Nächtlicher Spaziergang

Passeio noturno

Sempre é necessário um novo recomeço para cada coisa que se escreve, para cada página, frase. Como um looping eterno em busca da perfeição, ou da total desgraça. Como controlar os dedos titubeantes e culpados do autor? Como suportar a vida? Como prosseguir? Repouso num dos cantos de meus aposentos, já passa da meia noite. Minhas pernas estão cansadas, meu corpo exaurido, exalou o dia inteiro o suor para conter o super aquecimento da máquina na qual estou preso, sinto o doce desgaste e a doce inundação de endorfina no sistema. Meu corpo repousa. Meus ouvidos escutam o canto que veio ao mundo por Bach,  Matthäus-Passion. Meu olhos contemplam uma árvore que repousa taciturna, adornada meticulosamente, com luzeiros coloridos, num canto da sala escura. Inclino a cabeça para trás, dou-me por vencido, acabam-se para mim as perspectivas futuras de sequência da sucessão de quadros repetidos. Inclino a cabeça para frente, sirvo-me de uma taça de vinho que descansava o tempo todo na pequena mesa ao meu lado. Passo a mão nos meu cabelos molhados de modo a jogá-los para trás. Inspiro, de uma vez só, todo o ar da pequena sala, e num segundo, após a retração, inundo a sala de gás carbônico, mas a natureza se encarrega da posterior homeostase. Fecho os olhos, estico meus braços para cima, contraio toda minha musculatura, formo na poltrona um arco jogando meu corpo violentamente contra a mesma. Levanto-me, afasto o tapete, começo a despir-me. Deito-me nu no chão com o abdômen voltado para as entranhas da terras. Estico meu braços e viro a cabeça de modo a ficar com minha face lateralmente apoiada no chão. Encolho-me na posição fetal no chão gelado. Levanto. Arrumo a desordem. Caminho até minha sala de banho. Abro o registro d’água na sua temperatura natural. Sento debaixo do curso d’água e ali fico até o alvorecer, tentando escorrer junto das águas as minhas impurezas. Tudo por ser humano, em demasia. Como poderia, no entanto, fugir disso? À vontade

Katzenfängermaus

Christo Coetzee - Janus

Rato pega-gato

Lembro-me – estou sentado em minha poltrona, olho pela janela o clima vasto, impregnando a relva de um verde forte, minhas sensações são um trampolim entre abismos – e me lembro de quando nos deitávamos juntinhos, ainda tão-cedo tão-breve nossa relação era!, bem juntinhos na cama de sua casa a qual roubava pra mim em minhas odisseias de alegres ao teu encontro, tu, rainha de meu viver, serpente do eterno bem, cujo veneno é vida, incessantemente contínuo; e ao sentir teu corpo junto ao meu, horas plácidas de profundo estanho, suas profundezas são nossa superfície – um singular tão forte pesa nesse nosso dessa superfície –, cheiro teus olhos, tua boca, teu pescoço, teu nariz, o cheiro que tu cheiras cheiro, e uma homeostase homoestática vibra de suas cores recém-natas para as demandas do dia. Você entrou no meu quarto, tão bela de ser apenas sua silhueta o que via, e você me vendo num filete de luz fraca, saída da janela de cortinas tão suaves, falou comigo e me ouviu em espanto de comprovar-me desperto, e você se deitou comigo, ah! e veio de beijos e corpo velado pela timidez casta de sua alma, seu pijaminha me permitindo sentir-lhe as pernas sobre as minhas, vestidas de calça de algodão cinza…

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