Налюбуйтесь: Æria gloris

Alphonse Lamotte - La Fontaine des Innocents au XV (1878)

 

Foi no ano de 1845, 29 de junho, quando os primeiros dois mil e onze alemães subiram, com toda a licença do nosso antigo rei, mas não isentos de “pagar mil réis por cada braça de terra, e não menos”, a montanha sem nome e sem um caminho bem demarcado ainda; mostrava-os uma possibilidade de clima mais ameno em meio a esse inferno americano, que os fazia suar como nunca, por mais sombra que houvesse em suas caleches e leques e bocas apertadas, soprando frias a cabeça de seus filhos e filhas, que sequer queriam mais ficar abraçados a seus pais. Vencido o desafio germânico, subida a serra com sua magnífica vista de um calor do qual não sentiam a mínima falta, já era noite quando se estabeleceram minimamente. Assim, alegres de terem finalmente chegado, após terem desembarcado na sexta-feira 13 do mesmo mês pro Rio, sentindo-se todos em casa, as crianças construíram suas lanterninhas variegadas, correndo por todo o espaço a competir com as estrelas e a cantar a pequena quadra tão alto quanto podiam:

Ich gehe mit meiner Laterne
Und meine Laterne mit mir.
Da oben leuchten die Sterne;
Hier unten leuchten wir!

E embora cansados nesse domingo, não puderam os adultos deixar de se influenciar, abriram suas últimas cervejas, esquentaram sopas e salsichas, cantaram e dançaram igualmente, se esqueceram dos problemas que já amanhã teriam de enfrentar. Uma coisa, no entanto, foi decidida no dia seguinte bem cedo: o dia de ontem deveria ser lembrado, der Bauerntag, quando deveria ser realizada a Bauernfest.

E no ano de 2014, 29 de junho, domingo, autêntico dia do colono do que veio a se tornar Petrópolis. Não temos mais rei, mas ainda temos o príncipe, honorabilíssimo senhor descendente dos Bragança, residente na mansão cor de rosa, muros altos, um cachorro enorme que, às vezes, guarda a entrada da porta enorme, na rua Epitácio Pessoa, de frente a uma gentil praça e o museu imperial — óbvio que cidadão algum jamais viu o príncipe, senão em imposto. É nesse ano quando também comemoramos a festa do colono alemão no palácio de cristal, exato local onde a princesa, irmã distante daquele (que já esquecemos), quis construir seu salão de festas, por saber da festa germânica.

Alguns dias antes, os funcionários da prefeitura começaram a construção, no cercado do palácio, das barracas onde os vendedores poderão nos oferecer doces, salgados, sanduíches, cerveja, vinho suave e o típico salsichão, todos feitos de ouro. Com isso, a notícia rapidamente se espalha na boca do povo de que já é nesta sexta que começa a Bauernfest, ao mesmo tempo em que cartazes imensos são postos em locais estratégicos na cidade, como no letreiro do palácio.

Às sete horas da noite, o céu, finalmente, escureceu de vez; as pessoas começam a sair do trabalho, estão cansadas, mas têm em vista o grande festival para recompensar a canseira da rotina; guardas de trânsito já estão nas ruas em seus uniformes, apitando e movimentando as mãos para o interminável dessa maravilha de nunca-acabar de vidas dentro de carros, que não se cansam de aparecer, alguns dos quais sequer se lembravam que estava tendo “essa merda hoje” que “só serve pra atrapalhar o trânsito — como se já não bastasse essa copa!”. Mais interminável ainda eram as pessoas que tinham de atravessar a rua para o palácio, tendo de, por todos os lados, atravessar uma “ponte” sobre um rio, que só tem um filetezinho de água fedorenta, mas onde, diz-se, já se viu pousada uma imensa ave, vez por outra ela está ali; iam desde mendigos e pais com crianças até skatistas e padres com freiras. Vale notar que o legado daquelas crianças germânicas (hoje, reconhecíveis apelas pelo sobrenome, Müller, Lepsch, Dietz, Kappaun etc.) não foi totalmente esquecido pelo povo, apenas sofreu uma leve modificação: em vez de lanternas, cigarros.

Um dos que se manteve nessa tradição e estava a caminho do palácio era Henrique, vinte anos, cabelo curto, cara rapada, de feição agradável e um pouco mórbida, digna de quem não costuma a sair muito e é ávido leitor, vestido com calça e blusa de algodão grossas, gorro e cigarro na boca. Estava acompanhado de três outros rapazes, estudantes de medicina, bastante afortunados: Rodrigo, vestido com mais garbo que Henrique, blusa de couro, calça jeans (como os outros dois), com uma cara estranhamente rechonchuda não obstante fosse magro e até de boa estatura, olhos à la orientais só que mais abertos, estava toda hora rindo de tudo embora pudesse e falasse sério constantemente também; Vitor, de estatura mais forte, cabelo curtinho com topete, lábio superior fino e inferior grosso, vestido bizarramente com uma blusa jeans e calça jeans mais escura, era mais sério, e ria mais escandaloso que todos; o último, cujo nome não colocamos completo, mas é exatamente assim, podendo cada um chamá-lo como quisesse, era Vinícius Tarik Caetano Menze, de cabelo um pouco grande e encaracolado, de rosto e barriga rechonchudas, mas sem grande exagero, ainda que os lábios fosse algo de exageradamente grossos, falava mais que todos e sempre ria engasgado, vestido com uma blusa preta espessa em cujas bordas do capuz havia peliça. Um exagero de garbo realmente.

