Quo vadis

Quint Buchholz - Quo vadis (1985)

Por uma espécie de escrófula corrugada à maneira de uma rosa dos ventos infinita, riscos fortes e amenos direcionando e se acabando para dentro, os amenos nem sempre alcançam-no, gregotins esparsos, empurra para fora um vento outonal, cansado e friofresco.

— Você é realmente um merdão. Acha que é mais que o entulho de vísceras que te enforma? Realmente, o homem é um animal muito mal domado, pouco afeito às suas fraquezas, limitações, por isso não consegue ser feliz. Não é você quem se acha o grão senhor das atenções? das audições? dos conselhos? Pff, faça-me o favor, quem é que não sabe o quanto você chora de noite por qualquer pessoa que te deixa falando sozinho? Acha que ninguém? É o que você realmente acha? Mas isso está escrito no teu rosto! Será possível que você pense que o que te ronda por dentro não te sua pra fora? Essas sirenes berrando de você, sirenes da agonia, te denunciam de modo que qualquer criança pode te desvelar em poucos segundos. Pensa, então, que o câncer que te enfurna em si mesmo não faz sua língua mais gorda? Suas palavras são adiposas e colam ao menor toque, visgo sujo, voçoroca bocetenta. Você não vale o cuspe que tua mãe podia ter engolido do falo do teu pai. Não valeu a pena você ter vivido. Não dá. Você é o eterno quererseroquenãoé…

E o cheiro ácido de suas palavras penetravam suas narinas em meio à rua. Não, não era em seu quarto, sozinho, calado, triste, absurdo, onde ele estava. De cabelo e corpo aprumado, um nariz levemente aquilino, peitos e abdômen um pouco proeminentes, sob a gola, escondido de todos, um colar com a foto de sua família, colar de ouro ou ouropel, circular, uma foto ao centro, sua cabeça cortada, também a de seu irmão mais velho, o irmão mais novo no centro, sorrindo boquiaberto, oculosemifechado, ainda magro, roupa de marinheiro, uma boina um pouco maior que o comum, sua vida ainda era feliz e o tempo estava morto para passados, Henrique, seus contornos eram a foto. Em meio à rua nem um pouco calada nem muito movimentada, havia o suficiente para que olhassem com medo dele e passassem com o bojo paralelo a ele, carantonha feita, sobrancelhas alteadas, lábios retraídos, era assim o ríctus habitual, em meio à rua, o rapaz, Josué, ouve essa voz lhe falar, aparecer em sua frente segundos após a ação, simples, cotidiana, natural, expelida na comodidade que apenas a rua pode oferecer, silenciosa, quem diabos poderia ouvi-la?, e agora quem diabos ouve-o lhe falar.

— Henrique? — seu olhar não pararia, a realidade apenas se esvaeceria ao seu redor, todos ainda o vendo, alguns rondavam-no com o celular em mãos, gravam, tiram fotos, riem em grupo, guardam o riso para depois — Parece seu rosto, Henrique… só que, só que mais velho. O que te aconteceu? Onde você está? Não me diga que é isso…

— Seu orgulho fere? Seu coração bate mais forte, consigo ouvir daqui.

— Não firo, não estou ferido, você nunca me feriria, porque você me ama, irmão…

— Até consigo ouvir o colar dando pulinhos debaixo da sua camisa e blusa.

— Só isso? Eu consigo ouvir teu rosto sob o invólucro pulando. Não, não tenho medo, nada em você me fere, apenas me chama, me faz sentir tanta falta, tanto choro, queria tanto…

— Me abraçar? Se fizer isso, eu sumo. Não por querer.

— Sim, some, eu consigo ver. Venha, vamos continuar andando.

Estavam numa pequena galeria, lojas de roupa, cabeleireiro, papelaria, sex shop, roupas infantis, pequenos manequins, pretos, brancos, a cor some frente aos olhos transgressores de Josué, figuras egressas se colam no presente, esticadas, mas ali estava ele agora ao seu lado, será que o veem? Em breve, saem da pequena alameda de lojas, relojoaria ao final. O ruço invadia esparsamente os montes ao redor, serpentes brancas, coleio inaudível.

— Mas e por que você falou aquilo tudo pra mim logo de cara? Me assustei, fiquei sem o que falar, me senti totalmente nu, todo arreganhado no meio da rua. Não imagino a cara que fiz.

— Não sei se teria outra forma de você me reconhecer e acreditar em mim, senão dizendo suas verdades.

