Nach dem Sonnenuntergang

paul klee

 Após o ocaso

De longe, parecia que nossa vila era simétrica e sempre iluminada pelo Sol e pela Lua no centro, entre algumas nuvens e sobre a antiga árvore. Havia também alguma escada e montanhas que ladeavam e cerceavam o nosso espaço, deixando-nos com apenas uma saída para ir comprar o que precisávamos por vezes. De longe, tudo é inútil. Qualquer um que se desse ao trabalho de descansar e ir pra lá, veria que ela é tudo menos isso tudo. Muita gente na rua, todas escondidas antes, como num passe de mágica de haver mais que a ideia de havê-las, transitando, algumas estacadas com gritos na fauce para chamar a atenção, outras em conversas particulares, ilícitas. Há nessa vila um homem casado, que está nesse momento andando pela rua, olhando de um lado para o outro, dando graças e saudando homens e mulheres, tem aspecto magro, cara rapada com pequenas suíças, seu Maurício. É homem casado com a dona Joana, mulher bonita, com os braços um pouco cabeludos e robusta na proporção certa de quem trabalha pesado.

— Ô, dona Joana, e como anda seu homem?

— Nada de mais, nada de menos. Na mesma de sempre.

— E a outra lá? E o teu outro lá?

— Ah, estão bem. Há tão pouco, né, que se falar. Nada acontece a mais.

Depois do serviço, dona Joana e seu Maurício se encontram com seus amantes e se reúnem em casa para a janta. Têm filhos, que também estão em serviço até a hora da janta, que andam de um lado pro outro com gracinhas, buscando o que comer na feira e algum serviço que possam ajambrar. Seus amantes eram dona Armaria e seu Lucrécio, ambos também casados e com seus filhos, mas sempre reservavam um dia para estar com seus amores.

— E o que arranjou hoje de serviço, seu Maurício?

— O mesmo de sempre. Carreguei uns sacos pra lá e pra cá, consertei umas peças quebradas por aí. É vida que segue.

— E nada de o senhor ir pra igreja?

— Vixi, homem, não há tempo para servir Deus sem estômago bucho.

— Ora essa – fez muxoxo dona Armaria –, bucho é o que anda por aí nas feiras. Ô gentinha que não presta pra ser gente.

— Tá falando de quem? – perguntou, rindo e se inclinando para ela, dona Joana.

— Quando passar na rua eu te mostro. É perigo falar de mulher perto de homem.

— Como assim?! – replicou seu Lucrécio – Como se a senhora fosse a mais respeitável das damas.

— Ora essa, cala a boca, homem. O problema todo é de vocês meterem na cabeça de ficar com uma só. Como ficarão as crianças tendo um exemplo desses em casa?!

— Hahaha! – riu gostosamente dona Joana – Você realmente acredita que esses marmanjos têm ideias de por uma só mulher em casa? Esse monte de saco de sêmen não fica parado só com uma perseguida, não.

— Ô se não fala a verdade, querida! – falou sorridente seu Maurício, beijando-a na boca com uma mão em sua cabeça, as pernas apertando as de dona Lucrécia – Mas você fala como se não perseguissem também. Até parece que um mastro da liberdade lhes é suficiente. Dois ainda é pouco.

— Ai ai – falou, relaxando o corpo na cadeira, caindo as pernas entre as de seu Lucrécio –vocês são bobos demais.

E assim continuavam a conversa pela noite afora, entre gritos de casas vizinhas e crianças. Em breve, estariam na cama cada um com os seus, cada um nos seus. Mas, se o gozo parasse aí, essa vila seria, no mínimo, menos quadrada. De madrugada, como sói ser, ouvem-se alguns passos rápidos indo de um canto para o outro. Nesses momentos, todos paravam de falar e ficavam escutando o que se seguia. Apenas as crianças não paravam com o que faziam. Geralmente, esses passos pressagiam a busca por alguéns dali que os senhores obrigavam a trazer para suas casas. Eram cinco esses senhores: um administrador, um diplomata, um padre, um prefeito e um escrivão. Todos os dias, após o trabalho, não muito depois da noite entrada pelas ruas, um grande pelotão buscaria homens, mulheres e crianças específicas para comparecerem frente a esses senhores assinalados. De rabo de olho, iam olhar pela janela quem era levado. Os quatro já foram, lógico, levados para lá mais de uma vez e sempre se lembravam do que tiveram de fazer por lá. Apenas não sabiam ainda o que haviam feito com seus filhos, pois nunca falavam, embora tentassem por todos os meios fazê-los falar, seja por suborno, seja por ameaças. Nada as faria falar o que aconteceu por lá. Eu até poderia falar o que fazemos com os rapazezinhos e as menininhas, com seus corpinhos diminutos, mas não com menos sensualidade. Muitas vezes, acreditem-mo, apenas pedimos que façam o que quiserem: como se achassem graça nisso (e hoje penso que acham!), faziam shows de exibições de seus corpos, com toques de um lado pro outro, com risadas de quem brinca consigo mesmo. Crianças são bonequinhas de si mesmas (e nossas, lógico). Os adultos, no entanto, demoram sempre um pouco mais para se livrar das roupas. Mas, os homens são mais resolutos, isso é certo. As mulheres são mais provocativas. Os homens fazem violência sensual dos corpos. As mulheres nos induzem as comer-lhes os pomos.

Sinceramente, todo esse jogo valia mais a pena depois, porque o gozo acaba rápido: reuníamos e começávamos a conversar, nus, pela casa inteira, cada um indo para um canto, depois se reunindo de novo: mas, agora, ninguém sentia a vergonha do corpo. Na maioria das vezes, íamos para o ofurô: fosse adulto, fosse criança, nós amamos.

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