Schall und Wahn

O poder que a arte tem de prolongar a vida: Shéhérazade o conheceu.

O poder que a arte tem de prolongar a vida.

Som e fúria

É incrível e triste a competência que o mundo tem de nos tornar perversos e atrozes nas nossas relações mundanas. É incrível como nos perdemos nas brumas de nossos pensamentos aparentemente mais puros e não nos damos conta. A mais bela das peças eruditas nos transporta, como humanos, da pureza a sujidade em minutos, basta acabar. É incrível como, já impuros, pervertemos nossas relações, nossas distrações e nossas inclinações. Já não nos conhecemos, somos impuros. Tentamos compreender o que fizemos de nós e como poderemos, então, seguir adiante, nos convencendo com mentiras das nossas verdades, nutridas com sangue nos olhos, vaidosamente. Estamos fadados a diariamente olhar em olhos alheios e engolir em seco a verdade sobre nós mesmo, somos vulgares, inevitavelmente. Estamos, já impuros, obrigados a conviver em meio a porcos imundos, em meio a grunhidos lancinantes em busca de redenção.  Somos quem podemos ser. Somos aquilo que não se impôs. Somos produtos de uma natureza pervertida. Somos escravos da linguagem, reféns de nossos corpos, impuros, imundos, titubeantes e covardes. Somos autômatos. Somos influenciáveis, sugestíveis e manipuláveis das maneiras mais deploráveis, burlescas, cínicas, zombeteiras e jocosas que podemos imaginar. Somos humanos, imundos, impuros, autômatos, covardes, asnos; somos escravos, de nós mesmos, da nossa consciência, passividade, mesquinhez. Somos, além disso, criadores imperfeitos, pervertidos e cruéis com a nossa arte, não sabemos apreciá-la quando temos a luz de criá-la. Somos criadores e criaturas, vagando nas brumas (im)penetráveis do nosso ser, tentando compreender, tentando dominar. Somos aquilo que não podemos ser, mas em que nos tornamos, naturalmente? Mas como ser antinatural? Choremos a moral e a linguagem, ainda que apreciando-as como uma tentativa de sermos humanos. Sobretudo sorriamos à música, e à doce sensação de liberdade que temos na loucura dos nossos pensamentos lúcidos, solitários e noturnos. Sorriamos à lembrança de que toda tentativa e experimentação seja uma forma de arte, ainda que imunda, muitas vezes libertadora e alegre. Sorriamos ao espaço e ao tempo que nos lambem a pele e nos sussurram os ecos do porvir que cessam lentamente a reverberação dos nossos gritos de socorro.

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