Por cada um querer ficar do lado do outro em meio a uma calçada um pouco estreita para tamanho fluxo de gente que ia e vinha, acabavam toda hora se acotovelando e dando passagem para quem andava mais rápido e quem estava na direção contrária. Estavam chegando no palácio, estavam de frente a uma casa que tinha a estátua de uma nega baiana com lábios vermelhos carnudos e olhos enormes, e cabeça apoiada na palma esquerda, toda colorida na varanda de uma casa totalmente branca.

— Mas vocês não sabem da maior! — tagarelava outra história Menze — Sabe aquela Luciana, go-o-orda que machuca o chão? Sim, isso mesmo, a pior CR da sala. Então, estava dirigindo lá na Baixada, sozinho, infelizmente! sozinho com um cena dessas! Numa curva, passando por aquele parquinho onde também ficam os velhos se exercitando com aquelas máquinas verdes. Não é bem máquina, são aparelhos, né? Então, no meio daquele monte de velhos, eu consegui ver essa fera da Luciana lá no meio dos velhos, usando aquele aparelho de caminhar! Hah hah! Ela estava com uma cara horrível, se matando de tanto andar, com passinhos rapidinhos, feito um ratinho! Hah hah hah! Não aguentei, tive que parar o carro na calçada e ir pra lá correndo, escondido pra que ela não me visse, e tirei uma porrada de fotos. Pera aí, pera aí, olha aqui ó! Pó, não sei por que não me veio na cabeça na hora gravar ela daquele jeito! Tá vendo? Olha só, olha só! Hah hah! Acho que não gravei porque eu tive a impressão de que uma viatura estava chegando, e eu tinha parado debaixo de uma placa de “proibido estacionar e para”. Pois é, desde que o Riquinho aí fez queixa na CPtrans só por causa da rua onde mora! Sua culpa!

— Ah, para de ficar chorando, que daqui a pouco tua cara fica de cu que nem a dessa Lucíola ou sei lá como se chama — falou o Henrique rindo.

— É Luciana! — gritou Tarik.

— Que Lucíola! Hah hah! — ria Rodrigo e Vitor.

— Tá, tá, que seja — falou rindo Henrique, apoiando-se no parapeito da “ponte” e olhando para baixo.

— Morre não, hein! — falou Vitor, empurrando Henrique enquanto segurava sua blusa.

— O-o! Que susto, porra, se fuder! — falou Henrique, empurrando-o também para a rua.

Todos riam quando entraram por um dos dois portões do palácio, pisando naquele chão cheio de pedregulhos que fazia escorregar um pouco hora ou outra. No momento, passou um trenzinho com um monte de pessoas gritando e acenando de seus assentos. Henrique se virou para eles e começou a acenar e gritar, o que fez com que os outros três fizesse o mesmo, havendo ainda tempo de Vinícius gritar “Eh viado!”, mas ninguém de lá o ouviu.

Voltaram-se para o palácio. No centro do jardim, há uma espécie de aleia com dois chafarizes ao lado que espirram água bem alto, ao lado de um deles um enorme copão de cerveja como uma bexiga, ao redor dos quais há quem tire fotos ou se sente em roda. Também ao redor estava as barracas de madeira com telhado pontiagudo, ao estilo dos colonos, que se estendiam ao logo de toda a grade, exceto atrás do palácio, onde ficavam os banheiros e o pessoal da limpeza em seus uniformes verdes. Não havia barraca que não tivesse fila e, em seus balcões, pessoas comendo ou pegando a comida que pediram. É de se notar que a maioria esmagadora é de jovens, desde negros com bermuda branca, camisa do flamengo e boné quase saindo da cabeça raspada, até casais de treze ou catorze anos de mãos dadas. Havia uma música muito alta tocando de dentro do palácio, mas, de onde estavam, não dava para ver muito bem o que quer que fosse. Além do quê, uma moça meio nariguda, estranha, a miss Bauernfest, tirava foto com todos toda cheia de gala. Destacavam-se também moças e rapazes vestidos de preto e branco, estes com uma camisa branca e short-macacão preto, de bochechas rosadas de extenuados (com exceção dos poucos negros), aquelas, outrossim, da metade pra baixo do vestido era preto, subindo com duas tiras pretas sobre uma parte branca, com um rabo de cavalo muito bem puxado para trás, ao estilo das bailarinas. Segundo parece, estão nessas roupas desde nova da manhã, pois desfilaram da catedral são Pedro de Alcântara até o palácio, o que dá mais ou menos quinhentos metros, e demoraram muito, mas muito mais do que se demoraria caminhando, ainda que sem pressa; uma menina linda que conheci numa barraca ao lado do palco me disse que foram cerca de três horas de desfile, uma vez que almoçou logo após o fim do desfile. Aliás, graciosíssima essa garota, não devia ter mais que quinze anos! (Será pedofilia? Arre, se qualquer coisa, pederastia do século XXI! É mais pedagógico até).

