Schwarze Mühle

VAL - shapes (2011)

Moinho preto

Sendo mãe solteira e um filho nas costas, em meio a uma casa de pau a pique, chão de barro, no bairro Moinho Preto, Jussara e Matheus. Vinte e cinco anos, cinco anos. A avó de Matheus morava na casa de cima, como sói ser nesses casos, vide o famigerado Independência, onde, casa sobre casa, as pessoas entulham as montanhas que os entulham. Não se sabe o que foi feito do pai do menino Matheus. Antes mesmo de nascer, o pai já estava com outras companhias, de modo que a mãe também assim estava; ela sequer sabe quem é o pai do rapaz, há, no mínimo, cinco suspeitos. Sendo assim, é melhor arcar sozinha com as consequências, ela pensou, melhor do que ter dor de cabeça com o que devia ser mais simples. Os primeiros anos de Matheus foram um grande peso para ela, fraldas, remédios, pediatras, filas, choros e mais choros. Agora que eles passaram e Matheus já estava mais velhinho, tanto que já podia ir sozinho para a escola de ônibus, embora a avó sempre insistisse em ir junto com ele, Jussara podia trabalhar com mais, digamos, liberdade, tanto na casa dos outros quanto nas camas de outros.

Numa sexta feira, dia de sol brando, Jussara já saíra de casa, Matheus acordou com o carro do gás e sua melodia estranha em si menor, o dia mal começava a dispersar para outras bandas a noite, trazendo pra vista cirros finos e cúmulos densos de coloração magenta e laranja, sob eles gritavam, parecia com ódio, as maritacas em bando e alguns sabiás independentes. Matheus se levantou da cama, num quarto de cortinas fechadas com alguns laivos de sol, e descobriu a casa sem ninguém, como todas as manhãs. Abriu a geladeira e tirou o leite, só tinha um pouco, passou a manteiga no pão de ontem. Era a típica cena que todos achariam engraçada: um meninote com ares de velho, agindo como gente grande, cansado como gente grande. Mais engraçado que isso, na verdade, era vê-lo tomando banho após o mijo e o cocô matinais, que deixava o banheiro inteiro fedendo, pois a descarga não estava funcionando direito, tinha que mandar consertar, um pequeno fio de nylon acabou por ceder e levou todo o mecanismo à perdição, só com balde agora, e a água tinha de ser usada sabiamente, senão não haveria para o resto do dia, no caso de se querer lavar a louça ou a roupa, fazer comida, tomar banho. Dentro dessas escolhas, o rapazinho preferiu tomar seu banho, demorar um pouco mais nele, em detrimento do bom cheiro no banheiro. Água fria, tal como Deus quis que fosse, ele demorava mais do que devia para entrar no chuveiro, tomar coragem e sentir seus músculos se retraírem, sua cremaster sugar seus testículos, rindo e fazendo como que uma dança do aquecimento, apressando-se outrossim para passar o xampu e o sabonete. Após sair do banho e botar o uniforme da escola de uma vez, ele ia para a casa da avó, também ela era solteira, seu marido morrera quando o Matheus tinha dois anos, de modo que ele nem se lembra mais quem ele era, não obstante perguntasse, às vezes, pelo avô.

— Oi, meu filho, tudo bem? Dormiu bem com Jesus? Toma aqui um cafezinho, toma.

A avó era totalmente religiosa, tinha uma bíblia aberta num repouso para livros sobre o aparador, aberto nos Salmos, “mas eu ando na minha sinceridade”. Matheus gostava de ler os Salmos, eram bonitos e curtos, ficava sempre com as mãos e cotovelos apoiados no aparador e o queixo sobre elas e lia um capítulo toda vez que ia para lá, lia em voz alta e pausada, apertando os olhos de vez em quando, a avó sentada no sofá, olhando com amor para seu neto, com mil problemas dissolutos nessa visão de esquecimento, do netinho mexendo a bundinha de um lado pro outro, apoiado numa perna e com a outra pendendo, também se mexendo. “Tão miudinho”, pensava avó, feliz como quem pudesse viver eternamente nesse tão pequeno pensamento de seu neto. Matheus adorava o café que sua avó fazia, não importava se ele já tivesse comido ou estivesse cheio, aquele café, quando tinha, seria totalmente indispensável.

— A gente precisa comprar leite lá em casa, vovó.

