Nihilismus

lokura

Tenho vontade de não aguentar mais as vicissitudes de minhas tristezas. Tenho vontade de cegar e ensurdecer-me de todo o mundo, para que eu não precise mais justificar as minhas fraquezas e nem enfrentá-las. Superá-las parece-me algo sem sentido. Quem sabe não sejam fraquezas e sim a simples luta contra a aquilo que não precisaria ser. Não querer tornar-se o que não se é. Meus passos carecem de sentido, geográfica e psicologicamente. As minhas vontades são norteadas por deveres civilizados, fracos, lancinantes. Ainda que o riso tome meu ser vez ou outra, ele já não faz sentido nesse coração niilista incorrigível. Talvez devesse esquecer de tudo que não precisa ser lembrado e vagar até a morte errante em cima da terra. Talvez devesse apenas não ser, não explicar, não justificar, não lembrar, não me preocupar. Talvez devesse apenas encontrar o lugar mais belo e ali ficar até meu corpo apodrecer inerte às intempéries do mundo. Já não tenho mais palavras para mentir pra mim diariamente de que essa vida é bela e que vale a pena. Não tenho condição mental de suportar a vida como é, as paisagens e cenários repetidos. Talvez devesse acabar abruptamente com tudo. Sem dor, sem sofrimento, sem espera. Por um ponto final naquilo que não precisa ser.

Wie traurig, nicht blühen zu wissen

Que triste não saber florir

Sentado em sua eterna mansarda, no sol poeirinhas iam de um lado pro outro – para quantos universos ainda não se abriu o homem! –, tomando ar cada vez mais profundamente, suspirando como se aliviado, numa acídia de palma da mão direita na bochecha, dedos tocando a orelha, lábio superiorizado involuntariamente, pensa e pensa sem mais parar, quantos cujos passados lhe pesam na consciência de não ter feito algo, ou pior, de não ter conseguido, parecia num exercício intenso de respiração, de um a vinte cinco, mas só chegando no último passando sempre por todos os outros, e outrossim seu tempo passava, cada segundo só poderia ocorrer se todos os outros de toda história universal até aquele segundo ocorresse e lhe viesse à mente, teria esse homem nas veias os princípios do eterno retorno?, e remoendo suas entranhas, o homem pasta a grama de sua consciência. Culpa? Ele poderia estar pensando em culpa, mas sabia que não era bem por aí o caminho. Mais um e mais um segundo, e eis toda história em seu corpo. Aquela mulher. Sujeitava-se cada vez àquelas poeirinhas de ar-sol, algumas maiores que outras, algumas se depositando no chão, no seu cabelo, roupa, e aquela mulher de novo… Pensaria que, em algum vão desses segundos, como quando a lebre nunca consegue alcançar a tartaruga, poderia se imiscuir e destruir justamente aquele instante, pequeno e de ato sem volta. Culpa de novo? Sua ou dela? Ah, mas ela não era e nem poderia ser dada a culpas, de novo era engano dele, de sua faculdade julgadora cheia de dedos, então eram o suficiente aqueles acontecimentos temporais? De seu momento para o anterior, de seu corpo para aquele outro, e principalmente para aquela outra, era apenas o tempo que separava? E os segundos nunca paravam, todas as guerras em suas veias e artérias rodando do coração pro corpo. E de novo sempre aquilo. O que há de irreversível no passado há de imenso no presente. Isso ele sabia, mas só não sabia como estar. As rugas vão surgindo, e o mar de poeira já abaixou, não entra vento pela janela.

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