Enquanto os quatro andavam pelo terreiro do palácio, procuravam por algum rosto conhecido ou serem encontrados por algum. Assim, olhando de um lado pro outro, divisavam os funcionários das barracas, alguns suados e queimados de tanto fritar, gritando “Calma que já vai sair! Vixi, ainda tá congelado moço, vai demorar pra fritar! Todos os refrigerantes estão quentes — não, não estamos aceitando cartão! Sei lá a razão, deu problema, mas amanhã vai ter sim!” e assim por diante. Era, praticamente, impossível de andar livremente, havia um sim fim de gente no meio do caminho conversando, comendo, se beijando, gargalhando, tirando foto, mexendo no celular; de modo que nenhum dos quatro conseguiam passar sem esbarrar: Henrique evitava o choque através de contorções dignas de circo, berrando “Desculpa!” quando ocorria; Rodrigo desviava um pouco, por vezes seus braços deslizavam pela bunda de homens e mulheres; Vitor desviava mais, mas fazia ombro duro sempre, quem esbarrasse nele que se cuidasse; Caetano, no entanto, andava com as asas abertas, não só por causa de sua condição adiposa, mas por uma presunção qualquer. Talvez valha a pena dizer algo sobre a condição financeira de cada um: Henrique nasceu em Petrópolis numa família classe média, pai advogado, mãe vendedora de jequiti e avon, morava no centro apesar dos apertos, fazia faculdade no Rio; os três outros são estudantes de medicina, como já foi dito: Rodrigo vinha do Rio, morava na Barra e tinha uma condição financeira um pouco melhor que a de Henrique, embora os pais suem muito para pagar a mensalidade de seis mil reais, a mãe é assistente social, o pai, dentista; Vitor e Menze eram filhos de fazendeiros, aquele do interior de São Paulo, este de Curitiba, disseram algo sobre estarem enriquecendo cada vez mais com a soja, embora, diga-se de passagem, não vá ser uma riqueza duradoura, em breve o solo estará totalmente destruído.

— É melhor se a gente sair aqui, não é, não? — falou Vitor, apontando com a cabeça o portão principal, que leva para onde tem as mesas, mais barracas e, virando pra esquerda, lá na frente da fábrica da Bohemia, um palco consideravelmente grande onde aqueles jovens dançam.

Vinícius e Rodrigo o seguiram. Henrique, por sua vez, fixou o olhar naquela aleia, fixamente na entrada do palácio de cristal, origem daquela música alta e de pessoas entrando e saindo e ficando por lá. Como que atraído por aquela agitação, ele se dirigia lentamente para lá, com olhos e bocas arregaladas, estas sorrindo, aqueles sem piscar, e a mão direita fazia movimentos pequenos e convulsivos em sincronia com a música, que cada vez mais se revelava cantada por homens necessariamente gordos, com gordura nas cordas vocais e nos pulsos, mas sem nenhuma nas pernas! “Será? será possível? — pensava, por vezes murmurando — Então ainda existe como? Um caminho ainda pode se revelar disso tudo? Ou ele já está revelado? Ou ele está na minha frente e eu, eu que nunca dei o passo adiante? Hah hah! Avante! avante!…” — neste ponto, ele acabou por gritar e pular felizmente, correndo para aquela imensidão de música, sem olhos para quem quer que fosse, pulou os degraus e logo estava dentro, e abria caminho entre os espectadores, já sem pedir qualquer desculpa que fosse.

Havia um estrado de madeira, no máximo, uns trinta centímetros acima do chão só, a que mal poderia se chamar “palco” de fato. Sobre ele, estavam homens, vestidos exatamente como os rapazes dançarinos, gordos, com bigode bem à la Nietzsche, embora um pouco menor e menos inteligente, com uma vermelhidão nos rostos que denunciava alguma embriaguez. Não deviam ser mais de dez: dois cantavam e tocavam trompete, outro na guitarra elétrica, que, por vezes, cantava também, um atrás deste na tuba, um na bateria e talvez tivesse um no teclado. Em frente ao palco, além das pessoas comuns dançando, girando coladas a alguém, havia duas figuras curiosíssimas: um homem e uma mulher, em idade um pouco avançada, dançando sobre pernas de pau imensas, com sorrisos estampados e, às vezes, se desligavam um do outro e se viravam pros espectadores com uma pequena cesta de fio trançado, talvez de vime, e jogavam com um berro de alegria confetes na gente até que acabasse. Henrique assistia isso tudo com espasmos de admiração na fauce — e, afinal, percebeu que tal êxtase seria capaz de tornar qualquer cheiro deletério, qualquer grito em seu ouvido, qualquer espirro anti-hipocondríaco não em comum nem suportável, mas como parte do próprio espetáculo, onde também participava e atuava (aliás, bastante). “Sem isso, de que valeria a música?! Coroem-me fezes e escarros — não rosas!”, pensava. Até que o interrompeu o pensamento uns tapinhas no ombro.

— Henrique! Nem acredito que achei você aqui!

— Alessandra!

— Vem, vamos lá, o pessoal está todo aqui, estão sentados lá fora!

— Ei, mas antes… — estendeu a mão direita para ela.

— Hã, o quê? — e, instintivamente, levantou sua mão esquerda a ele, que a segurou bem forte e puxou para frente, mal dando tempo a ela de pensar direito, e começaram a rir enquanto giravam dançando com as outras pessoas, por vezes esbarrando nelas, corpos bem juntos, Henrique puxando e ela cedendo, sentia o frio das mãos dela começando a suar — Hah hah hah! Chega, chega, seu bobo! — e saíram de dentro do palácio de cristal. — O que deu em você agora, hein?

— Ué, por quê?

— Você, geralmente, é todo na sua. Será que você está virando homenzinho?

— Hah hah, você também não é lá tão solta, e, ainda assim, nunca te vi dançando assim.

— Você que me forçou; eu não sabia de nada.

— Forcei nada! Você que me deu a mão.

— Ai, Henrique! Você estraga tudo, cara!… Mas, e aí, já tomou alguma coisa hoje?