— Depois que eu te deixar na escola eu compro pra você, tá?

Com o pé posto em caminho plano, os dois foram para o ponto de ônibus. Matheus estudava no centro, no CENIP. Era uma viagem relativamente longa, mais do que deveria, porque o ônibus sempre demorava, atrasava, e parava em tudo quanto era ponto, uma multidão querendo entrar naquele espaço impossível. Fazia sol, mas o tempo era frio. Assim, ninguém queria abrir a janela, o que fazia da viagem demorada insuportável e até mais demorada.

— Chega mais pra frente que dá pra entrar mais passageiro! — gritava o cobrador; o motorista quase dormindo no volante, nem aí para nada — Dá lugar para o idoso, para a grávida, para o obeso, para a…! Senão o ônibus não vai andar!

Por isso que tinham de sair tão cedo, Matheus e sua avó Dionise. Na maioria das vezes, ele tinha que ir no colo dela, para dar lugar para algum passageiro, geralmente uma amiga de Dionise, com quem ia conversando a viagem inteira. Descendo na antiga rodoviária e se despedindo de quem quer fosse, com o típico passar de mãos no cabelo e bochechas de Matheus, os dois atravessavam a rua e iam pela rua do imperador. Na maioria das vezes, como não tinham almoçado, a avó passava em alguma lojinha e comprava algum salgadinho ou biscoito para o Matheus, que, acostumado como estava, não comia, mas guardava para comer com a merenda da escola.

— Vai lá, meu filho, e se cuida! Quando der umas cinco hora eu venho te buscar. — e beijava Matheus no cocuruto e na testa.

Após as duas primeiras aulas, cada uma de cinquenta minutos, mais ou menos às três horas, os alunos saíam para o recreio. Matheus e seus amigos comiam rapidamente para terem tempo de ir na quadra jogar futebol. Passando por uma aleia de muros, chegava-se na quadra, com grades e redes no alto para que a bola não saísse para a rua. Todos já haviam entrado. Matheus, por último, no entanto, acabou tropeçando na entrada, onde há um tipo de degrau. Quedo no chão, Matheus gritou e começou a chorar, fazendo com que todos parassem o jogo que mal tinha começado e fossem ver ele. Matheus segurava a panturrilha esquerda com as duas mãos, dizia que estava doendo muito, de modo que alguns rapazes foram chamar o inspetor para ver o que havia acontecido. Torceu o tornozelo apenas, logo viu o inspetor, pegando-o no colo e o tranquilizando. Ligaram para o celular da mãe, que ligou para Dionise, dizendo que em breve iria pra escola também, que não dava para sair no meio do serviço assim de repente. Matheus estava sentado na secretaria, com a cara inchada e vermelha de choro. Dionise, pegando-o no colo, agradeceu ao pessoal da escola, entrou no táxi que eles chamaram e foram para a UPA.

— Poxa vida, ainda bem que eu já tinha feito as compras, né? Aqui, tá com fome? Pega um biscoitinho aqui. — o qual ele não quis.

É sempre uma sensação estranha, sair da rotina, ver lugares a uma hora em que geralmente você não vê, era como uma novidade. Matheus, embora sentisse seu pé ainda doer, olhava pela janela do táxi e achava estranho todas aquelas montanhas, com aquele sol e sombras, a essa hora a cidade está na mais perfeita calmaria, as ruas não têm trânsito, todos trabalhando para o dia, o vento parecia estático. Entrando na UPA, Dionise pagou os dez reais do táxi, saiu por uma porta, deu a volta e pegou Matheus, as compras numa mão, Matheus noutra.

Não havia fila, pouquíssimas pessoas lá dentro, alguns médicos e enfermeiros do lado de fora, alguns fumando, todos conversando e rindo. Apressada, Dionise passou por eles e pediu logo ajuda na recepção, onde um homem lhe entregou um relatório e perguntou o que havia acontecido. Falou que não havia ortopedista naquela instante, ele só chegaria mais tarde, mas um clínico geral poderia ajudar. Dionise, no entanto, tanto insistiu que fosse um ortopedista, que ele chamasse algum, que o homem ligou para o ortopedista da UPA, que chegou cerca de uma hora depois.

— Oi, mamãe. Tudo bem?

— Não sou a mãe dele; ela daqui a pouco chega. Sou vó.

— Ah sim. E você hein, tudo bem?

— Não… tá doendo.

