Overclock

É um dia quente, tão quente que machuca proteger os olhos. O mato está bem seco — e ainda é manhã —, do outro lado sente-se o cheiro terrível de mato queimado de sol. Lá, é como um paraíso de sons de folhas secas a serem pisadas. O céu está tão liso quanto a pele de alguém. A umidade do ar piora tudo. Plantas rasteiras, por algum motivo, como que para rir de todos os que as veem, têm flores em botão, em direção ao sol e chamando-o para mais perto, como que para lhe contar um segredo: “Mais quente, seu broxa”. Flor filha da puta.

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Ein Spaziergang

Um passeio

O triângulo marrom claro de telhas que algumas casas formavam, refletidas pelo sol, cor de pão que passou do ponto, uma maciez que existe mais nos olhos que na realidade de barro cozido, o chão de asfalto, repleto de buracos, causados pelas chuvas, quente, levantando adiante um muro de vapor distorcendo levemente as formas da rua, árvores formando sombras impossíveis de estar sob, longo retângulo de um campo de futebol, de terra batida, traves bizonhamente feitas de PVC, travessão caindo toda hora, embora haja aí improviso bonito de se imaginar, sem rede e pessoas, mas é feriado e aquele campo esteja implorando para ser usado, só os ritornelos dos pássaros não sofrendo da ondulação oceânica do sol, exibindo sua vantagem de estar em árvores, não sofrendo de um calor que impede o mínimo toque de amantes, nem mesmo um suor pra tranquilizar o corpo, seca rapidamente, axilas, bundas e genitálias felizes de serem “a vergonha dos humanos”, esconsos na escuridão, mesmo quando expostos, poucas vezes assistem a esse espetáculo, onde alguns imporão a dor, impotência e desgraça, onde outros, no mesmo lugar, sentirão alegria, potência e amor: uma libélula, cega, pousa na cabeça de Evandro, assustando-o pacas, enquanto Giselle, em seus cachos-babylisados, se encosta no muro de chapisco para não cair de tanto rir, olhos entrefechados, bochechas recheadas de carne pronta para coçar os dentes de Evandro quando preciso, magrinha como não poderia deixar de ser, flor frágil que ainda pouco entendia, pelo que Evandro podia perceber, do que era capaz verdadeiramente, risada coceguenta, acompanhada de um longínquo eco que percebiam mas do qual nunca falariam, faz ele rir também e esquecer o palor físico imposto.

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Was ist das Leben?

Nós não sabemos quem somos! De nós mesmos somos desconhecidos. Fomos induzidos a sermos da maneira como somos pela família, pelo meio onde crescemos e tivemos as nossas impressões do mundo, impressões essas tidas com os olhos turvos dos preconceitos milenares. Há entre nós aqueles que julgam ter uma clareza superior, de onde é possível entender a história e sair fazendo apontamentos sobre o mundo e tudo o que nele foi, no que nele é e no que nele deveria ser. Há entre nós, os céticos, livres de qualquer crendice e de sistema de pensamento, comportamento, entre nós, os niilistas mais incorrigíveis, os que julgam-se mais puramente livre de qualquer ilusão acerca do mundo e de qualquer certeza. Há uma coisa terrível para nós, a certeza, a única, de que estamos participando do eterno espetáculo de horrores da capacidade humana de criar pensamentos, sistemas de pensamentos, inúteis, que nos distraem enquanto vivemos e nos levam mais longe e nos deixam mais confusos quando temos que responder a pergunta: o que é a vida? Eu, como homem pós-moderno, posso entre outras respostas superficiais responder: a vida é o eterno parecer inerte, observando o espetáculo que se criou, a constante homeostase entre as forças, o domínio delas, a neutralização da vida, como um gorila que experimenta uma boa dose de acepromazina e se rende àquilo que aconteceu. Afinal, nunca saberemos e seremos capazes de entender que somos um absurdo. E seremos sempre guiados de mãos dadas pela vida, dando e recebendo a pílula de como compreender tudo e sermos sábios ou conhecedores.