Tote Pfade: Erinnerungen

Veredas mortas: memórias

Sorrio às lembranças dos nossos outonos e das nossas primaveras. Tão logo se aproxima mais um outono, não temos mais a proximidade de outrora. Você, como a primavera, brilhava e florescia de todas as formas, e eu, como o outono, era apenas o presságio de pensamentos frios, de pensamentos filosoficamente pessimistas. Embora fôssemos o oposto um do outro das mais variegadas formas, éramos um dois quase perfeito. Os tempos de recesso escolar sempre foram meus períodos prediletos. Podia ver-te. Gostava da maneira como discutíamos e defendíamos nossos compositores preferidos, como divergíamos a respeito da arte, como ficávamos horas e horas discutindo conceitos filosóficos; amava quando brigávamos e rolávamos pelo chão, sob o ar morno do começo do outono, com nossos corpos seminus e rasgávamos o resto das nossas vestimentas durante o confronto, afinal éramos dois rapazotes cheios de vontade na defensoria das nossas posições, ainda que não nos importássemos muito com elas; e depois, suados e exauridos, acomodávamos por um longo período nossos corpos entrelaçados, até eles se recomporem. Eu adorava massagear teu corpo, depois de tantas alavancas, torções e pressões que utilizávamos para derrubar e dominar um ao outro, ver ele funcionando por assim dizer. Achava divino a maneira desavergonhada com a qual nos tratávamos nus, e a fluidez das nossas conversas quando ainda deitados ao solo acariciávamos com a ponta dos dedos o peito, abdômen e as coxas um do outro. Tudo era um sonho no real, a vida vasta. Minha mão rangia de formigamentos incessantes, apocalípticas e extáticas ao sentir em minha palma os pelos que lhe cobrem o corpo, desde suas panturrilhas até o cocuruto, língua forte, júbilo rubro, mansa e tenra; conseguia ver em seus desvãos que também você sentia o mesmo que eu, a pele, sempre em riste quando comigo, aponta os céus e nosso amor que lá está. Mas lá é aqui, e aqui é agora: agora — sempre.

— Você nunca me contou o que você pensa direito — você me falou. — Mas também me pergunto se é necessário.

— Como assim?

— Seu calor me diz tudo.

Meu rosto franziu um pouco. Dei-me por mui pouco satisfeito; e o frio o fez perceber.

— Não é assim. Praticamente impossível isso.

— O quê? Saber o que você pensa sem que você me diga? Nem tanto. Afinal, quantas coisas você já não me disse em todos esses dias que nem uma semana ainda fecharam? Não se assuste nem fique chateado comigo, mas são tantas as maneiras de te conhecer…

— Sim, sim — falei um pouco impaciente, levantando meu tronco de onde estávamos deitados —, pode ser que você tenha razão, mas se basear inteiramente nisso é… não sei, não é certo. É assim que você acaba criando ilusões e preconceitos.

— O que há de errado na ilusão? Não venha me dizer que você é um ser de luz total que só pensa em viver no puro dado do mundo? Sim, estudamos, mas também sentimos.

— Tá vendo quão pouco me conhece? Meu calor não diz tudo. Se diz, o que não acredito que faça, não soube fazê-lo direito. Não sou um inimigo da ilusão, mas sim de uma ideia errada que você tenha de mim, construída sem querer, ou pior ainda: querendo, já que em momento algum você me perguntou alguma coisa. Não sou um inimigo da noite, mas minha parábola converge para todos os polos em todos os seus pontos, mesmo naqueles nos quais não toca.

Não sabendo mais o que me responder, continuou me olhando, o céu e eu, suas nuvens e seu dia descortinado.