— Aaaah, vamos ver o que houve. Posso ver? Pode ser que doa um pouquinho, mas você me ajuda?

— Tá…

Subindo a cabeça de Matheus até o joelho, havia uma grande equimose no tornozelo, sendo visível, pela posição de repouso em que o pé estava, que a fratura era na tíbia, que havia se descolado um pouco para frente do tálus, seus artelhos estavam um pouco inchados também como o rosto. O médico pegou no tendão de Aquiles e perguntou se doía, ele respondeu que um pouco, pegou na sola do pé e empurrou bem pouco para cima e perguntou se doía, ele gritou e disse que sim. Com um sorriso no rosto, ele falou com a avó que aquilo tinha sido apenas uma torção comum, um pouco mais forte do que o normal, que ele colocaria uma gaze sobre o local e engessaria um pouco, que em breve ele já estaria andando direitinho.

Sem conseguir colocar o pé direito no chão, Matheus foi embora com a sua avó, sorte que havia um ponto de ônibus perto, de onde foram pra antiga rodoviária e de lá pra casa. Dionise avisara a Jussara que já estavam indo para casa. No ônibus, Matheus ainda estava com o rosto inchado de choro, com a mão esquerda sob a coxa, para que seu pé não encostasse no chão, na direita levava o sapato, com a cabeça apoiada no peito esquerdo, macio, da avó, e o tempo lhe parecia tão lento que acabou por adormecer. Tinha de se apoiar na avó para tudo, foi um sacrifício tomar banho: colocar um saco plástico em volta do pé para não dissolver o gesso, se apoiar nas paredes, não poder limpar a sola do pé, senão escorregava etc. etc. No final daquele dia, ele ainda não tinha parado de reclamar com a avó e a mãe que o pé estava doendo muito, que doía mais e mais. Já fazia muito tempo que ele não via as coisas senão undosamente.

— Amanhã eu te levo lá no hospital de novo, tá, meu amor? — falou Jussara, afagando-o na cabeça, deitado no sofá com o pé apoiado no braço. Estavam na casa da Dionise, para que ele não acordasse amanhã sozinho, ia dormir naquele mesmo sofá.

— Amanhã vai tá tudo bem, meu filho. Você vai ler um salmo e Jesus vai te ajudar. Dorme bem.

Não conseguiu dormir direito, toda hora acordava gemendo de dor, gemendo de medo. Pelas fímbrias da janela da sala, a lua penetrava hora ou outra, quando não se escondia numa nuvem, sombras rápidas atravessavam-na, criando mais medo e curiosidade em Matheus, que logo se esquecia de ambos pela dor. Sentia o coração pulsar o sangue desde seus olhos, causando como que uma visão de tambor, em que a cada instante tudo ganhava uma mancha preta que logo se desfazia, até seu tornozelo quebrado. Levantava-se do sofá para vê-lo e percebia que a noite estava em seu pé, sentia-se negro, embora fosse branquinho branquinho. Vendo só a ponta dos dedos, mas, acima de tudo, sentindo o pé inteiro, ele imaginava que, com o machucado, seu pé inteiro respirasse e tivesse ganhado vida, e estivesse com raiva por ter sido acordado, causando-lhe dor para que ele aprendesse a cuidar melhor dele.

Quando começou a amanhecer, Dionise se levantou, viu Matheus estirado no sofá com a boca aberta, babando um pouco, soltou um risinho e o beijou na testa, foi pra cozinha preparar café com leite e pão com manteiga e requeijão para ele e ela. Colocou seu prato e a leiteira com o café em cima da mesa, se sentou no chão ao lado dele e o acordou lentamente, mostrando a comida e sussurrando docemente um hálito que sempre foi dela, reconhecível e único. Seria o tipo de coisa de que ele se lembraria com saudades no futuro, como sempre fazem. Sentia os olhos pesados, com olheiras que pareciam pesos que os puxavam mais ainda para baixo, sua esclera repleta de artérias de um rubro forte convergindo até a íris. Dionise viu isso com certo espanto, mas se manteve calma para que ele não se alarmasse também.

— Toma aqui, pra tirar o gosto ruim da boca.

Se levantou, sentindo dor no pé que caiu lentamente do braço do sofá para uma das almofadas, e pegou o pão, ficando muito feliz, pois estava do jeito que ele gosta e que era tão raro poder comer.

