Traum eines besiegten Mädchens

Eugène Delacroix - Médée furieuse (1838)

 

 “Soco, soco, bate, bate
Soco, soco, vira, vira
Soco, bate, soco, vira,
Soco, bate, vira.”

Canção popular

Sonho de uma menina vencida

Noite avante, o sonho contorna os traços de uma cabeça revoltosa, pelos entre pelos, o braço descreve tubeira, nariz em axila, perna sobre perna, as coxas roçando púbis, um ar frio adentra, espalha-se, revolve os corpos e refresca, suores, inação enquanto sente as palmas das mãos, os joelhos, pernas e pés sobre o lençol desarrumado, bocaberta, olhos quase fechados (um mar de vazio branco, um pontinho de terra a aparecer), não entende de onde vem, mas sabe para onde vai, imensa montanha russa rolando e rolando, sobe e sobe, desce e desce, sensação indiscernível do cerne.

! Abre os olhos, ainda é madrugada, sua cabeça de cabelos nervosos parece ter saído do banho, a calcinha está completamente encharcada, o útero lhe parece escorregadio. Não conseguirá mais dormir. Levanta-se da cama, atordoada, com o máximo cuidado para não acordar os pais e o irmão. Liga a luz, volta a se sentar na cama, passa a mão nas coxas, tenta se secar de qualquer maneira, levanta a cama e deixa que ali morra os vestígios de seu sonho. Seus olhos claros, pontuados para o sublime com a ajuda de seus cabelos ruivos, meio cacheados, meio lisos, mas logo trazidos à terra do real pelos pelos sob suas axilas, estão, igualmente, agitados, não se fixam em lugar algum, brincam de fazer ínsula suas cristalinas. Batendo com as mãos na cabeça, de um salto, que a machuca, pois não veste sutiã pra dormir obviamente, se levanta e vai pegar seu querido Rimbaud e ler sua Vênus. As semelhanças são tão grandes, e a tradução de Ivo Barroso é tão fluída, que aos poucos se deita no chão, dobra joelhos, mão direita ao chão, esquerda no livro, bunda esmagada até o cóccix, costas e, por fim, a cabeça recostada na cama, posição que a deixa bem desconfortável, mas a dor não tem chão agora, este é só dela e, assim, uma banheira é seu quarto, ela ao fundo, tão fundo, ouve um som leve de piano ressoando untuosamente, seus ouvidos gritam a permanência ali, e em sua bunda já não há úlcera nenhuma. Não quer sair. Só que é aquilo, se ficar, morre afogada.

E daí? Não valerá esse momento por toda uma vida? Agora, isso é muito Dostoiévski, e, a bem da verdade, idiota. Emergindo de sua tumba provisória, seca-se definitivamente. Ainda é madrugada e o sono não vem de volta. Fecha o Rimbaud e se deixa deitar na cama, igualmente desarrumada. Emersa, vai se lembrando mais e mais do sonho que teve e tenta reconstruir seus passos. Não dá, é árduo de mais e o esquecimento já lhe deu bom dia. Segue seu exemplo e parte adiante.

Troca de roupa, coloca esta pra lavar e já fica pronta para quando tiver que sair. Short jeans, pouco abaixo de suas nádegas, com um grande botão sobre um pequeno zíper, camisa de algodão de alcinha, a depender de como ficará, sua barriga pode aparecer, sob o qual residirá um sutiã bege com um leve enchimento. Matérias do dia. Estudante de artes, carrega seu cilindro preto com rascunhos feitos a grafite, ou carvão vegetal, ou nanquim, esta última a mais difícil de manejar, dada a delicadeza e precisão necessárias. Lábio inferior mais proeminente que o superior, embora não haja em sua fisionomia exagero quasimodesco, o batom vermelho é o preferido. De fato, nela, tudo tende ao sublime e ao tectônico. Figura estranha.

Ainda é madrugada, e só agora ouve um vento sibilando, há alguma janela um pouco aberta, um frio lhe sobe a espinha e seu lombo ainda está suado, aquela cama ainda está bagunçada, o quarto fica outra vez inundado, e dessa vez não há Rimbaud que a salve. Fechando os olhos ou ao menos a visão, retorna à posição originária, ajoelhada, mãos em riste no colchão, geme, grita, mas ela não é um golfinho ora essa, não dá pra ressoar o grito, muito menos chamar suas amigas e amigos. Escrime no seu corpo, no entanto, uma multidão de agonia, paroxismos, excelsior, avante! avante! cada poro de seu corpo escrimirá aquosa e aquosamente, fluida, permissível a todas as formas, desfazendo-se em cacos peladinhos de gritinhos escrimindo, e goza! e finalmente lhe vem à boca a palavra grossa! goza, mulher! enxarca essa água, inunda esse mundo inteiro, vingue-se, vingue-se e se vingue de tudo que te oprimiu neste mundo maldito, nessa esfera ambulante, deambulando eternamente pelo espaço, pelo vazio, vazio maior e mais paroxístico que todas as coisas que te julgam, coisas! sim e sim! só coisas, não são pessoas, não são humanos, só é humano o que é aberto, só aberto o que é vazio, só é vazio o que não é nada, e não ser nada é ser algo, mais que vazio, eis o humano, verdadeiramente humano, incrivelmente, goza e goza! não deixa esse útero parar, esses ovários não podem descansar até plantar na terra desse mais-que-vazio humano a planta da misericórdia, da pietà que não carrega mais Jesus nenhum, mas que se carrega, goza, pequenina! mate esses filhos do ontem, essas chagas escrufulosas que matam os mertiolates da redenção antiescrufulante! joga essa água, esse líquido maldito pra fora dessa boceta, garota! não para! não até que todos os mares sejam seu! se parar, que tipo de humano mais-que-vazio pode ser você? força e força! só não caga! senão vai ter que começar do zero, e o zero é o vazio, o círculo perfeito que encerra em si mesmo o que não pode ser nomeado senão pelo que você está sentindo! e você sabe que esse “você” é “eu” e não pode me separar jamais de você, porque eu! vai, força e retenção! força e retenção! Deus meu… que… que… altura!

Agora chega. O que ela sentiu é dela. Mas agora para o que nos é de direito. Caída na cama, voltou a dormir, pés no travesseiro, boquiaberta, os braços e joelhos machucados de se sustentar, embora isto seja inexplicável, dada a macieza da cama. Eram machucados de quem se arranhou. Descoberta, a camisa quase despida na altura dos peitos, o short jeans começa a querer rasgar, mas se conserva íntegro, os pelinhos de suas coxas e panturrilhas nos direcionam para os tornozelos nus, de cujo cume vemos a imensa imagem na panturrilha direta, um círculo, cujo final abre passagem para um pulso empunhado.

Suada, suadíssima (quantas vezes já falei isso aqui?), seu desejo é de nunca mais se levantar, cansada do que deu, em vistas do pouco que recebeu. Ela sabe que está sendo injusta. Tanto deu porque algo recebeu. Depois de recebido, o problema não é mais de quem lhe deu. Ela é a grande feitora de tudo isso. Não uma responsabilidade, mas uma expansão (de direito? Certamente). E em seus olhos cansados, via-se o grande mar esclerótico, estático. Talvez (quem sabe) seja essa a primeira vez que dorme com um comichão de sorriso nos lábios.

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Caravaggio - Amor vincit omnia (1602)

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