Relembrar nossos diálogos e a forma como cada um argumentava dá uma impressão imperfeita sobre tudo. Costumávamos divagar demasiado. O que era muito bom para o momento da conversa, mas, ao certo, com isso, escondíamos um pouco nossas fraquezas quando nos convinha. Eu sempre me abria com ele, embora, depois de um determinado momento, ter-me sentido soturnamente prostrado por não o ter em todas palavras que ele quereria ter dito, e que por negligenciar a mais pura confiança que sempre demonstrei que ele poderia ter em mim não as disse. Mas não vou brigar com ele neste pedaço de papel, isso pareceria esquizofrênico. E, se escrevo, é apenas para matar a saudade. Gosto de ver o que penso no papel; nem sempre é tarefa fácil. Nem sempre pensamos de maneira clara. E por isso, evidentemente, as palavras não desabrocham diante dos nossos olhos. Mas, não poderia parecer esquizofrenia o fato de precisar de um pedaço de papel para conversar, confessar e escrever o que nunca será lido por ninguém?

Meus dias têm sido solitários. Minhas horas têm sido desperdiçadas. Nunca me importei com a solidão. Aliás, sempre achei a solidão uma condição natural em mim. Minha juventude foi a mais solitária possível. Excetuando as horas passadas com ele, foi imersa na literatura e na música clássica, meus dias eram felizmente tristes, nunca me importei com o liceu, repetia constantemente de ano para não ter que abandonar meu quarto solitário na casa dos meus avós e ir ter de trabalhar. Hoje, meus dias são tristemente felizes. Talvez seja por isso que tenho a mania de usar o pretérito imperfeito. Tentando reviver a condição de outrora que não mais existe. Hoje vendo a 1/3 das minhas horas por trocados e perco os outros 2/3 de modo letárgico.

Olá, velha caderneta. Encontrei-a hoje abandonada, e não poderia ignorar uma velha confidente que faz questão de não me julgar pelas histórias confessadas, boa ouvinte e sempre disposta a ouvir tacitamente mais. Pois bem, preciso lhe informar cinco novidades importantes, a terceira é que eu reencontrei ele, mas partamos do princípio. Ou melhor, vamos tentar encontrá-lo.

Cortinas transparentes, ar frio e, desde muito, pesado, tornando-se mais e mais pesado, os ofícios surgindo com os montes de um lado, o planalto doutro, minha pupila meu olho, o caos de minhas vísceras patenteando minha angústia, a primavera um mel verde, uma bola de gude atrás dos montes, as aranhas se escondem, não obstante suas teias como flores de rocio, álamos, carvalhos, girassóis, bétulas, gramíneas as mais diversas. Cada vez menos meus olhos, e mais de minha boca, nariz… eis que o mundo se faz céu e terra, nunca mais vagos, abismos desfeitos: meu pau duro guiando as águas bexiga afora. Pelos serviços que o dia trará…

Não foi debalde que desisti de contar-te as minhas novidades. Já se foram elas junto com ele. Minha animação não passava de ignis fatuus. Afinal, não sei o que fazer de mim. Amiúde tenho a impressão que não posso decidir sobre mim mesmo. Sobre o que será de mim. É como se outras pessoas pudessem dominar e controlar minhas escolhas, meu destino. Canso-me de planejar meu caminho e vê-lo em seguida desordenado por ideias que sobrepõem e confundem as minhas. Ora, se não sinto que posso dominar-me, sinto que sou um ser à mercê de toda sorte de intempéries. De que vale minha vida se não consigo controlar-me e decidir e aplicar o que penso ser, e o que penso que devo fazer? Aos diabos meu emprego, aos diabos o meu passado, aos diabos aquele garoto, aos diabos os meus avós. Sinto que, se não desfalecer, ruirá o mundo ao redor. Suspenso. Eu lutei a minha vida inteira contra um dragão imaginário, mas mal sabia eu onde ele estava. Meus golpes foram direcionados aos quatro cantos na esperança de adivinhá-lo em seu esconderijo e abatê-lo. E ele, diligentemente, sobrevoou sem cansaço, por anos, desviando das minhas investidas. Cansei-me. De fato, não o queria morto, apenas queria vê-lo com meus olhos, adivinhar-lhe a face e encará-lo. Julguei encontrá-lo por diversas vezes na face de seus rebentos. Nessa minha estrada desenvolvi, sem dúvidas, muitas habilidades de um grande guerreiro, mas já não tenho uma guerra para lutar. Lutei por uma liberdade imaginária. Para me libertar de uma prisão inexistente. E derrotar um oponente intangível. Quando me dei conta, estava preso dentro de mim. Estava na cela cercado por todos os meus demônios. Sozinho. Cansado. Abatido.