— Vovó.

— Oi?

— Posso faltar a escola hoje?

— Ainda tá muito ruim a perna?

— Aham, não consigo andar, vovó.

— Tá bom então, mas amanhã você vai, hein.

— Tomara.

— Vai sim, que a vovó vai cuidar direitinho de você.

— Faz macarrão-da-vovó?

— Vixi, sorte que eu comprei ontem. Vou fazer.

Um dia inteiro se passou, não saiu do sofá, apenas quando queria usar o banheiro, o que era um sacrifício enorme para ele. Cada pisada no chão era um martelar duro, muito duro por sua perna e seu peito, a cabeça doía. Preferia ficar sem tomar água do que sentir aquela serpente nervosa subindo até sua cintura, picando sem parar sua perninha com alguns poucos pelos, de modo que, para andar, segurava com a mão esquerda a parede e com a direita, seu saco, porque a dor também passava por ali. Sua avó ficava no quarto costurando, era seu serviço. O que talvez o fizesse suportar tamanha dor, após sair do banheiro, era ficar parado do lado de fora ou no limiar da porta desse seu quarto de trabalho, ouvindo-a solfejando alguma cançãozinha, ela nunca gostou muito de cantar, apenas de murmurar as músicas, de modo que aquele quartinho tinha som vindo de um lado pro outro de máquina e gente. A dor não podia ser páreo contra seu desejo de estar ali, e nisso sua felicidade resplandecia, de modo que essa serpente da dor também dançava pelas suas pernas, pelo seu corpo inteiro, entrava em seu umbigo e saía pelo seu cu, pelos olhos ou ouvidos, às vezes ele a pegava no colo, tal qual sua vovó ontem o pegou, e deixava que ela lhe subisse nos ombros. Vendo-se de repente na mais completa escuridão, só ele e essa serpente, via-se com anseios de dança, uma valsa ao som de um piano sincopado, ela ganhava pernas, olhava-o diretamente nos olhos, ele sentia medo mas não recuava, suas pernas tremiam mas ele só se mexia pela dança. Dionise olhou para trás e se levantou da cadeira, pegando-o no colo, com grande medo agora de deixar ele sozinho na sala, quem sabe ele delirasse mais uma vez e se jogasse escada abaixo? Era muita responsabilidade para ela. Sentou-o na cadeira onde ela estava, pegou um colchão e o jogou ali no seu quarto, colocando-o ali logo depois. Suas pupilas estavam absurdamente dilatadas.

— Por que você está fazendo isso comigo?

— Ora, rapazinho, por que você está fazendo isso comigo?

— Eu não fiz nada.

— Então fique comigo, deixe-me ficar contigo.

— Sobe aqui nos meus ombros, isso, pode ficar aí como antes, pode ficar como você quiser, eu gosto de você. Há quanto tempo você está aqui?

— Desde quando teus pais te fizeram.

— Isso tudo? Por quê?

— Porque eu saí do saco do teu pai naquele dia e me fiz contigo.

— Do saco do meu pai? Não entendi.

— Quando nós crescermos você vai entender. Seria inútil tentar te explicar. Seria mais fácil se você visse.

— Como eu fui feito?

— É, é que você ainda não chegou na idade de entender isso de fato. Mas tem a ver com teu pinto.

— Só isso?

— Já viu um cachorro em cima de outro?

— Sim, tem um cãozinho sem uma perna aqui na rua e eu já vi ele em cima de um outro cachorro.

— É isso que teus pais fazem e foi desde então que eu estive contigo. Entre eu e tua mãe, eu estou contigo há alguns minutos a mais que ela. Você é muito mais meu que dela.

— Mas, poxa vida, como pode? Se eu nunca te vi nem nada, só agora, só hoje que eu fui te ver.

— Isso até poderia me magoar se não fosse mentira. Você já me viu tanto que nem se lembra. Só às vezes que eu me botava na tua frente, mas na maioria das vezes eu ficava atrás da tua orelha, nas tuas costas. Todo dia de manhã, quando você se vê totalmente sozinho em casa, o calor que você sente não vem daquele farrapo de cobertor que você tem, menino dos olhos, mas sim porque eu me enrosquei em você todo. Ah, quantas vezes você já não me sentiu!

— Mas por que só agora você está na minha frente então?

— Porque só agora você me viu de vez. Você nunca encontrará quem nunca te abandone como eu.