— Não, ainda não.

— Vamos, então, que o pessoal está todo lá!

Saíram pelo mesmo portão que os três rapazes antes. Em poucas linhas, Alessandra era uma garota de rosto agradável, bastante espontânea e de visão muito ampliada, o que fazia algo mais em seu charme. Chegando na mesa, não encontraram um “pessoal”, somente os três rapazes e mais uma garota que conversava com eles, todos bebiam chope.

— Ué, Henrique, tu estava onde, ué? — perguntou Vitor, rindo e se inclinando pra frente na mesa. — Por um segundo eu pensei que você estava com a gente, ué!

— Estava transando naqueles banheiros, é? — perguntou cuspidamente Menze.

— Só se estivesse dando prum negão!! — falou a garota na mesa, que fez rir pantagruelicamente Menze, ela própria e Rodrigo, que já parecia ter bebido mais que todos.

— Engraçada, Aline! — respondeu Henrique, rindo mais da risada deles do que da piada — Mas, ainda que eu quisesse isso, é impossível nesses banheiros. Fora que, de todos aqui, só você deu o cu.

— Isso mesmo! E não vá sentir inveja de mim! Vem, bem, se senta aqui do meu lado, Riquinho! Alessandra, chama esse cara aí e pede mais três chopes. Você vai beber, né, Riquinho?

— Vou, vou sim, se é pra ficar do seu lado, né?

— Hah hah, mandou bem, Rique! — gritou Vinícius.

— E é pra ficar mesmo do meu lado! Pega um cigarro, tradicionalista.

— Hã? Ah, sim, ainda nessa história? Ora, me orgulho de estar continuando a tradição das lanternas…

— “Pena que não se pode mais ver as estrelas, como antigamente com certeza dava”, falei certinho?

— Mais ou menos, pegou direito a ideia. Ah, valeu, Alessandra! — ela chegou com os chopes.

— Pô, é um roubo essa merda! Seis e cinquenta, vê se pode! — gritou o Rodrigo.

— Então, você devia beber menos — replicou Vitor.

— Eu não! Se eu estou guardando dinheiro, é pra gastar aqui agora! Fora que, poxa vida, né?, nada melhor que beber com os parceiros! — falou sentimental.

Todos levantaram as taças e brindaram. Aliás, Aline é uma figura interessante: de uma beleza extraordinária, cabelos negros, lisos e frondosos, magricela mas encorpada, de temperamento forte, muito e extremamente espontânea, óbvio que não como Alessandra, mas tal que se tornava desbocada, talvez imitasse aquela modinha de “fêmea fatale”, embora esteja mais inclinado a pensar que fosse próprio dela essa atitude, nada de Bovarys ou Míchkins quixotescos.

— Ai, ai… — suspirou ela — vai entender como suporto vocês! Vai entender…

— Por quê?! — houve agitação geral.

“Ai, ela já vai começar?”, pensou Alessandra, até feliz e na expectativa de confusão.

— Por um lado, vocês são todos machistas; por outro, a única que deveria me entender e me dar apoio é e será não mais que uma típica dona de casa que vai se contentar com pouco.

— Aah… sim — meneou a cabeça Henrique e tomou um longo gole do chope.

— Machista? Dona de casa? Tu tá doida? — perguntou Caetano com uma careta de nojo. À sua direita, Rodrigo ria da situação toda; à sua esquerda, Vitor franzia o cenho.

— E você não só vai ser como já é o pior de todos, Tarik!

— Fala logo o que a gente falou que secou a sua buceta, porra! — retrucou secamente Vitor. Todos, exceto Aline, explodiram e encheram o chope de cada um de saliva, tão forte riram.

— Ca-ra-lho! — gritou Rodrigo — E aí, o que foi machista, hein?

— “Beber com os parceiros”, faça-me o favor, né, Rique? Em meio a mulheres, você também deve nos incluir…

— Ah, não creio… — entabulou Henrique, cobrindo o rosto com as mãos — (E nem foi eu quem falou! — sussurrou, rindo).

— … ou então falar como indeterminado…

— Meu Deus, ela vai soltar a bomba! — apertou os olhos e tapou os ouvidos. A essa altura, todos sabiam do que se tratava. Rodrigo abria a boca e os olhos; Vitor virava os olhos pro cérebro; Menze virou a cabeça pros céus e começou a orar pra sua madre Teresa de Qual-cu-dá; Alessandra ria gostosamente.

— É parceirxs, porra! — gritou Aline.

Nesse momento, em algum rincão do universo, numa galáxia roxa e preta, longínqua, em sua total harmonia instintiva de ser o que se é em verdadeira sapietude, sentiu-se que planetas entravam em colapso, estrelas explodiam em buracos negros que trincaram o cosmos até onde seu fim não chegava — e, ao lado da mesa deles, um vira-lata soltou um pum alto, para o qual rapidamente se virou, assustado, e cheirou.

— Ai meu cu com hemorroidas! — gritou Vitor.

— Ai meu pau sifilítico!! — gritou Tarik.

— Ai, ai, ai, ai, ai!!! — se esbaldou Rodrigo.

— Juro que mais um tsunami acabou de inundar algum país da Ásia! E é sua culpa! — gritou Henrique.

Com isso, vale notar que essa era a verdadeira Aline: uma feminista radicalista, com grandes ideias de revolução, muito politizada. Mas, a meu ver, apenas uma daquelas pessoas que Turguêniev chamou de “лишний”, isto é, “supérfluo”. Assim, começava-se um verdadeiro jogo em que sua sinceridade se afiava mais do que nunca.

