Wie traurig, nicht blühen zu wissen

Que triste não saber florir

Sentado em sua eterna mansarda, no sol poeirinhas iam de um lado pro outro – para quantos universos ainda não se abriu o homem! –, tomando ar cada vez mais profundamente, suspirando como se aliviado, numa acídia de palma da mão direita na bochecha, dedos tocando a orelha, lábio superiorizado involuntariamente, pensa e pensa sem mais parar, quantos cujos passados lhe pesam na consciência de não ter feito algo, ou pior, de não ter conseguido, parecia num exercício intenso de respiração, de um a vinte cinco, mas só chegando no último passando sempre por todos os outros, e outrossim seu tempo passava, cada segundo só poderia ocorrer se todos os outros de toda história universal até aquele segundo ocorresse e lhe viesse à mente, teria esse homem nas veias os princípios do eterno retorno?, e remoendo suas entranhas, o homem pasta a grama de sua consciência. Culpa? Ele poderia estar pensando em culpa, mas sabia que não era bem por aí o caminho. Mais um e mais um segundo, e eis toda história em seu corpo. Aquela mulher. Sujeitava-se cada vez àquelas poeirinhas de ar-sol, algumas maiores que outras, algumas se depositando no chão, no seu cabelo, roupa, e aquela mulher de novo… Pensaria que, em algum vão desses segundos, como quando a lebre nunca consegue alcançar a tartaruga, poderia se imiscuir e destruir justamente aquele instante, pequeno e de ato sem volta. Culpa de novo? Sua ou dela? Ah, mas ela não era e nem poderia ser dada a culpas, de novo era engano dele, de sua faculdade julgadora cheia de dedos, então eram o suficiente aqueles acontecimentos temporais? De seu momento para o anterior, de seu corpo para aquele outro, e principalmente para aquela outra, era apenas o tempo que separava? E os segundos nunca paravam, todas as guerras em suas veias e artérias rodando do coração pro corpo. E de novo sempre aquilo. O que há de irreversível no passado há de imenso no presente. Isso ele sabia, mas só não sabia como estar. As rugas vão surgindo, e o mar de poeira já abaixou, não entra vento pela janela.

Pedro Henrique é como se chama. Mas ela se chama Catarina. Ah, Catarina, de que vale te dizer, quando já não sei mais o quê? Não é de se entender o que faz Catarina, é uma coisa distante, mas mais longe ainda de toda mitologia. Sua vida me clamava sem ter direções nem porquês, um olho, pois sim um só!, que me sugava, pantera que me atordoa, me captura, me comporta minhas não-dimensões, ah, caralho, quanta saudade, quanta vontade de pegar aquele espaço de nada do tempo, tic-tac, segundo indo e vindo com tudo de novo, instante de olho, aranha humana de teias variegadas, o que foi que você pegou de mim desse olho? De um para o outro, pois sim dois olhos ela tem, os tons do azul para um branco quase cinza, heterocromia, e como – e outro segundo! – você faz para que de um só olho pegasse meu rosto, como você me beija, se minha boca está ali em você? E no outro olho, aquele cinza lloydal, um passado celta de harpas se desdobra e sua boca emite os sons que ouvido algum poderia ouvir, e como só eu ouço senão por estar contigo? De um olho pro outro, uma harmonia de orquestra surge sem que o mundo tenha de ficar em silêncio – então criamos uma empola insulada do mundo, cuja matéria plástica é a solidão?