Pareço fraco, pareço vítima, escória, alvo: passivo. Pode ser que tudo assim seja. Não consigo terminar um trabalho, não consigo parar de dizer não, de seguir em frente num caminho desconhecido, numa esplanada de cores a serem revistas, a fazer cócegas o suor de meus dias, de minhas noites ao seu lado, contigo, comigo, em você, em mim. Você é uma impossibilidade que agora me machuca. Mas já me machucava, não? Será isso?… assim? Verdade.

Sua companhia me fazia tão bem. Seu cheiro, cabelo, pele, mamilos, umbigo, por algum motivo genético você ainda era imberbe (e hoje?), começavam a vicejar pelinhos sob seu queixo, ao redor de seu umbigo, até em suas pernas, coxas e panturrilhas gordas comicamente. Seu suor… elixir? Quantas vezes, ainda em amizade de amor, você não brincou com minha mão durante filmes, durante jogos (olímpicos? ginasiais? éramos gimnosofistas sem o conhecimento de os ser?) minha mão se tornava, entre as suas, instrumento, ponte, brinquedo, o ranger de sua pele me eriçava. Me eriça? Eriçaria? Momentos de ocasos, a noite fazia nossos espaços mais frescos, minha vista turvava e eu te via diferentemente, qual visse uma flor da direita, após horas na esquerda…

E hoje, eis-me aqui, sentado no trono, escrevendo e escrevendo, vivendo. Se há algo que prezo naquilo que penso e falo, certamente não é nem a coerência nem a ausência de contradição. Mantive até hoje, para o bem ou para o mal, o costume de me jogar no abismo dos meus pensamentos e atos. Afinal, a vida pode ser vivida de diversos modos, pensada e interpretada de diversas maneiras, inclusive como a arte de experimentar. E ainda que não haja felicidade sem tristeza, e nem tristeza sem felicidade, espero continuar vivendo cada ato na sua plenitude. Embora isso possa parecer clichê. E essa dialética não exista. Ao menos até agora.

Quarto. Me senti como se te conhecesse desde nossa infância. Olhar para cima, pessoas sem pescoço, braços enormes. Você era meu refúgio desde então. Nossa? A infância, em verdade, era toda sua. Eis onde minha dor reside. Estrondo de esperança, fagulha de ascensão — tudo podia ter sido diferente. Ao tentar me lembrar de quando te vi, seu rosto é uma nébula. Encontro fotos dessa época, tento reconstruir, fazer seu rosto, sorriso, nariz, boca, olhos, cabelo, testa, bochechas, cílios, espádua, tudo, tudo, tudo, te reconstruir. A superfície eternamente fria da foto. Tivesse eu rendido mais atenção a você nessa época, outeiros eternos no dilúculo, libertado você da tristeza nascente, criado um vínculo na alegria desde aquela época… Senhor, tu que és o grande inútil dessa porra toda, que não serve pra nada, senão dar uma força poética no inexprimível; não te quero, afasta-te!, fantasma do mundo falso. Meu amor requer deuses telúricos. Dionísio, és tu meu grande amor, a eterna criança dançarina de minhas memórias; engulo-te toda noite, danço-te todo silêncio. Habitas todas as crianças (e Espinoza) e meu trepidar, formigar e memória são todos tu, que és o grande senhor que obnubila a imagem de meu carinho…

A diferença, há diferença. Você escapou de meus braços, transviou. Te vi quando criança, te revi quando mais velho. Não te reconheci. Mas tudo se ajeita. Aos poucos, fui dizendo sobre nosso primeiro encontro. Naturalmente, você de nada se lembrava. Pouco te importava. Seu suor, desde então, me fez crescer em toque. Evolução assíntota. Involitivo, você me adentrou, forçou entrada, tomou todos os espaços de meu corpo, expulsou tudo.

