Bewölktes Wetter

As coisas não são como costumavam ser. Os dias passados eram mais belos, mais amenos, mais azulados, mais nítidos e mais vivos, as horas estão se arrastando e é triste dizê-lo e senti-lo dessa maneira. A vida tem sido pesada, tem sido sem sentido, ao menos na maior parte do tempo. Tomei um banho do que não precisava e agora estou completamente molhado e coberto por uma camada de sabe-se lá o que é e que não sai mais da pele, de mim, tomou-me o ser. Escrevo e tento exorcizar-me. Em vão. Corrói-me a ideia de que talvez esteja eu perdido na ignorância do meu agir para sempre. Meu pensar é confuso e desejante. Desejos contraditórios, desejos que perdem sua potência com demasiada celeridade. Minha faculdade de compreender, analisar e julgar aquilo que me convém, aquilo que me é necessário, aquilo que deveria nortear as escolhas que devo fazer para viver e satisfazer-me satisfatoriamente em todos os aspectos relevantes para o meu existir, é falha. Escrevo na tentativa de limpar-me. Em vão. Meu agir, meu domínio sobre o que penso e desejo não conseguem tomar posse do meu corpo, é como se existisse uma guerra interna entre o que eu quero e o que eu faço, é como se uma parte de mim tentasse deliberadamente sabotar-me por completo por medo de sabe-se lá o quê, ou por puro masoquismo mesmo. Tenho acostumado-me com a frieza completa do meu sentir em relação a mim, acostumado-me a ser triste de um modo covarde. Por inação, por complacência a tudo aquilo que me faz mal, mas que é dado naturalmente a todos que encaram a vida com passividade e que de modo algum tiveram a fortuna de nascer num berço divinamente abençoado. Quedou-se inerte em mim a vontade de potência. Deus não está morto; quiçá nunca tivesse nascido, mas ao certo nunca nasceu, apenas em nossos pobres corações, apenas na nossa pobre cabecinha. Não suporto, na verdade, tanto pensamento em mim, tanta vontade em mim, entrei em colapso e tento desde então não deixar esmaecer o meu último fulgor na esperança de que a medicina traga-me, então, a cura. Mas para quê? “Que importa a minha felicidade! A minha felicidade, porém, deveria justificar a própria existência!”

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Für Elise wieder

Bouguereau_venus_detailNão quero parecer rude. Aliás, entenda-me da maneira mais plácida com que possas entender aquilo que digo com a paixão dos meus sentidos na doçura mais sublime da sua sensibilidade. O que eu quero é teu corpo. Teu corpo nu. Igualzinho quando nasceste. Quero sentir o sabor luxurioso dos encontros de múltiplos pecados sendo praticados no mesmo ato. Sentir a rebeldia de subverter as divinas leis. Quero-te. Quero sentir aquilo que se sente quando os sentidos estão em desordem, quero que a desordem esteja mapeada para aproveitar-te da melhor maneira. Quero sentir-te, na verdade; com a intensidade que mereces. E quero que me sintas apenas com o sentir. Que entregues-te sem o pensar, que feches os olhos diante do abismo e não o temas. Que possamos apenas sentir os ventos e que eles nos guiem no sentido da mais pura e sincera blasfêmia. 

Tote Pfade: Erinnerungen

Veredas mortas: memórias

Sorrio às lembranças dos nossos outonos e das nossas primaveras. Tão logo se aproxima mais um outono, não temos mais a proximidade de outrora. Você, como a primavera, brilhava e florescia de todas as formas, e eu, como o outono, era apenas o presságio de pensamentos frios, de pensamentos filosoficamente pessimistas. Embora fôssemos o oposto um do outro das mais variegadas formas, éramos um dois quase perfeito. Os tempos de recesso escolar sempre foram meus períodos prediletos. Podia ver-te. Gostava da maneira como discutíamos e defendíamos nossos compositores preferidos, como divergíamos a respeito da arte, como ficávamos horas e horas discutindo conceitos filosóficos; amava quando brigávamos e rolávamos pelo chão, sob o ar morno do começo do outono, com nossos corpos seminus e rasgávamos o resto das nossas vestimentas durante o confronto, afinal éramos dois rapazotes cheios de vontade na defensoria das nossas posições, ainda que não nos importássemos muito com elas; e depois, suados e exauridos, acomodávamos por um longo período nossos corpos entrelaçados, até eles se recomporem. Eu adorava massagear teu corpo, depois de tantas alavancas, torções e pressões que utilizávamos para derrubar e dominar um ao outro, ver ele funcionando por assim dizer. Achava divino a maneira desavergonhada com a qual nos tratávamos nus, e a fluidez das nossas conversas quando ainda deitados ao solo acariciávamos com a ponta dos dedos o peito, abdômen e as coxas um do outro. Tudo era um sonho no real, a vida vasta. Minha mão rangia de formigamentos incessantes, apocalípticas e extáticas ao sentir em minha palma os pelos que lhe cobrem o corpo, desde suas panturrilhas até o cocuruto, língua forte, júbilo rubro, mansa e tenra; conseguia ver em seus desvãos que também você sentia o mesmo que eu, a pele, sempre em riste quando comigo, aponta os céus e nosso amor que lá está. Mas lá é aqui, e aqui é agora: agora — sempre.

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