Gebet zum Wind

Oração ao vento

Preciso praticar. Estou deitada na cama, pernas flexionadas, os joelhos pra cima, pro teto, as solas dos pés tocando a cama que ainda tenho que fazer, o lençol está desarrumado, várias dobras, é que eu saí do lençol chutando vento, porque está muito quente e não dava mais, eu hein, nem sei como dormi com isso, será que estava frio de noite? ai, que saco, esqueci, não sei, enfim, as pernas estão desse jeito, que mais? as coxas descendo, até chegar na bunda assentada na cama, apoiando as costas que param na cama, deixa eu ver se disso eu me lembro, atrito é contrário à direção do movimento, por isso também que estou paradinha assim, é, deve ser isso, tomara, as pernas estão abertas, caramba, que calor, a saia mostra um pouco da dobra dividindo as bandas do meu bumbum, a perereca paralela à porta mais ou menos fechada, não sei por que agora me lembrei daquela música, “Vampiro”, do Caetano, aquele lindo, que homem! esqueci o nome do álbum, depois procuro, acho que vou ficar menstruada, já era pra ter chegado, eu hein, enfim, minha barriga aqui mostrando um pouco do umbigo porque a camisa está um pouco pra cima por causa do atrito e tudo mais, ela também tem curvas, vincos, é uma palavra melhor, que bom, hoje não acordei com gases, ó só, barriga lisinha, mas então, ah, meus peitos estão sentindo o algodão com poliéster, 50/50, por isso tá um pouco durinho os biquinhos, meu pescoço está um pouco escondido pelo falso papo porque minha cabeça forma um ângulo reto com o tórax, logo logo vou é ter um puta torcicolo ou só vai doer mesmo, tem a louça de ontem ainda, cacete, mas enfim, por fim mesmo agora é meu cabelo que está aqui em cima normalzinho, será que hoje passo o baby liss nele? tem igreja hoje, tenho que ficar de olho no outro lá, enfim.

Estou com o celular entre as duas mãos, duas estátuas, um riacho entre eles, um fluxo de informações vindo, vindo e indo invisivelmente, ricocheteando nas paredes mas nunca se detendo, seus átomos penetram tudo, a terra perde seu tamanho face à forma minúscula de uma onda. E é de novo ele, um monte de mensagens, de, novo. Preguiça de ler. Não dava para ter ficado como estava, terra? Deixa ele lá bem longe. A janela está aberta, só por isso que acordei, embora não seja tão grande, a luz do sol um prenúncio de mais um dia quente, o silêncio da manhã, quando há algumas árvores lá fora, nenhum vento, só os pássaros, sabiá-laranjeira e o só sabiá, aquele de peito amarelo, o laranjeira está cantando aquela canção descendente, cromática e tão tristinha, por que isso a essa hora, normalmente o faz no fim da tarde. Ontem não consegui terminar de ver o filme, a televisão não foi desligada direito, deve ter sido minha mãe. Só dá pra ver um pouco, o céu está bem azul, nuvens radículas, neurônios no céu, dendritos sem axônios, Deus deve ter alguma condição mental séria, que tristeza esse homem. Mas são poucas as árvores, uma araucária pequena ainda, um ipê sem as flores bonitas e as sem graças, fazem nada, nem sombra no zênite dão, que calor de ir pegar água. Não dá pra beber desse riacho, e eu não quero ir ver o que ele falou, doze mensagens, puta que pariu, deixa eu acordar pelo menos. Porra. O chão é de taco, marrom escuro, e ainda assim deve estar quente. Nada refresca, e eu tenho muito o que fazer hoje, dia cheio.

E o quê? Quando comecei a ficar desse jeito, triste e desmotivada pra tudo? Não quero e não vou ver, não suporto mais ler o que ele diz, não, hoje não, por favor. E não vale a pena lembrar, de novo e de novo, merda, de novo as lágrimas, hoje não, por favor, não vale a pena… lembrar do quê? Que não consegui de novo? Não, não vou completar a frase, hoje não, preciso de um tempo: não consegui e ponto. E de algum modo, eu ainda insisto. São os mesmos erros de novo. É preciso, ao menos, falar pros outros que, e ele principalmente, pra ele acima de todas, não pode pensar, posso dar nada além disso pra ele pensar, preciso que ele, lá bem lá, pelo menos acredite em mim, que eu não sou o que ele diz que eu sou. Mentira, cacete. Não venha falar de mim, cara, você não pode, não tem o direito, só porque tá aí todo longe, de vir me dizer o que eu não quero que você saiba sobre mim, não adianta, pode tentar me dizer pra ser diferente, todo cheio de dedos e jeitosinho, e você acha que eu não sei disso! diferente, mais tranquila e ativa… realmente acha, e acha tanto… que eu sou forte, dizer isso, preciso acreditar até esquecer. Meu Deus, parem com isso, olhos do inferno, não vão descer suas lágrimas sobre mim, para. Vocês ainda não entendem que não convém? Por favor, hoje, um intervalo de vinte e quatro horas dessa sessão de silêncios que tem sido minha vida — desde quando! ninguém diz. Que inferno não lembrar um só momento alegre; tudo acaba, e resta nem um silêncio de um deus infernal me mandando calar a boca, um eco que seja. Entenderam agora? Pera um pouco cérebro, deixa eu coçar aqui na coxa que tá coçando. Espera, porra! Não me deixa nem coçar, eu hein.