Mas estava tarde demais. Você nunca me ouviria. Nunca me deixaria estar em você. Sua violência era estar em mim, e só. Quantos Freuds, hoje em dia, não estarão por aí, rejubilando-se grandemente com tudo que digo? Será que entendem? Ou só veem falos, circunscrevendo arcos de cu? A tristeza se torna riso ao pensar nesses patéticos. E você era o rei de todo o meu sorrir, meu estar feliz. Você era meu — mas nunca me deu chance de ser seu.

Trocando em miúdos, de que me valeu tudo? Se ainda sinto-me só; apesar te todas as possibilidades filosoficamente interpretáveis contrárias ao sentimento de tristeza e solidão, gosto de imaginar-me sofrendo, mesmo sabendo que não é preciso. Só por sofrer. Só por parecer sofrer. Tudo não é apenas dor e sofrimento? Dor e sofrimento pungem em meio peito, meu rosto pálido coberto parcialmente pelos meus cabelos ligeiramente compridos vez ou outra sente escorrer em toda sua alvura gotículas de dor, e nesse momento é como se estivesse transformando-se em algo sólido, ou melhor, liquido como lava; é como se a dor quisesse sair de meu peito e tomar-me o corpo por completo. O gosto da dor seria salgado então? Ora, não diga tolices. Pare de preencher com palavras aquilo não existe em você. As palavras apenas te embriagaram e você não consegue fugir mais delas. Preencheria com que então o vazio da minha existência? Sexo, drogas e rock ‘n roll? Sairia por aí, encontrando toda sorte de lugares luxuriosos, beberia, dormiria na sarjeta, contrairia o human immunodeficiency virus em alguma seringa contaminada, e depois? seria mais humano?

Quanto mais tento lutar contra esses impulsos, mais meu corpo petrifica. É como se minhas vísceras fossem ruínas. Estou sendo destruído aos poucos por dentro. E todo esse relato é muito confuso para mim; sua voz me ecoa em cada palavra, elas gritam incessantemente para que eu vá me juntar a você. Confuso porque minha mente, como todo o século que me precedeu, não consegue se fixar numa linha. Narro a felicidade de cinco coisas, mas, em seus interstícios, pletora anônima que me engole… Procurarei, de novo, nas fotos que roubei de sua família o rosto que me falta, sua voz haverá de sair dessa impressão e você renascerá um filho meu muito amado. Aborígine de minha alma, nossa vida voltará a ser ditada pelo amor. Sua pele infantil, nua de pelos, sobre a minha, suas mãozinhas lisas pegarão nas minhas mãos calejadas, sua barriga, esse umbigo para fora, sentirá meu tórax, coxa sobre coxa, a vida terá de volta uma glória que não pude perceber até hoje, o inferno reinará na terra para que a ética seja o corpo que, a todo instante, incessantemente, inevitavelmente, sim, sim!, o corpo que nos permutamos. Será céu, colinas lisas ao longe sobre a aspereza de quando é próximo, seu corpo nu, seu pênis ainda pouco desenvolvido e imberbe, apontando-me sua vontade qual uma bússola, suas mãos revolvendo minha pele, penetrando-me até a carne, fazendo de meu corpo um jogo, de meus órgãos um toque, de meu amor um nosso.

— por que cê’stá assustado? seu sangue trem’im minha mão. num tinha que tá dançano agora?

— Er… acho que sim. É difícil entender isso tudo. Meu coração está feito uma bola de pingue pongue, sabe? Hah hah. Você consegue sentir ele?

— pérum pouco, x’eu me levantar aqui. poo! nem dá pra pegar ele direito. você’stá assim por causa de mim, nhé? – E você, então, me olhou como que escondendo seu corpo. Meu corpo inteiro queria te abraçar no amor. – o que cê quer qu’eu faça? é tão bom ficar assim cuntigo…

— Eu apenas te quero, mais que qualquer coisa, mais que qualquer estrela no céu. Que o mundo se apague. Que deus continue nos abandonando. Que o vazio seja ar. Que os mares sequem. Que a fome me corroa até a ptomaína. Se você estiver comigo, tudo exceto você me faltará. E o suficiente será perfeito!

— hah hah hah hah hah hah! palmas, palmas, palmas! *clap clap clap clap* cê é lindo! vo te encher de beijos. vo te babar todo!

