Jenseits

Tato Akhalkatsishvili - Childhood 02

Aquellado

A chaleira, alta madrugada, escrutava o ambiente, vapores espocavam de sua boca afunilada, à maneira de uma integral, esborrachando-se contra paredes, pratos, talheres e panelas, lambendo – lesmas cadentes – suas superfícies, a temperatura do ambiente subia; os azulejos da parede paralela ao fogo tinham flores em frente a um decágono dourado, um vaso e uma mixórdia, tulipa, girassol, dama da noite e antúrio, este, estranhamente, desenhado como que fechando suas espatas, ao longe da qual brilha uma estrela solitária, em cuja perpendicular uma galáxia inteira como que começa a se formar; estão sendo irrigadas, o esquecimento fez orvalho nas estrelas. Entrementes, a água que não escala com sucesso a longa torre, se liquefaz e volta para a base, esperando de novo sua vez, ainda que tudo esteja em caos e haja quem fure a fila. Redomas a todo instante são feitos e desfeitos, tão rápidos quanto o efeito de suas ações, afundam-se em trincheiras, pegam impulso e se jogam, não podem parar. Quanto mais baixo, maior o calor, maior o impulso, a proximidade com a origem e seu silêncio, temporário, provisório, há um instante correto para que o bote seja dado e o alvo corretamente atingido, há muita — velozes, furibundas — taperas a se atravessarem. E, no correto zeptossegundo, o correto porque o corpo se modifica, a pequena bolha acumula sua carga, o mais denso possível, quanto mais couber em menor espaço melhor. Atravessar o mundo num ataque solitário, mas o caminho acumula companhia. Um passa pra vários. O caminho livre, a luz, a fraqueza, o vapor se tornou ar frio, noturno. Rocio. Por fim, o azulejo e os pratos estão frios, a chaleira queimando. E nos minutos até que algo aconteça, o pequeno denso vapor se espalhou, compôs porção de cada azulejo. Se estendeu pela graça.

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