Hmm. Ai. Esqueci.

É mais fácil olhar debaixo da janela, aquele ângulo reto sem celular entre mãos. Começou a doer o pescoço. Começou a doer tudo, isso sim. Mas que vocês não se enganem, eu amo aquele moleque. Lá longe, mas amo, fazer o quê? “A noite veio. As montanhas e o céu são uma só massa agora, como nós dois deitados.” Já tem um tempo isso, não esqueço. E nem tínhamos nos deitado ainda! Como ele sabia? A noite ainda não tinha acabado, começava, ele já estava acordado e eu achava que lhe faria uma surpresa. Cacete, eu falei, baixinho pra não acordar meus pais, e minhas lágrimas não param, estou tremendo e não entendo, você já está acordado? “Lógico. Não durmo muito, eu não te disse?” Não queria nisso ouvir que ele se contenta com pouco, do que me desvencilho logo pra senti-lo. Nesse dia, a noite é branda e um vento invade o quarto, sinto frio e o chilro dos pássaros se dissipam melhor, ouço-os pouco, o espaço é mais nosso agora, intrusos incorpóreos não têm a chance de nos observar, nem as paredes fixarão ouvidos em nós, estaremos sozinhos, sim! E caramba, o pinto dele já tá duro, em cima da minha coxa direita, nua, ele usa uma calça de algodão maciazinha, cinza como esse vento, os cabelos revoltosos, ele deixa o rosto limpo, joga-os pra cima e já está de óculos, o beijo dele. “Tem uma autora, é… é… in, inglesa, quer dizer, estad-unidense, que meio que t-traz de voltta a discussão sobre o belo na academia. Ela diz que o belo, tipo são quatro erros nele, um deles é o que ela chama de undercrediting e o oposto o ov, overcrediting, que dá pra traduzir por subestimar e sobrestimar, n, né? E-e eu acho que cometi o pprimeiro contigo.” Não, cara, não, será que contigo tudo se reduz a pensamentos e mais pensamentos? Porra, esquece isso, a gente conversou ontem sobre uma parada de mais de um ano atrás e você não esquece? É difícil suportar isso às vezes, tenho que fazer cara de boazinha e tentar ver o que… Sei lá, confundi. Não, não, vou virar a cara pra ele, se é pra ficar nessa, vou é ficar mexendo no celular mesmo enquanto ele me abraça, porque ele vai, já está e não suportará eu ficar mexendo no celular. Ele odeia isso, diz que quando quer sair de casa, é sair pra valer, que não quer isso, aí tem um celular antigo, que às vezes falha nas mensagens, uma bosta. Lá vem ele tentar tirar o celular de mim, eu não deixo e ele me beija no pescoço, tão melhor, quem dera ele fosse mais leve como quando me beija ou fica quietinho. Um gago que não fica quieto… eita, calma, não é pra tanto. O pinto dele faz uma parábola na minha bunda, curva perfeitinha, faz cócegas haha. Não passa pela minha cabeça que ele quer transar comigo, que ele pensa nisso e que mais tarde ele vai me dizer que trouxe uma camisinha pra cá. Sério, viu. — Ar… vi e sinto. No dedo do meio, ele tem um calo, pequeno, na ponta à esquerda, sudeste do centro das espirais que o assinalam único. Os outros dedos têm nada, só ele em mim. Me afasto um pouco a bunda pra ele parar de charme. E pra ele vir de novo. Vem, não me deixe aqui sozinha, para lágrimas, hoje não, e se fecho os olhos de nada adianta, não tem vento e minha garganta está seca, dói o pescoço, e eu não quero ler aquilo. Doze mensagens, mandadas de madrugada. Não, ele não vem, por favor, entenda que eu não tenho forças, preciso de você… mais do que posso dizer. Mais do que me deixam dizer. Esses demônios não me deixam em paz, estou entre quatro paredes em todo meu corpo. Prisioneira, não consigo correr fora dos sonhos para fazer meus ventos, num tempo de planícies verdes e você logo ali. Se vira, se vira. Te alcançar é me perder, e eu não tenho mapa. E você tem tantos. Me dá o meu, sua mão de dedo do meio calejado. Me tire o cansaço, me prenda a você até sufocar, não se importe, continue. Me faça de cavalo, você que bem sabe ser égua. Um vento.

Ai, AI. Agora tá foda o pescoço, puta merda. Pronto, sentei com as costas no travesseiro e na parede. Olhar pra janela e ver que o tempo não perdoa. Logo logo vou começar a suar. Mas nem fudendo que vou ver esse monte de mensagem.

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