— Ora, o que é isso? — falou Aline com um risinho no canto da boca e se aprumando no banco. — É só assim que vocês conseguem me responder? Tudo bem que estamos no meio de um festival e que queremos relaxar; mas será que aqui também não pode ter sinceridade? A cerva ajudará! — virando-se para o Henrique — Usem a língua como se estivessem beijando, hah hah!

— Eu vou só ouvir! — berrou com voz aguda Rodrigo.

— Eu também! Hah hah! — seguiu-o Caetano, imitando sua voz.

— Também vou. — afirmou Vitor mais seriamente — Mas pode ser que eu fale alguma coisa.

Todos os olhares caíram sobre Henrique e Alessandra, que se entreolhavam repletos de sofrimento e graça, como se olheiras surgissem de repente em seus olhos.

— Tá, tá… tá bom — falou Henrique — Diga, então, primeiro.

— Quem, eu? Ah, tá bom então. Bem, nós temos que partir primeiro do fato de que nossa sociedade, por milênios a fio, foi vítima terrível do machismo, que se estendeu em, praticamente, todos os níveis da sociedade: o político, o moral e ético, o religioso, o filosófico, o artístico e, por fim, o gramatical. Na verdade, eu até acrescentaria o econômico, hah hah! E é desse modo que sempre foi: poderia haver milhões de substantivos femininos, com apenas um masculino tudo fica neste gênero! Não riam, não riam! Pois é de coisas assim pequenas que as ideias de todos os tipos se tornam predominantes e vencedoras. Foi só porque alguém pensou diferente que as coisas se tornaram diferentes! Só porque agiu diferente, influenciando várixs com suas ações. E eu não estou falando de nada abstrato, quer dizer, tudo, tudo isso é extremamente vivo! Passem a qualquer hora em qualquer rua que vocês saberão que estou dizendo a verdade… se não for ouvindo outras pessoas, ainda que sejam mulheres! (Não acabei de dar o exemplo dessa aqui? — apontou pra Alessandra) Então, e, se não for em outra pessoa qualquer, com certeza será em vocês mesmxs, em cada pensamento, em cada olhar, comecem a se observarem melhor! Toda vez que vocês torcem o pescoço por causa de uma mulher, vocês já estão se provando cada vez mais e mais culpados! Sim, sim, é exatamente isso. “Nossa, que bunda gostosa! Porra, que cu gostoso! Me esbaldava naqueles peito tudo!” — Se vocês dormem tranquilamento tendo consciência de como essas coisas são terríveis e degradantes para uma mulher, então vocês são terríveis, o que são na verdade, porque é impossível não se saber que isso é ridículo! Mas não pensem, poxa vida, que só vocês são culpados, justamente porque o certo é “culpadxs”! todas essas mulheres que clamam essa liberdade que sequer os homens têm, usando roupas que não são roupas, roupas que clamam e clamam pra que alguém as toque — sim, sim, porque tudo o que nos toca, seja emocionalmente ou fisicamente mesmo, clama que seja tocado; e toda essa ideia de “Não merecemos ser estupradas” se torna risível até para mim! — porque tudo isso são liberdades mal usadas, não digo libertinagem em respeito a Sade (aquilo é grandioso!), mas digo liberdade mal usada justamente porque era o que tinha que acontecer mesmo, não souberam o o quê e o como fazer e acabaram confundindo tudo! São escravas da senzala chamada ordem e nada mais! Vejam, também, como que Deus é uma ideia errada por ter sido criado, produzido só por homens! Fosse uma ideia de Adão e Eva, então Deus não expulsaria eles de paraíso algum! E não me venham com madames Blavatskys, que elas todas são nojentas! Enfim…

Todos estavam atônitos e a olhavam surpresos. Sua eloquência sempre fora extraordinária; e, com tranquilidade, ela tomava um gole de seu chope.

— Bravo! — gritou Vinícius — Um brinde! — levantaram os copos e beberam.

— Hah hah! — começou Henrique — De fato, há muita verdade nesse seu discurso, sabe? Talvez mais da metade ou talvez bem mais! Você fala que nem político… é, é verdade, o seu discurso é extremamente ou completamente político, e digo isso até pelos gestos que você fez durante o discurso! Seca, direta e firme, lembra até os discursos de Hitler de certa forma… O quê?! Ora, não me faça essa cara! Por acaso é só em você que pode haver sinceridade? Vamos, avante! Aguenta firme, senão é o seu discurso inteiro que vai ceder, e ele vai cair só em cima de você. E, de fato, não é assim? ora essa, me responda: não é mais fácil cortar cem milhões de cabeças que salvar o mundo com propaganda?

— Ui, que tiro certeiro… — murmurou Alessandra.