— Também não quero que você me abandone. Mas por que você me machuca tanto? Dói muito, tudo em mim está doendo muito, essa minha perna aqui está como se tivesse um coração próprio, fica batendo sozinha sem parar, e meu pé está cada vez maior.

— É minha culpa sem ser minha culpa. Eu não faço de propósito. Lembre-se que é como qualquer outra coisa em você: muitas coisas surgem sem que você queira, de um modo totalmente fora de qualquer controle, cada vez diferente da outra e da próxima, tudo simplesmente surgindo.

— Não entendo…

— Um exemplo: você faz xixi verde porque você quer? Lógico que não, simplesmente sai assim, quer você queira ou não.

— Então você faz machucar sem querer me machucar?

— Acho que é isso. Não posso parar, mas também não sei se iria querer parar se pudesse.

— Você é muito cruel.

— Você também.

— Eu nunca te machucaria.

— Você não sabe disso. Dança assim.

— Seus olhos são bonitos.

— É safira. Eles ficam da cor da dor que você tem.

— Meu pé tá assim? Por quê?

— Vai saber… Mas que bom que você gostou dos meus olhos, meu veneno também fica com a mesma cor da dor. Quer sentir?

— Você vai me matar?

— Só se você quiser. Pelo menos assim, você vai poder ver a sua dor como eu a vejo.

— Você gosta?

— Sempre.

— Promete não me matar?

— Vou jogar só um pouquinho. Dança assim.

E no momento em que Matheus sentiu a mordida em seu mamilo esquerdo, somente então percebendo que estava nu — o pianista se jogou no piano, um som insuportavelmente alto e dissonante, contorcendo-se de tanto rir —, um líquido penetrando-o todo, letargicamente sentindo sua boca arder, sua visão inteira se tornando cada vez mais azul, não azul-novalis, mas -real, o espaço escuro onde está adquiriu um tom índigo, olhou o seu pé e pôde ver claramente sobre o gesso, escorrendo e o quebrando, um líquido da grossura do sangue, só que azul. Quando acabou, ele se sentia mais zonzo e fraco que nunca, sua dor já era tanta que ele ria chorando, nem adiantava mais gritar nem sentir mais a própria dor. A serpente se enroscara nele de novo e sussurrava sem parar algo em seu ouvido.

Acordou no meio da UPA, sua mamãe chorando desesperadamente, gritando muito alto, sua avó sentada num banco com as mãos ao redor da cabeça abaixada, chorando muito, caindo muitas lágrimas. Olhando para a sua perna, viu que não tinha mais o gesso ali, mas seu tornozelo estava o dobro do tamanho, pus saindo sem parar de um buraco diametralmente oposto de onde estava a fratura, ainda lá, ainda fraturada. Nada tinha se resolvido. Três dias haviam se passado, quatro desde a queda. Ao redor dele numa maca, de sua mãe, vó e alguns médicos, dentre eles alguns estudantes, havia pessoas com celulares nas mãos, gravando, tirando foto, batendo em suas telas com os dedos numa velocidade incrível, conversando bem baixinho uns com os outros, ouvindo, uns poucos com lágrimas, Jussara berrando com um desespero que parecia sair de si mesma pela boca, abrindo-a até ser só carne, depois até voltar a ser pele, infinitamente. E gravavam tudo, e os médicos gravavam.

Uma das estudantes, aos prantos, com um ódio sem mesuras, saiu dali com uma ou duas amigas.

— Perder uma criança de cinco anos, cara… perder por causa de um tornozelo torcido… não é possível um troço desses, porra, se um médico não sabe sequer fazer bandagem direito, o que custa pedir ajuda? Quatro dias com uma fratura com abertura, óbvio que ia dar infecção geral, óbvio que ele ia chegar aqui convulsionando, hipotenso, com respiração superficial, sepse! A droga da convulsão chega bem antes da febre, é praticamente impossível…

— Mas… você não disse que não ia me matar? Por que você mentiu pra mim?

— Eu não menti, assim como não te matei.

— Então, como…

— E como! Hah hah! Não me pergunte por que, o máximo que você vai ter de resposta é o que aquela garotinha falou.

— E por que você está com os olhos fechados?

— Só abrirei quando você me deixar te mostrar a cor da tua dor de agora.

— Pode vir, eu te ajudo então.

 

VAL - yes (2011)

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