Acedia

Acídia

Roberto Ferri - Ishtar (2014)

E embora mais de mil vezes tenha dito quão fácil é escrever a tristeza, mais mil vezes escreverei tendo-a ao meu lado. Em todas elas, estará mais que acesa a chama da alegria. – Ao fazer algo, vejo um rosto triste, um cansaço interminável de nunca fazer o certo dos outros, sempre esquecer que agir é conflito. A luta cósmica e tediosa dos perdões, das justificativas, das humilhações de si, os rostos virados, as palavras sem respostas, o corpo ouvindo o vazio de si. E tudo isso terá de se juntar aos bits, aos zeros e uns, às contingências da luz, das equações em estado caótico, imensamente fora das CNTPs, quando o curto-circuito é mais alto que a voz. Bem-vindo, jovem estrangeiro das relações humanas, sinta-se em casa. No entanto, nossa casa é onde mais longe se estiver, mais distante de todas as pessoas, de todas as faces… Arr… estou fazendo má literatura. Não sei escrever bem ainda. Estou criando metáforas más para dizer o que estou querendo dizer, mas que não dá pra dizer, senão eu falo tudo. Não dá. Não dá nem pra entender, quanto mais escrever. Tenho medo de tanta coisa, de tanta palavra sem vida, sem carne, abstração absoluta do verbo, das intenções anômalas de rostos, sobrancelhas, bocas e cheiros. Perturbadora fraqueza de nossas relações (será de hoje isso? Impossível. Pode ser que nos tempos passados as pessoas encontrassem outras maneiras, um oráculo por exemplo. Talvez aconteceu de termos achado a melhor), tão dependente de tão pouco, e com tão pouco – tão mais distante. E sim, o excesso de carne não trará de volta nenhuma época de ouro, nada trará nada de volta, que caminho de volta? O verbo é “ir-se”. E pode ser que pareça mais desesperado do que estou, que me imaginem desconsolado da humanidade, noites e mais noites de insônia, fantasmas me assombrando enquanto fios elétricas zunem ao meu redor. Hah hah! Isso sim é de fazer rir. Ou não parece? Ou é mais uma ilusão minha? Com certeza, quem sabe. Vai entender. Caminhar ainda é o melhor remédio. Descobrir sossegos.

Anúncios

Traum eines besiegten Mädchens

Eugène Delacroix - Médée furieuse (1838)

 

 “Soco, soco, bate, bate
Soco, soco, vira, vira
Soco, bate, soco, vira,
Soco, bate, vira.”

Canção popular

Sonho de uma menina vencida

Noite avante, o sonho contorna os traços de uma cabeça revoltosa, pelos entre pelos, o braço descreve tubeira, nariz em axila, perna sobre perna, as coxas roçando púbis, um ar frio adentra, espalha-se, revolve os corpos e refresca, suores, inação enquanto sente as palmas das mãos, os joelhos, pernas e pés sobre o lençol desarrumado, bocaberta, olhos quase fechados (um mar de vazio branco, um pontinho de terra a aparecer), não entende de onde vem, mas sabe para onde vai, imensa montanha russa rolando e rolando, sobe e sobe, desce e desce, sensação indiscernível do cerne.

Clica e vem ler!