Kaltes Blut

Agnes Cecile

Sangue frio

E isso algum dia acontecerá, não sei como, mas um dia será assim.

* * *

Deitada na cama, pensei insistentemente durante a noite inteira, ainda que cansada após ter não me entregado, mas ter roubado ele todo para mim. Mas, nesse ato, não vi em que parte também eu era roubada, não vi o que houve em mim que se partiu, demasiadamente partiu. O sono desse homem me parecia pesado, sua respiração em meu ouvido se movia no ritmo das sombras dos galhos lá fora, era densa e molhava o meu ombro esquerdo, como o rocio que se formava na janela e nas plantas. As circunstâncias em que eu o conheci foram simplesmente nenhumas; estava na rua e simplesmente me surgiu um dia, não faço a menor ideia do como aconteceu, e agora me pergunto, mais do que nunca, o que aconteceu. O que me aconteceu para estar de tal modo? E que modo? Assim, “realizada, com tudo na vida, alguém de futuro feito” e perdida, sem conhecer o meu lugar nem entender que lugar todo é esse, embora seja a minha casa, minha cama, e a mesma árvore que plantara quando criança. Agarrei-me a ele como se tivesse um medo enorme que fosse embora, como se tudo em minha vida dependesse de sentir-me colada ao seu corpo inteiro, vazando suas costas com minhas unhas, sem o acordar, e cada vez mais senti que esse aperto me roubava demais. Seu corpo tinha algum calor, mas seu sangue era frio; soube disso ao tirar minhas unhas de suas costas e estendê-las sobre o meu rosto, pequenas gotas caíram, rolaram pela minha bochecha, a mais fria de todas caiu em meu olho direito, a mais insípida, na minha boca. Quando me sentei apoiada no meu cotovelo e olhei por um momento o chão, subi as vistas para a janela e o dia começava a acordar. Isto lhe abriu os olhos; não me desviei do céu. “Sabe, eu te amo tanto.”, eu disse — “Eu também te amo.” — “Não, isso não é possível.” Levantando-se nu da cama, pôs-se em minha frente; não me mexi. “Não só é possível, como é a mais absoluta verdade.” — “Me machuca muito mais saber isso.” — “Eu jamais te machucaria.” — “Se você soubesse da dor que eu sinto, do quanto minha alma se contorce toda por um amor… Ah, quem dera você me fizesse bem.” — “Eu te faço bem.” — “Você me fez bem.” — “Você sabe que eu não posso mudar. Você quem mudou.” — “Sim, eu que mudei. Quero viver… Tenho uma ânsia tão grande, um desejo tão grande de viver… Cada suspiro que dou não faz mais que aumentar essa distância entre o que eu quero e o que sou. Não só sei que tenho essa ânsia, como todo dia eu a sinto, é como um lago aonde ninguém mais vai. O culpado não é você, mas o amor que nutro por você. É essa a última coisa que faz impedir passar essa ânsia por meu corpo.” — “Eu não te entendo. Pensava que eu era a vida para você. Pensava que tudo o que eu te mostrava era a vida para você. Todos os meus esforços e tudo em mim foram para você.” — “Se isso é a vida, ainda que a mais verdadeira de todas, renuncio, me recuso a ficar nela. Tudo o que você me mostrou foi o que eu mais queria ver, mas não desse jeito.” Saindo de minha frente, ele ficou de pé do meu lado. Com meu olho esquerdo, pude ver um pouco do seu corpo, passei meu braço por baixo de sua cintura, abracei-o, encostei minha cabeça em sua barriga, e sua coxa, em meu seio esquerdo. Escorreguei minha mão e me desencostei de toda dele. Vi ele passar em frente a janela, vestir-se e ir embora, sem mais haver uma palavra. Não me lembro se ele chegou a me encostar, passar sua mão em minha cabeça; se o fez, não senti. E em breve, ele não mais existiu, senão em minha memória longínqua.