E te ver subindo aquela rampa, indo para a escola, quantos anos? – e mais um segundo… O horizonte um mar um ar. Ah! Suspiro o segundo. Seu cabelo ajeitado em rabo-de-cavalo, um pescoço limpo de humanidade, de cima seus olhos estão fechados, sua boca fechada, quase uma linha perpendicular à rua íngreme, e tenho medo de que você tivesse de levantar seus olhos levantados, que sua altura fosse a minha, que eu não pudesse mais desconhecer o poder de uma vida mais horizonte que todo o mar. Que rosto é esse que já conheço e desconheço? Seu corpo, nem magro nem gordo, segura com ambas as mãos, qual um bebê, os livros, de uniforme escolar, mochila pendendo do ombro esquerdo atravessado o seio de seus peitos para o flanco direito, você anda devagar para não cambalear, percebo. Amor à primeira vista? Nonada, como dizer que vejo o que desde o primeiro instante, inda que, aparentemente, sem querer, puxa pra dentro meu rosto e corpo, e me deixa meio que vazio, senão uma saudade passageira de ter voltado pro lugar? Ah! Como toda mulher, você me olha, mas é numa velocidade tão grande que quase não o percebo, você se desvia, não quer parecer oferecida nem ganhar fama de piranha. Logo atrás de mim, você e seu nome no ar, gritado por uma voz feminina – e mais um segundo… e o horizonte voltou, de alguma forma, só horizonte. A linha de sua mochila é maior? então é isso? Um começo sem zero.

Ei, me mostra sua esclera de novo? Sim sim, hah hah!, você sempre esquece, né? É o branquinho dos teus olhinhos. Vira como quando estamos juntos e você ri e aí não importa mais a cor de suas íris. Hein, hein, faz lua minguante. Quero saber o que é essa escuridão que você traz aí dentro. Porra, cara, você sempre faz isso. Nunca faz quando eu te peço, sempre vem com “ai, mas tem que ser espontâneo!” ou “não! você não manda em mim!”, sua cretina. Hah hah! Quero fazer ilha em ilha, quedê? Mostra essas escleras, mulher! Ou então me devolve o que você sempre tem roubado de mim! Você nunca nem me pediu permissão, ora porra. Ah, sempre se fazendo de ingênua, né? Qual o problema de vocês falarem sem labirintos? Tenho cara de Teseu? E você é um Minotauro? Ah, é? Hah hah, sempre soube que você era um monstro. Mas também é Ariadne, sua linda. Como lidar? Vai, mostra esse branco sem buraco negro que eu faço o que você quiser depois, afinal de contas, quando não fiz? quando que não fui seu? Que vontade de te agarrar! Esses cabelos, esses peitos, esse pescoço, essas coxas, e pés, como posso estar sentindo isso tudo e te ver? Como você consegue me pegar assim? Não era pro homem ser o ativo? Nah, eu sei que essas ideias não são minhas, mas é o ambiente, né? Óbvio que eu e você já somos outra coisa, outra história. Hah hah, verdade, de que vale o tempo passar e todos os livros de história pegarem-no de algum jeito? Como pegarão isso que estamos? Eu sei que soa estranho, mas você sabe que não gosto do verbo ser nesses momentos, é tão eterno e mentiroso. Aê! Peguei! Sabia que você ia rir alguma hora e me mostrar essas luas que o mundo não tem! Me dá teu pescoço aqui.

E se vale a pena sequer é uma pergunta. O tempo que corre em suas veias não tem matéria senão o presente. É visível em suas montanhas rugosas, sua costa quase gibosa. Quer marcar em seu corpo o relevo da linha daquela mochila? As probabilidades ficam loucas quando nem elas sabem onde se apoiar. Sentado continua, sem ter muito para onde querer ir. Sem perceber – como cada segundo de uma vida –, seu corpo começa a ter alguma força, a escoliose fantasmática fora-lhe incumbida em escuridões de chão firme, e parece que só quando pôde sentir todos os eventos da humanidade no espaço de um sorriso, heterocromaticamente de novo, ríctus de culpa e sociedade lançados ao abismo do eterno, uma viagem em direção àqueles olhos, sem de novo – mais um segundo, e nenhum tinha ainda o que faz –, sai de sua cadeira e vê que nunca esteve só em mansarda, nem só sentado, o tempo que passava passa. O horizonte novo. As poeiras caem de seu corpo, se levantam do chão, o sol lhe invade o corpo como aqueles olhos, um só. Para o qual olha diretamente. Como? É de noite onde ela está? Não importa. E onde ele está? Agora desconhece a mansarda e a história. E sua vida plenifica nos pés.

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Conrad Roset

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