Seus lábios, maximamente abertos, não podiam me comportar. Seus joelhinhos doces sobre minha cintura, sua boca, por vezes, engolindo os pelos de meu peito que se desprendiam – também eles te amavam? queriam ficar contigo? nossa vontade se espraia por cada zeptometro cúbico de nosso corpo? –, os lábios um pouco carnudos um pouco finos me fazem cócegas, aos poucos se aproximam de meu pênis, onde meu coração por vezes se faz notar, que tantas vezes sentiu o coçar de sua pele toda; beijando babando, meu abdômen, dentro de meu umbigo você engole e beija a poeira dali, desce e roça o início de meu pente até a glande rubra, você sente imediatamente que meu ser estremece ao contato e gosta ao riso de me ver no êxtase, seu nariz ama o cheiro do chão de minha pele, todos seus estremecimentos, você lambe mais, engole, me deixa abortado de todas as noções do real, sua criação é brinquedo, pois sim, meu esperma cobre sua boquinha, você o pega com a mão, roda-o com o indicador, helicóptero, azenha, te vejo saindo um pouco do chão ao giro de nosso esperma, rimos juntos, até que você cai e me machuca os testículos, levanto minha parte de cima em dor, mas, ao te ver, te abraço e começo a te beijar a testa, as bochechas, a boca, sua linguinha é capaz de sentir o cheiro de meu suco gástrico, o qual você toma com canudo, deixa-o um pouco na boca e engole com uma parte do sêmen e com o restante enfeita os mamilos com dois chifrezinhos, e eis que um cheiro acre de delícia recende da boca, sua presença quebra o limite dos sabores. Sua carnalidade, muitas vezes estou dentro de sua pele e consigo sentir o que você sente, tal como você comigo. Enxergo como minhas todas as suas memórias, o voar, o babar, o abraçar, o sentir minha carne, sangue, coração, atrás de meu corpo, não muito longe, sua força está mais noutros lugar que nos braços, o cheiro das fezes que você retirou de minhas vísceras, o rasgo das unhas dos pés em minha pele. Ao voltar para o meu corpo, você continua o trabalho de me encasular em salivas, coxa esquerda, ao passar a língua sobre minha femoral, seu cocuruto e testa, esse cabelo maravilhoso, tocam carinhosamente meu saco, até que você desce mais e mais, explode meu póplite, panturrilha, calcanhar, dedos todos e todos, a pele de sua língua também rasga e seu sangue banha nossa infinidade.

— putz, esqueci de um lugar! peraí!

Subiu novamente, com o pulso direito tira do caminho meu saco e pênis e molha meu períneo, meu ânus, quando seus pelos também se soltam em sua boca, você os engole, seu estômago se enche de mim, como eu me cubro de você, e você sobe pras minhas costas nuas, nuca e cabelo, nem aí você para, qual uma aranha, você volta pra minha testa e lambe minhas sobrancelhas, meus olhos, dentro de meu nariz e orelhas, minha boca, minha língua, minha úvula, sua língua um receptáculo de meleca e catarro. Não há mais mistério entre nós, há apenas, e é tanto!, um corpo. Algum corpo! Ufa!

Sequer imaginas o que é lembrar a cada minuto o tempo que passamos juntos, o que causou e o que ainda causa em mim lembrar de você. Minhas memórias, vivas memórias, lembram-me e torturam-me sobre o que um dia foi a estética do paraíso. Amo-o como um bêbado ama a cachaça e o padre ama uma criancinha. Desejo-o como um cristão a vida eterna e uma freira um pênis. Quero-o como um mendigo a esmola e o pastor o dízimo.

És além de um corpo que meu corpo deseja, uma alma que minha alma procura. És o corpo ao qual meu corpo acompanharia junto ao abismo. És objeto do meu desejo e eu o desejo como se desejam todas as coisas perdidas para sempre. Sabe aquele beijo, como tentavas engolir-me? Lembra daquela música e daquele verão? Daquelas bebidas e daqueles tragos? Daquela sua amiga que eu beijava pensando em você? Daquele magnifico fim de ano, daquele ar etílico? Não. Embriaguei-me demasiado com tudo aquilo. Eu era muito jovenzinho e o efeito que tudo aquilo causou em mim não se desvanecerá jamais. Não. Recuso-me a aceitar a realidade a qual fomos submetidos desde então. Não. Quantos desencontros nesta vida.