— Hah hah, não, não precisa me responder, não! É óbvio que é mais fácil cortar as cabeças… Pois é a partir dos pequenos atos que a gente percebe o que é dominante, né? Logo no início de sua fala, quando você sequer estava tão inflamada, quer dizer, no auge de sua fala, foi aí no início que eu catei uma palavrinha que você usou: “vítima” ao invés de “vítimx” — e arrotou ao fazer esse “x” — Ops, perdão, mas bem que veio a propósito, né? Hah hah! Enfim, “vítima” em vez de “vítimx” (sem arrotar, que tal?), você falou esse substantivo feminino ao invés de seu correspondente “neutro e revolucionário”, como você quer que seja. Pois saiba que é já aí onde eu vejo a primeira e talvez maior falha de sua fala: você atribui aí toda a sua compaixão, toda a sua piedade e pena para o seu próprio sexo. É como se você soubesse o quão fraca você é e concordasse com tudo aquilo que você quis destruir. Começou logo justificando o sexo frágil, se vitimizando, mais ou menos como o gol contra na copa! Sim, o primeiro gol só podia ser contra o Brasil mesmo porque tudo isso foi contra nós, sempre fomos as vítimas dos outros e de nós mesmos! Por isso que você mesma se atrapalhou logo de início e construiu seus argumentos em cima de absolutamente nada. Toda a sua ideia de paz e revolução é fachada, é propaganda, é aquela… “revolução” pelos vinte e cinco centavos. Cem mil milhões de bilhões de pessoas na rua, e bastava estourar uma bombinha de criança pra que se dispersassem feito… feito… sardinhas! É esse o nome, eu acho. E, no fim, a passagem aumentou mais ainda agora! “O gigante acordou” foi de pau duro e gozou em todos! gozou de todos! e sequer foi escovar os dentes, voltou a dormir em seu caixão! Hah hah! Não vá morrer, hein, Aline! Mas, falemos sério, quantas e quantas vezes eu já não te fiz rir, zombando de mulheres gordas? “Cacete, eu não posso rir disso! Para!”, não é assim? E isso deve te deixar tão irritada, né? Todo esse seu discurso combina contigo, é mais que possível fazer um retrato falado perfeito seu a partir dele, mas não passa disso, é só isso. Aliás, eu não sinto a menor culpa. Olho pra bunda de vocês, bundas lindas!, e vou dormir feito um anjinho pelado! Hah hah! Ai, não me bate! Hah hah! Um brinde!

Levantaram os copos e beberam felizes como sangue.

— Tudo bem que assim seja — respondeu Aline —, tudo bem que esse meu deslize seja muito comprometedor etc. etc., só que nada disso tira o sentido da luta!

— Uma argonauta da revolução! — bradou Vitor, levantando seu copo.

— Pode ser que não tire, Aline — falou, rindo brandamente, Alessandra —, eu realmente queria que fosse assim, e eu concordo com o que você falou sobre as roupas das mulheres…

— Sim! Há toda uma estética linda aí! — gritou Henrique.

— … só acho que o que você quer é mais um ideal do que algo real. Não sei, mas é o que me parece… uma ideia ótima, mas só uma ideia. Um unicórnio também é uma ideia — isso causou um riso imenso dos garotos, alguns até aplaudiram — É que… poxa… a ideia em si… sim, é boa, tem a ver alguma coisa com a realidade, mas constatar isso é uma coisa, realizar é outra. O povo não quer saber disso, o povo quer relaxar com novelas… com esse discurso, quase ninguém vai te ouvir. Por isso, não concordo que seu discurso se pareça tanto assim com o de Hitler…

— Só que isso aí — falou Rodrigo e arqueou o corpo para frente com seu chope na mão — isso aí só se ela quiser, né, que… que… se ela quiser mudar o povo, ou se ela… quer se mudar, ou sei lá o quê.

— Bem, isso é verdade — falou Henrique seriamente — Afinal, o que você quer com isso tudo? “Pequenas ações que mudam tudo, e isso a história mostra”, não foi o que você falou? Mas que “pequenas ações” são essas? Até onde eu sei, as verdadeiras mudanças decisivas da história não ocorreram sem sangue.

— Ora, mas ter a ideia… — falou Aline.

— Por isso, — cortou Henrique — acho que concordo com a Alessandra: teu discurso não tem nada de Hitler. Ao menos, eles derramaram sangue por seus ideias.

— Isso já é absurdo! — gritou com toda força Aline, dando um soco na mesa — Você está realmente incentivando a guerra?!

— Não é lá muito diferente do que você quer incentivar — falou Henrique com riso zombeteiro, fitando-a.

— Não é possível que você pense isso mesmo!

— Bem, eu estou te ouvindo. Hah hah!

— Eu não quero fazer guerra alguma de nenhum tipo. Você faz parecer algo ruim eu não ter semelhanças com a oratória de Hitler, saiba você que não há do que sentir vergonha! Ainda bem que vocês perceberam as diferenças! Não falei nada, porque eu queria ver se vocês se davam conta do absurdo disso. E, cacete!, é óbvio que o que eu falo não é só pra mim, senão nem estaríamos conversando aqui agora. Mas eu não quero subir em palanque nenhum e ficar falando com as paredes. Pra isso, existe a internet, onde eu posso conversa de igual pra igual com todos.

— Aposto que você já teria me bloqueado se estivéssemos nesse “igual pra igual” — falou Henrique ainda mais zombeteiro.

— Eu não faria isso.

— Mas — falou timidamente Alessandra — mas acho que é uma… é… uma tentação realmente muito grande: conversar por um lugar que você pode simplesmente desconectar uma relação com um clique. Não sei, mas também penso como o Henrique, eu acho.

— É verdade, mas eu não faria isso! E vocês dois parecem menosprezar demais a capacidade da internet… a gama de possibilidades é muito maior que aqui, posso conversar com mais de cinco pessoas ao mesmo tempo, ouvindo música e lendo um livro. Fora que essa “revolução dos vinte e cinco centavos” foi toda organizada por lá.

