Worten

No fim são as palavras que sempre me sobram. Elas estão presentes em todos os momentos, recheando meus pensamentos, saindo como trovões de minha boca em momentos de descontrole, estão expostas em todos os lugares informando sobre a vida que por aí está, lembrando-me, quando abro os livros de história, do passado. Eu gosto das palavras, sobretudo das palavras que meus olhos veem, sinto-me mais eu, sinto-me inteiramente responsável pelas ilusões que elas me levam a viver, e sempre desconfio das palavras que meus ouvidos ouvem. Gosto da descoberta inocente das palavras e da pronúncia inexata que eu lhes atribuo. Por vezes, com uma frequência sazonal, aborreço-me com a vocalização das palavras, com o pouco caso com que todos têm, desperdiçando-as, dizendo-as frivolamente, nas cotidianas conversas encenadas, repetidas e sem vida.

No fim as palavras são nosso grande instrumento de vida. São capazes de nos fazer mudar o rumo de nossas vidas. São capazes de nos transformar, de nos fazer praticar as mais variadas ações. De nos fazer amar, de nos prender a um lugar ou de nos libertar e dispersar nossos passos mundo a fora. Elas nos despertam sentimentos vários, nos fazem passar da paz a guerra e vice-versa. Deem-nos mais palavras, deem-nos mais ilusões, deem-nos mais conceitos, deem-nos distrações mais profundas, deem-nos problemas mais complexos, usem as palavras de modo mais nobre, para mais um dia continuarem distraindo-nos da vida, ou até mesmo na vida, que no fim das contas dá no mesmo!?

No fim continuarei a entediar-me, sazonalmente, da sequência sucessiva das cenas repetidas, das palavras repetidas, dos conceitos rasteiros, das paisagens que outrora eram pura poesia, da vocalização das palavras carinhosas e brandas de minha progenitora. Continuarei a entediar-me com tudo, a querer por um ponto final nas palavras, na vida, nas ilusões. Não obstante, serei grato, sempre, pelas palavras que carrego em mim, que deixam-me sempre com sede de mais palavras, mais ilusões e portanto de mais vida. Serei grato por ter atravessado um deserto, em silêncio, com a ajuda das silenciosas palavras que meus olhos conhecem bem. E buscarei entender a vida, o silêncio e a palavra necessária, para extrair mais vida da vida.

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