Atme

Folega

Acorda! Leviano animal vaidoso. Tu sabes bem que tu nada tens com que quer que seja. Tu, solitário homem, sabes bem que não precisas de nada. Ó, sensato homem. Vive leve, teu corpo assim pede: leveza! Viva, deixe ficar, deixe passar. Não exijas. Que queres? Ter o que não te convéns? Há muito que deambulas dentro de ti mesmo de olhos fechados; sê assim, mas sê leve. Esqueces-te que morrerás? De que te adianta toda essa sucessão de cenas angustiosas em busca de nada. De que te adiantarás entrar no fluxo heterogêneo daquilo que denominam e dizem ser: viver. Vivas, já que te é dado o fôlego, folega! Mas folega com leveza.

Caminhe de mãos dadas com o saber da tua morte, porque desta maneira te lembrarás de que tu não és nenhum deus. Ó, mito. Morrerá tão célere quanto um verme. Folega! Tu és o que pudeste ser. Não te é dado escolher ser livre. Não decidiste nascer, não podes sair de dentro de ti, foste confinado neste mundo, dentre outros milhares deles espalhados pelo vasto espaço misterioso. Sobre a tua morte:

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido…
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Sem ti correrá tudo sem ti. Pouco te chorarão.”

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Esta entrada foi postada em Gean.

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