Aquela sua amiga. Foi por ela que o chão abriu-se diante de mim. Foi por causa dela que eu desci o desfiladeiro claudicante. Foi a negação do amor e do desejo de um homem que feriu a minha alma pela primeira vez tão fortemente. Mas eu era apenas um menino. E depois veio você. Tão lindamente preocupando-se com os anelos de sua amiga, sem o saber que eu estava ferido por ela, nem eu o sabia. Você repousou a cabeça no meu peito e eu o abracei. Caminhamos naquela noite até que todos que estavam conosco se desviassem da rota que seguíamos. E por fim, ficamos sozinhos, assim permanecemos nos beijando até que a alvorada irrompesse intrusamente suas barras no estrelado, escuro, imenso e vasto céu no último dia de primavera daquele ano.

Não sei se o desejo ainda. Mas o que me tortura, de fato, foi a vida não vivida ao teu lado. É o não saber o que poderia ter sido. É toda a vida que deixamos de viver. É a certeza de saber a impossibilidade de adivinhar o que não foi, é o vazio das lembranças inexistentes. Dos beijos não dados. Do sexo não estimulado. Das carícias não continuadas. É saber que nos foi reservado um banquete junto ao diabo e nós não comparecemos para saciar quaisquer desejos que quiséssemos. Mas nossos desejos eram tantos. Nossas vidas eram tantas. Minha tristeza é a de quem não pôde estar onde o chamaram, onde quem mais importava estava. Não é de deus que estou falando. Se ele existe, que vá aos infernos e coma conosco. Caso contrário, é medroso e não tem direito de estar entre nós. E que dance de acordo. Porque já estou farto de tanto pensamento na música dele. Assim como a música foi feita simplesmente para dançar, tendo por pensamento só a técnica de composição, meu amor é todo da carne. Pensamento é substância viva da carne, e a carne é molécula viva do pensamento. Perguntem ao meu amor se não foi assim que mais bem aprendeu meus pensamentos. Perguntem ao meu inimigo se não foi por falta de amor que nada me conseguiu entender – porque todo inimigo é amigo do que não entendeu.

Deus, Pai Eterno, Senhor de todo Viver Maior, nós Te rogamos em nome de Teu filho, Jesus Cristo, Cujo sacrifício redimiu todos os nossos pecados, Cuja penitência em Getsêmani, Santo Sangue feito suor, jamais humano algum seria capaz de sofrer, revelar-nos, Deus, Pai Eterno, que bendito seja Teu nome santo, que glorificado e altificado seja o Esplendor de Tuas Revelações, de Teus Profetas, de Tuas Emanações, o poder, Excelsiado, Santificado, qual Carne de seu Filho, Jesus, o Cristo, o Redentor, do sabor da carne maravilhosa que tem a boceta de Maria, que se arreganhou toda para que Jesus nascesse em sangue e morresse em sangue, de modo Esplendoroso que José, garanhão de Jerusalém, sentisse toda viscosidade, umidade, calor, vermelhidão que essa delícia oferecia a Deus e o Mundo, ao lado de sua amiga Madalena, que sentiu summa cum laude o pênis de Jesus fazer montes em seu abdômen, tamanha era a criatura priapesca de nosso Salvador, que louvado seja por toda Eternidade, o qual, igualmente, fez montes serenojoviais nas costelas de todos menos nas de Judas, ah! meu Senhor, que Teu nome bendito seja eternamente, se também houvesses Tu de me fazer o único excluído de sentir a fama gloriosa de Teu sêmen santificado, por que Diabos não te delataria outrossim? a quantos males pôde a religião nos levar! a principal, certamente, foi a sodomização exclusiva do mundo exceto Judas, cujo rancor destituiu nosso Reino dos Céus de Teu Obelisco Agraciado.