— Pior pra vocês! — falou Henrique — Assim a polícia já podia enjaular vocês todos antes mesmo de vocês estarem lá! E, aliás, que grande “revolução”, né? Os anarquistas e socialistas de sofá saíram de suas casas com seus aparelhos e foram combater a política com fotos! Hah hah hah! A Revolução das Fotos! Isso sim devia entrar pra história: a revolução dos fracos e oprimidos feita de forma fraca e reprimida! Hah hah! De fato, essas suas ideias são um unicórnio! Vou te dar um my little pony de aniversário, tá?

— Sai, não encosta em mim! — falou Aline rispidamente, dando um tapa na mão de Henrique que vinha afagar-lhe as faces — Tua fala é que se parece com a de Hitler, prega tanto um sacrifício da parte dos outros que nem você estaria disposto a fazer ele. Já que você vê tão bem esse monte de falha nos movimentos populares, por que você não tomou uma posição? Por que não estava lá na frente e recebeu o primeiro tiro? Assim, todos iam ficar mais revoltados e talvez não teriam mais medo de morrer.

— Você confundiu tudo agora… — murmurou Alessandra.

— Ué, eu já tenho a minha posição! Eu já estou nela há muito tempo! — falou Henrique — É você quem está de panfletagem, tentando forçar os outros a mudar. Eu, por mim, estou apenas te respondendo, apenas te mostrando o que eu acho. Não mais que isso! Toma cuidado, hein, senão daqui a pouco o teu feminismo vai estar tentando achar motivos até mesmo para defender a Dilma: “Hoje, nós temos a menor taxa de desemprego há décadas, a economia avança, a inflação regride, o cidadão brasileiro tem mais condições de compra, o pré-sal, royalties, obras, bolsas, Kipling, Calvin Klein!”

A mesa toda se acabou de rir, de modo que Rodrigo massageava as bochechas para parar de machucar e Vinícius alisava a barriga. Até Aline não resistiu.

— Mas, Henrique — falou Vitor—, então quer dizer que você não apoia as lutas em favor das minorias? Quer dizer, tudo o que a Aline quis e quer fazer é garantir a autonomia de um estamento com nem metade dos privilégios que os ricos e chefões têm.

— Sim, eu entendi que ela quer isso. Eu até fico feliz que hajam pessoas diferentes de mim, eu realmente me alegro em ver a Aline assim. Eu próprio não gozo desses direitos dos ricos nem nada, mas sigo minha vida, tomando no cu todo dia. Mas, não sei, é que a minha luta não é essa, ela é diferente, está em outro nível apenas. A minha é totalmente egoísta: eu quero me mudar. Óbvio que a partir desse tipo de conversa (veja só que linda! Ninguém sequer mexeu no celular nesse ínterim!), são dessas conversas que eu quero tirar as verdadeiras mudanças para mim e os outros. Fora que se não posso criar leis para mim, como posso querer criar pros outros? Um brinde!

Todos levantaram os copos, e, antes de brindarem, Aline gritou:

— E eu não concordo! Saúde! — e riram e riram.

A noite ficava mais gelada e o festival, com cada vez menos pessoas. Em geral, ficaram apenas os jovens e alguns poucos adultos. No instante em que parecia que o grupo se iniciaria nalgum novo tópico, ouviu-se na mesa logo atrás, em frente ao portão, uma garota em prováveis dezenove anos, abrindo alas entre as cadeiras de modo extremamente rude (“E-e-eta!” — gritou Henrique, que estava de frente para a cena, chamando a atenção do grupo). Era morena, de cabelo de um loiro oxigenado, vestida com calça legue preta e branca, marcando todas as grandes e bem talhadas curvas de suas pernas, desde o princípio de sua púbis e o meio de suas bundas até o tornozelo fino, e com uma blusa fina, igualmente bem colada ao corpo, desde o princípio de sua traqueia e suas bundas de cima até a cintura, por vezes deixando aparecer um pouco da barriga e dos pelos que prenunciam o “local da vergonha”, para manter o ar germânico. Além disso, não sei se por raiva ou de nascença, tinha uma boca de lábio inferior grosso e avantajado, de modo que denunciava nela a mais pura favela.

— E aí, porra! — empurrou um rapaz magricela e menor que ela — O que é que tu vai fazer agora?! Me bater, é?! Bate, seu viadinho! Bate, vai! Ué, cadê a coragem?

— Que isso, garota?! — gritou espantado e recuando — Eu nem te conheço, sai fora!

Nisso, a briga continuou até que a menina saiu de perto, abrindo alas pelas cadeiras, e ficou enfrentando o portão, avantajando ainda mais a boca e bufando, até que começou a rir histericamente. É que do outro lado do portão, um homem acabara de desferir um soco contra um outro; este desviou, pegou-o pelo pescoço, levantou e o jogou no chão, imediatamente imobilizando ele pelo pescoço; de modo que o imobilizado ficava com o rosto mais e mais vermelho, mais de raiva que falta de ar. Um dos seguranças tirou o rapaz do chão com um mata-leão, enquanto os outros chamavam a polícia e pediam para que o imobilizador os acompanhasse para prestar ocorrência, o que ele não quis fazer, pois estava com amigos e não queria estragar a noite.

— Aqui, ô seu polícia! Aquele rapaz ali tentou chegar ni mim, aí eu não quis e ele passou a mãozona nos meus peito e saiu correndo. Quando encontrei ele, ele ficou todo cheio de meda. Vocês podem fazer algo ou eu vou ter que espancar aquele troço ali? — falou berrando a menina beiçola. Ouvindo isto, apareceu o rapaz:

— É mentira, seu policial. Eu nunca nem vi essa garota na minha vida! Ela está me confundindo ou está bêbada, sei lá!