— Verdades? Quer dizer, não são bem verdades, já foram, você falou mais de ideias minhas do passado do que do que eu penso agora, ou até do que eu penso sobre o que pensava. Exagerado, e até falso nas diversas generalizações. Um pessimismo estranho a você.

— Se era você aquilo tudo… Eu próprio discordo do que você pensa de você.

— Mas, poxa vida, nenhuma outra maneira de me provar que você era você? Mostra o pintinho, ele mudou muito desde a última vez que tomamos banho?

Josué parou no meio da calçada, olhava Henrique com cara de riso, vê as mãos dele descendo da cabeça pra braguilha, pessoas passam, algumas pela terceira vez por ele, forçam ignorar, indicador e polegar na alça, descendo-o, cueca verde marinho, um pequeno monte, serpentes brancas evolam ao sabor dos ventos frios abraçando frondes, hortênsias bulem ao redor, o começo da púbis lisa como pele de bebê, descendo até pequenas ondulações, ele nunca se raspou, ainda está começando a ter pentelho, pensa Josué, o tecido pouco enrugado surge, encimando um escroto de cremaster tensa, cicatriz proeminente, o pênis uma pequena fimose.

— Não ria, seu inútil.

— Rir de quê? Você não mudou nada! Você ainda é meu irmãozinho! — ele chorava de alegria, o corpo há muito estava em felicidade, soluços traqueais tomavam conta de si.

— Vai se fuder, seu escroto, merdão. Só assim que você acredita que sou eu e fica feliz? Hah hah hah!

— É que sou muito bendomado nas minhas limitações.

— Porra, você ainda não esqueceu isso? Puta merda…

— O mesmo boca suja de sempre.

Estavam parados em frente a uma farmácia, ao lado de uma balança eletrônica, brilhante, repleta de movimentos de luzes, uma fenda para colocar fichas e ver peso atual, peso ideal, altura e horóscopo do ano inteiro até. Atravessam a rua, antiga rodoviária, diversos ônibus cinzas, faixa verde escuro sob as janelas.

— Você se lembra que você sempre quis entrar num desses ônibus?

— Aham, rocio ou moinho preto.

— Mas o rocio não passa aqui, só lá na rodoviária de verdade.

— É que me lembrou… eu ainda me lembro de tudo.

— Só não se lembra de guardar o pinto, né? Se lembra quando a gente estava descendo aquela rampa, eu estava distraído, geral olhando a gente, aí quando fui ver, tava lá você, com essa fimosezinha pra fora, segurando com as mãos!

— Hah hah hah hah! Você ficou tão puto comigo! Quase me bateu.

— Nã-ã-ão, nunca nem quase te bati, só ameaçava. Sempre foi impossível te bater.

— Por quê? Isso que nunca tendi, sempre fiz o cão e o diabo com as pessoas, contigo e tal, e nunca me bateram de verdade.

— É que você sempre foi o queridinho da mamãe e de todo mundo. Mas, por si só, você tinha um carisma que impedia qualquer pessoa de querer te bater a sério.

— É… o verdume algoz não atinge quem ao gozo viva.

Josué lhe arregalou os olhos; Henrique feliz como sangue. O céu flâmulas de fogo.

— Noooffa! Vem aprendendo palavras novas, é? Tem tanto tempo assim sobrando? Ou tá fazendo o que não fazia aqui?

— É o tédio. Não há nada pra fazer, até bater punheta cansa, aí eu vou estudar, ler alguma coisa qualquer. Sabe, no começo eu ainda caía no sono, mas depois eu fui me acostumando, e me lembrava muito das dicas que você me dava para aprender a ler direito, “senta direito! se concentra! não deixa a porra da tv ligada!” etc. etc. etc., esse tipo de coisa.

— E o café? Não adianta nada estar entre milhares de aparelhos científicos sem café, nem que seja só o cheiro.

— Putz! Verdade, esqueci. Não é a toa que fui ler Proust e dormi no primeiro parágrafo. É foda… mil milhões de volumes e o cara começa falando de sono! Com café, aí sim vai dar pra ler, eu acho.

— Dê um pouco de crédito pro francês, mano. Ele merece ser lido.

— Não sei… preferi mais os estadunidenses!

— Poxa, mas aí você já vem com artilharia pesada pra cima de um francezinho pãocomel que aí nem dá mais pra salvar.

Henrique o olhava de soslaio, lábios afinados, projetados para frente, irônico, sarcástico, palhaço, um poço vulcânico de felicidade.

— E com o que você queria que eu comparasse? — diz seu sorriso.