É mais ou menos assim como deus se referiu à própria história durante o banquete. Eu comia arroz com ervilha, bife e vinho. Meio mal educado. Conversava de boca cheia, pedaços de camarão lembraram-no o arco-íris que mandou o sol construir quando os mares se encheram do nada. Um cara meio estranho, mas bem legal no fundo. Pena que é autor de carne por demais seca. É, já não sei o que digo. Deliro, Gertrúria.

Não, a dialética não existe, ela não me partiu em dois, não me cindiu, não me rachou, não virei caco. Tristeza tanto não existe sem felicidade, como ambas não existem sem razão. Falo mentiras? Não, meu diário, se até você começar a me julgar e dizer que estou errado, o que será de nós? Pense bem, ora porra. Quem criou a ideia de que razão e emoção são diferentes? É a mesma coisa com o sujeito e objeto, tópico e comentário. Mentiras. Dividir assim o mundo é trabalho fundado nos obscuros da razão. Só existe emoção. A razão é uma bolinha verde, nunca viu? Ela está no meio de todas as outras emoções: amor, raiva, ódio, paixão, felicidade, tristeza. Etc., porra. Agir com a razão não difere em nada de agir com qualquer outro sentimento. O que não é sentimento é o que existe fora de nós e nos compõe para diferenças. A dialética nem aí pode existir, o dentro e o fora não tem nada de oposição. Ah, tudo bem, agora entendo o que você quis dizer. Dialética no sentido antigo, né? Verdade, sentido dialógico do mundo, o fora e o dentro vivem em tensão dialógica. Eu e ele. Agir com ele era agir como que com uma emoção. Duvida? Mas ele era, sim, em mim, uma emoção, um sentimento maior. Como naquela vez em que íamos passeando por um longo declive, era horário de verão ainda, quase sete da noite, e o céu esplendente, nuvens densas alaranjadas e cinzas. Eu estava passeando ao lado dele, ele sempre quis ficar do lado da rua, queria me proteger? Não sei bem, hoje pareço duvidar de seus sentimentos, mas, naquela hora, isso não importava, estar ao seu lado era uma verdadeira razão de viver. Entendeu? A razão funciona. Também dava pra dizer: era uma verdadeira felicidade de viver. E você não gostava quando eu fumava, né?, mas eu tinha que fumar justamente nessas horas, o cigarro é um meio de absorver mais para dentro as paisagens. E todas eram ele. Só, sozinho, ele conseguia ser os oito tragos, até que o cigarro apagasse e a paisagem estivesse impressa no metal dos pulmões. Mas você estava no meu leste e era para os rins que fluía essa água. Dentro e fora, dialética? Que nada. Mudou de nome, envergonhada, depois dos alemães ela se estragou. A vida seguiu em frente mais imponente. Ah… andar de novo ao seu lado. Nós fomos até o fim da ladeira. Meu cigarro já tinha acabado. E a cada passo, mais você continuava em mim, fortificava sua vivência à ferro e fogo. Minhas mãos sentiam espasmos muito intensos que eu tentava controlar com toda minha força. Nem o cheiro de verde, trazido pelo vento das matas, me acalmava as mãos. Tudo o que é belo não merece o toque? Ver uma obra de arte que nos toca é um sacrilégio. Ela não espera resposta? O que pode haver é medo da tréplica. É que muitas vezes ouvimos o que não disseram, ou disseram demais para o que o corpo aguenta. De qualquer forma, saber como você se sentia ao fazer isso em mim — proposital ou não? você me provocava, não é? fale francamente, você se lambuzava de me ver sofrendo agonias de abismos, posava todo o corpo para mim — é bastante inútil agora.