— Confusa e bêbada é a puta da tua mãe, ô palha seca! — e o empurrou no peito.

Os seguranças, com uma cara tranquila de quem não se importa, pegaram a garota, que se debatia e grunhia, e perguntaram ao rapaz se queria prestar queixa, o que este também não quis, já com um sorriso bobo e aliviado.

— Aí, acho que essa é a nossa saideira — falou Rodrigo, se virando para o grupo.

Bebendo os últimos goles do chope, todos se levantaram em anuência, pediram a conta e pagaram. Na volta, pelo mesmo caminho da ponte e casa da estátua da mulher baiana, que, aliás, possuía algumas boas semelhanças com a menina autuada. Pouco antes da catedral, na rua do posto com o mc donald’s (ou rua treze de maio), aquele fechado, este fechando, um grupo de moças e rapazes discutia qualquer coisa, até que todos, menos dois, chutaram os cones do drive-thru e tiveram a “ideia genial” de passá-lo sem carro. Dois seguranças, vendo tudo na surdina, saíram da sombra que as luzes elétricas e a luz faziam e encurralaram o grupo do modo mais óbvio possível.

— Nossa, hein, esses amigos de vocês são bem retardados! — gritou Aline para os dois rapazes que se afastavam do posto.

— É tudo culpa do ruivo, esse maluco — falou um deles, de cabelo comprido e boné.

— Tomara que apanhem dos seguranças, otários! — falou o outro, cabelo raspado e boné — Nem fazem as coisas direito! Ao invés de esperar o mc donald’s fechar!

— Talvez queiram ser pegos. — falou Tarik — Essas coisas aí de “vida louca” e tal. Só querem ter experiências de vida pra contarem amanhã com orgulho e graça.

— Nossa, hein, godim — virou-se Aline para ele —, quem diria que você também pode pensar coisas assim.

— Hah hah, é, né? — respondeu.

— Aline se acha muito especial — alfinetou Henrique; nesse ponto, eles já tinham se separado dos dois rapazes.

— E é isso mesmo; sem choros, Riquezinho! — estavam atravessando uma rua e seguiam na direção do centro de cultura.

— Se querem saber minha opinião… — falou Caetano, levantou a mão direita em punho e a abaixou, como se soasse o apito de algum trem, de modo que ele era o trem e o apito, o seu ânus, para o ônus de todos os outros, que o xingaram e empurraram, agradecendo, sem falar nada, haver vento, o que não impediu alguns de abanar a mão na frente do nariz.

Atravessando mais duas ou três faixas, caminharam pela reta via da rua do imperador, que, por ocasião dessa noite, e todas as outras, tinha, nos dois lados, separados por um corregozinho que já fora mais fedido, uma das faixas ocupadas por carros impertinentes, pela falta de policiamento devido, exatamente do que tinha reclamado Henrique, e também uma ou duas drogarias abertas. Viraram à direita na paulo barbosa, onde Rodrigo, Vinícius e Vitor pegaram seus ônibus. Henrique pegou na antiga rodoviária (que ainda chamam de rodoviária). Alessandra e Aline pegaram os seus na praça do skate (ou praça duque de caxias), tendo de ficar sentadas até que chegasse. Enquanto estavam todos juntos, houve poucas conversas, estavam cansados e bêbados, principalmente Rodrigo. No entanto, como bons conhecedores de mulheres, sabemos que elas tinham muito o que conversar a sós.

— Por que você não se declara logo pro Henrique? — começou Aline.

— Você não vai acreditar: ele bem dançou comigo hoje!

— Dançou?! Onde, que eu não vi isso?!

— No palácio; foi onde eu encontrei ele.

— E aí?

— Não sei por que eu pedi pra ele parar… não dava pra pensar direito, foi tudo muito rápido!

— Dançaram bem coladinhos? — lançou seu sorrisinho irônico.

— Er… sim, sim… ele me puxava… e eu deixei, né? — soltou uma risadinha.

— Hah hah, eu sei, eu sei be-e-em como é! Namorei ele dois anos, esqueceu?! Sei bem o que está te esperando!

— Ai, amiga! Não sei, sabe? Tive a impressão que ele poderia ter feito aquilo com qualquer outra. Ele parecia fora de si naquela hora.

— E daí?! O que importa é que foi contigo e pronto. Lógico que ele faria isso com qualquer outra, tenho muita certeza. É homem, amiga, homem é assim mesmo. Esqueça seus sonhos de príncipe encantado e abre as penas! Hah hah! — a título de informação, “penas” é uma forma sincopada que elas criaram de “pernas”.

— Falando em penas, hein… Hah hah!

— Sentiu?!

— Sim, sim, ele se excita muito rápido! — falou Alessandra, quase que sussurrando e botando a mão esquerda do lado da boca, achando muita graça.

— Ou então já estava, né? Hah hah. Bem, mas e você?

— Ah… deu pra suar a mão!

— Só a mão?

— Ah… da mão pra lá é um pulo! É que foi muito rápido.

— Se isso der em alguma coisa, saiba que ele não é… rapidinho, não, tá?

— Hah hah hah hah! Você é muito boba, cara!

— Você vai ver… Meu ônibus está chegando e o teu está logo atrás.

— Está bom, vai lá. Fica com Deus.

— Fica pra você! Vai precisar!

— Ah, então fica com o demo!

— Delícia! Você também!

— Ah, então fica com o demo!

— Delícia! Você também!

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Um comentário em “Налюбуйтесь: Æria gloris

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