Josué não responde, respira o ar pontiagudo frio, mãos nos bolsos, suadas de toque, de anseio, há quanto tempo não sente seu irmão mais novo, seu caçula, seu amigo maior, aquele que roubou todas suas amizades, que lhe ensinou a fazê-las — condemonia — mais exemplo que teoria, os amigos iriam na sua casa para ficar com o irmão, puro pretexto, igualmente um ódio engendrado, ciúmes, viçaram espinhos em sua fauce. Lábios roxos, Henrique ainda mantinha o “carisma”, o polo correto voltado para o ímã do mundo. Não lhe restava mais a não ser encontrar falhas, criar falhas em seu corpo, a falta de pelos, imberbe, rato pelado, coitado, faltava testosterona etc. No entanto, períneo em riste, bastava poluir o ar sonora e odoramente que matava o irmão cada vez mais por dentro, e matou, matou até não restar nada, puro ódio, massa informe, enformatura por períneos fraternais, a alma é toques. Seu rosto perdia a quietude.

— Você nunca me contou que era assim depois de tudo isso. Nunca me contou… por que só agora? Por que no meio da rua? Ninguém mais te vê? Ninguém mais sabe quem é você? Você deixou apenas eu com memória de quem você é, com olhos de quem você é, o seu cheiro ainda resiste, mas não posso te tocar, não posso me aproximar de você, não posso tudo o que quero fazer, tudo o que você é eu não posso saber. Me diz, é assim aí onde você está? Você sabe quem eu sou fora do teu cérebro, da sua memória? Eu me lembro de você eternamente como um atavismo de rostos nos outros, todos são parentes de sua pele, para mim. Você ainda me ama? Você ama? Sim, meu irmão, quero saber isso, você nunca me disse, você se foi virgem de tudo, de língua, de piru, de cu, de carinho. Você sempre quis dar muito carinho, mas nunca soube quem você amou realmente, chamar a atenção, eis o que você quis, o que você fez. Sou eu agora o seu demônio? Sou eu agora o início do nosso encontro? Eu te amo, sempre te amei, e tenho medo de que você nunca tenha sabido disso. Se pudesse, rasgaria minha pele pra que você não cessasse.

Quando falam demais, Henrique olha pro chão.

— Sim, aqui é assim, mano, cada um escolhe pra onde quer ir. Só pode escolher habitar uma pessoa, ninguém mais. Têm de esquecer de você. Apenas uma pessoa que você pode cativar. A forma que você vai e chega ninguém sabe, e ainda que soubessem não falariam, porque pouco importa. Apenas uma pessoa. Eu sei que você sempre teve certa raiva de mim, eu sei que eu sempre quis roubar a atenção de todos os seus amigos, não posso dizer que não fiz de propósito, sim, foi tudo de propósito, eu realmente quis fazer tudo o que fiz e não me arrependo de nada, faria tudo de novo sem remorso. Eu sabia que isso te machucava, você sempre me machucou com suas brincadeiras brutas quando eu era mais novo, você sabe dos meus problemas respiratórios, já quase me fui diversas vezes. Uma fraqueza horrível tomava conta de mim, impotência, sabia que tinham pessoas ao meu redor, mas eu me sentia extremamente sozinho quando estava daquele jeito, sempre buscando alguém que me desse apoio, um ombro pra descansar, pra amarrar o sapato… Medo, sempre tive muito medo, deve ser por isso que nunca amei de verdade, que morri virgem, agora duplamente virgem. Mas… ainda que sentisse raiva de você, eu sabia que você me amava, eu só não sabia como lidar com tudo isso, eu acho, não sei, ainda tenho muito a entender, e, pra falar a verdade, eu sequer sei se quero saber a verdade.

— A última coisa que você foi foi inocente… ainda em sua inocência, você era todo dos outros. Sinto inveja disso, porque eu tenho dificuldades ainda hoje de fazer amizades por causa disso.

— Pode ser que eu te ajude com isso. Não sei quando voltarei, a fila pode ser imensa ou pode ser que nem tenha mais nada. Vem cá.

Josué recua, brusco, para trás, acertando em cheio um moreno, compras nas mãos, cara raivosa, pronto para xingá-lo, mas corre o máximo que pode Josué, céus aberrantes de enxárcias roxas, serpentes cinzas deixam os outeiros, a rua mais movimentada, filas e mais filas de ônibus, açougues fechando, fedentina de esgoto, sem vento, parada no ar, Henrique sorri mundos, universos, o céu é seus lábios, e eles beijam Josué em abraço.

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