Pela primeira vez, quis reler o que escrevi ontem. Sim, contei quase tudo. Agora estou na quinta e última coisa que tinha para te falar. Não sei por onde começar. É que acontece amiúde dentro de mim uma mistura de tempo e espaço, sentimentos, sensações, lembranças, realidades e fantasias. Aquilo que fui, que sou e que serei. É difícil de dizê-lo, de racionalizar as emoções. Cenários, sons, efeitos. Decepções e belas surpresas. Há uma mistura de coisas vividas e não vividas, fantasiadas e esquecidas, relembradas. Realidades e falsas lembranças aquarelam-se, tornando-me nisso que sou. Quantos reinos conquistei em silêncio. Com quantos moinhos de vento não lutei. Falei com mortos, dialoguei! Ri, chorei, desejei, fiquei triste, feliz, viajei por todos os lugares possíveis, conheci reis, fidalgos sem nem mesmo sair do lugar. Tenho dentro de mim um turbilhão de ações que desejariam tomar vida. Mas que estão adormecidas e vez ou outra me atormentam para que as deixe viverem, encená-las. A inação consola de tudo? Não… com certeza não. Inação é coisa de quem já está morto. Tudo o que tenho memória e faz minha pele saltar existe. Inda que eu não seja mais que uma maré estofa, existo. Você, diário, sabe muito bem o que quero dizer, sabe o que é eu existir. Parei um tempo e folheei sem ler as páginas anteriores; têm um cheiro estranho, o vento que sopra delas é estranho, quase não me consola, como um vento à beira-mar. Você existe ainda para mim. — Não você, diário, mas ele. — Quando eu te reencontrei na rua e o mesmo céu nos cobria, um monte de asfalto nos separava. Fitei e fitei até não poder mais, minhas mãos tateiam meus bolsos por um milhão de cigarros, sem chances de consegui-lo. Eu subia e você descia, eu voltava e você ia, eu paro e você continua. Não conseguia controlar minhas mãos, me espancando os bolsos por cigarros; meus olhos, a esclera hemorragia; os músculos do pescoço enrijeciam-se.

Um segundo. Foi apenas por um segundo, e minhas mãos estão mais calmas, meu pescoço é leve, meus olhos retornam para o tom azulado. De frente, só há pessoas e prédios. Olho para trás, você está lá, caminhando devagar, como de costume. Há razão para nossa separação? Quando aconteceu? Não lembro. Carros buzinam, se assustam e, como que por um milagre, sou atropelado. Meu voo me deixou mais perto de você; o trânsito parou. Agora eu posso atravessar a rua, o trânsito parou, o motorista saiu do carro me xingando, um caminhoneiro atrás botava a cabeça pra fora, um motoqueiro desviava de mim. Levantei, um fio feliz de sangue cobria parte de meu rosto e corpo, cotovelo e ombro direitos ralados, flanco da rótula direita asfaltada. Levantei e fui. Caminhei em sua direção, os olhos e o corpo mais abertos que nunca, meu maço ficou caído, respirar perto de você é sugar mundos, seu rosto tem um susto que muda em sorriso fraco. É início de outono, faz frio — você me olha!

Não houve conversa. Seu hálito, eu senti nas expirações. Quando acordei, estava num hospital, tive traumatismo craniano e meu joelho deslocou. Médico algum entendeu como consegui andar. Droga, e ainda tem o ortopedista pra colocá-lo no lugar. Estou sozinho. Não sei se você vai voltar. Pedi para a enfermeira trazer a lista de pessoas que vieram no meu quarto. Estava você lá, de madrugada, enquanto eu dormia. Ficou até pouco antes de eu acordar. Por quê? Há uma cadeira perto da minha cama, há um pouco do seu cheiro nela. A janela está aberta, ainda é de manhã. O brilho do sol me afaga a tristeza que essas perguntas me fizeram. E sorrio, sem saber se te verei de novo. Perda? falta? — Que nada, são coisas de quem não vê. Esse friozinho de manhã é saúde, com todo o cheiro de humanidade (fezes, sexo, clastomania etc.). Porra, que merda… não peguei meu cigarro. Haverá alguma enfermeira do alegre que me traga?

Ainda que eu balbucie tudo isso na tentativa de ter-te novamente, ainda que eu pinte o mais belo retrato do que fomos, ainda que argumente e te leve pelos caminhos que minhas palavras podem te impelir, ainda que te confunda com sentimentos passados, ainda que eu desperte deliberadamente de forma astuta a vontade de relembrar e reviver, ainda que eu rebusque o quanto for preciso tudo o que digo e ainda que o consiga novamente da maneira que desejo, quero e posso te fazer querer, não quero como antes, quem sabe, apenas brincar com as palavras mais uma vez… eis o que é ser só.

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