Atme

Folega

Acorda! Leviano animal vaidoso. Tu sabes bem que tu nada tens com que quer que seja. Tu, solitário homem, sabes bem que não precisas de nada. Ó, sensato homem. Vive leve, teu corpo assim pede: leveza! Viva, deixe ficar, deixe passar. Não exijas. Que queres? Ter o que não te convéns? Há muito que deambulas dentro de ti mesmo de olhos fechados; sê assim, mas sê leve. Esqueces-te que morrerás? De que te adianta toda essa sucessão de cenas angustiosas em busca de nada. De que te adiantarás entrar no fluxo heterogêneo daquilo que denominam e dizem ser: viver. Vivas, já que te é dado o fôlego, folega! Mas folega com leveza.

Caminhe de mãos dadas com o saber da tua morte, porque desta maneira te lembrarás de que tu não és nenhum deus. Ó, mito. Morrerá tão célere quanto um verme. Folega! Tu és o que pudeste ser. Não te é dado escolher ser livre. Não decidiste nascer, não podes sair de dentro de ti, foste confinado neste mundo, dentre outros milhares deles espalhados pelo vasto espaço misterioso. Sobre a tua morte: Continuar lendo

Schwarze Mühle

VAL - shapes (2011)

Moinho preto

Sendo mãe solteira e um filho nas costas, em meio a uma casa de pau a pique, chão de barro, no bairro Moinho Preto, Jussara e Matheus. Vinte e cinco anos, cinco anos. A avó de Matheus morava na casa de cima, como sói ser nesses casos, vide o famigerado Independência, onde, casa sobre casa, as pessoas entulham as montanhas que os entulham. Não se sabe o que foi feito do pai do menino Matheus. Antes mesmo de nascer, o pai já estava com outras companhias, de modo que a mãe também assim estava; ela sequer sabe quem é o pai do rapaz, há, no mínimo, cinco suspeitos. Sendo assim, é melhor arcar sozinha com as consequências, ela pensou, melhor do que ter dor de cabeça com o que devia ser mais simples. Os primeiros anos de Matheus foram um grande peso para ela, fraldas, remédios, pediatras, filas, choros e mais choros. Agora que eles passaram e Matheus já estava mais velhinho, tanto que já podia ir sozinho para a escola de ônibus, embora a avó sempre insistisse em ir junto com ele, Jussara podia trabalhar com mais, digamos, liberdade, tanto na casa dos outros quanto nas camas de outros. Clique aqui e veja como fica melhor.

Налюбуйтесь: Æria gloris

Alphonse Lamotte - La Fontaine des Innocents au XV (1878)

 

Foi no ano de 1845, 29 de junho, quando os primeiros dois mil e onze alemães subiram, com toda a licença do nosso antigo rei, mas não isentos de “pagar mil réis por cada braça de terra, e não menos”, a montanha sem nome e sem um caminho bem demarcado ainda; mostrava-os uma possibilidade de clima mais ameno em meio a esse inferno americano, que os fazia suar como nunca, por mais sombra que houvesse em suas caleches e leques e bocas apertadas, soprando frias a cabeça de seus filhos e filhas, que sequer queriam mais ficar abraçados a seus pais. Vencido o desafio germânico, subida a serra com sua magnífica vista de um calor do qual não sentiam a mínima falta, já era noite quando se estabeleceram minimamente. Assim, alegres de terem finalmente chegado, após terem desembarcado na sexta-feira 13 do mesmo mês pro Rio, sentindo-se todos em casa, as crianças construíram suas lanterninhas variegadas, correndo por todo o espaço a competir com as estrelas e a cantar a pequena quadra tão alto quanto podiam:

Ich gehe mit meiner Laterne
Und meine Laterne mit mir.
Da oben leuchten die Sterne;
Hier unten leuchten wir!

E embora cansados nesse domingo, não puderam os adultos deixar de se influenciar, abriram suas últimas cervejas, esquentaram sopas e salsichas, cantaram e dançaram igualmente, se esqueceram dos problemas que já amanhã teriam de enfrentar. Uma coisa, no entanto, foi decidida no dia seguinte bem cedo: o dia de ontem deveria ser lembrado, der Bauerntag, quando deveria ser realizada a Bauernfest.

E no ano de 2014, 29 de junho, domingo, autêntico dia do colono do que veio a se tornar Petrópolis. Não temos mais rei, mas ainda temos o príncipe, honorabilíssimo senhor descendente dos Bragança, residente na mansão cor de rosa, muros altos, um cachorro enorme que, às vezes, guarda a entrada da porta enorme, na rua Epitácio Pessoa, de frente a uma gentil praça e o museu imperial — óbvio que cidadão algum jamais viu o príncipe, senão em imposto. É nesse ano quando também comemoramos a festa do colono alemão no palácio de cristal, exato local onde a princesa, irmã distante daquele (que já esquecemos), quis construir seu salão de festas, por saber da festa germânica.

Alguns dias antes, os funcionários da prefeitura começaram a construção, no cercado do palácio, das barracas onde os vendedores poderão nos oferecer doces, salgados, sanduíches, cerveja, vinho suave e o típico salsichão, todos feitos de ouro. Com isso, a notícia rapidamente se espalha na boca do povo de que já é nesta sexta que começa a Bauernfest, ao mesmo tempo em que cartazes imensos são postos em locais estratégicos na cidade, como no letreiro do palácio.

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