sempre vinham amigos de outros países passar um tempo em nossa casa, nenhum deles sabia meu idioma, mas, ainda assim, meu pai conseguia alguma forma de saber falar o idioma deles. Era algo totalmente fora de meu alcance; sempre que tentava conversar com eles eu me irritava pela incompreensão. Ainda assim, eles davam tapas em minha cabeça e riam com o meu pai, que me olhava com uma expressão dócil e sempre austera, por causa da barba.

— Meu filho, é preciso estudar. Muitas vezes isso fará com que você se afaste das pessoas de que você gosta, não porque você não goste mais delas, mas porque o estudo toma tempo e tomar tempo é um sacrifício. Se quiser ver de outro modo, é como se você estivesse brincando com seu primo: você está afastado de nós, só volta de noite e totalmente cansado. O que importa, não obstante, é que você volta mais feliz e até mais disposto. Assim também te deve ser o conhecimento.

Ao ouvir isso, eu chorei, pois percebi quanto de meu tempo eu passava longe deles; o que meu pai fez parar com uma risada que contagiou minhas lágrimas. Quando contei isso para o meu primo de madrugada, ele não deu muita importância, simplesmente saltou do banco e ficou andando ao redor dele, em círculos cada vez maiores. Eu não o seguia com o olhar, mas sentia que ele me seguia com os olhos, que ele queria me ver cada vez mais de ângulos diferentes. Mas, nada impedia que ele apenas visse outras coisas. Eu não sou o centro de nada. Minha mãe devotava um amor muito visível pelas coisas; eu realmente nunca a vi chateada com nada. Até em momentos de briga, em que era visível que tudo ruía ao seu redor, ela mantinha uma expressão que faria de qualquer ruína à prova do tempo. Adorava quando ela suspirava quente no meu ouvido, lambendo-o com suas palavras. Faziam-me cócegas as suas palavras. A vida inteira me fazia cócegas e eu era feliz — tal qual sou hoje.

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