Ein Spaziergang

Um passeio

O triângulo marrom claro de telhas que algumas casas formavam, refletidas pelo sol, cor de pão que passou do ponto, uma maciez que existe mais nos olhos que na realidade de barro cozido, o chão de asfalto, repleto de buracos, causados pelas chuvas, quente, levantando adiante um muro de vapor distorcendo levemente as formas da rua, árvores formando sombras impossíveis de estar sob, longo retângulo de um campo de futebol, de terra batida, traves bizonhamente feitas de PVC, travessão caindo toda hora, embora haja aí improviso bonito de se imaginar, sem rede e pessoas, mas é feriado e aquele campo esteja implorando para ser usado, só os ritornelos dos pássaros não sofrendo da ondulação oceânica do sol, exibindo sua vantagem de estar em árvores, não sofrendo de um calor que impede o mínimo toque de amantes, nem mesmo um suor pra tranquilizar o corpo, seca rapidamente, axilas, bundas e genitálias felizes de serem “a vergonha dos humanos”, esconsos na escuridão, mesmo quando expostos, poucas vezes assistem a esse espetáculo, onde alguns imporão a dor, impotência e desgraça, onde outros, no mesmo lugar, sentirão alegria, potência e amor: uma libélula, cega, pousa na cabeça de Evandro, assustando-o pacas, enquanto Giselle, em seus cachos-babylisados, se encosta no muro de chapisco para não cair de tanto rir, olhos entrefechados, bochechas recheadas de carne pronta para coçar os dentes de Evandro quando preciso, magrinha como não poderia deixar de ser, flor frágil que ainda pouco entendia, pelo que Evandro podia perceber, do que era capaz verdadeiramente, risada coceguenta, acompanhada de um longínquo eco que percebiam mas do qual nunca falariam, faz ele rir também e esquecer o palor físico imposto.

Tiveram sorte, a rua anterior é uma descida e agora é uma reta, nada de subida, pois ela mora no meio da descida. Casa relativamente grande, mas simples, como um almoço de Páscoa. A mãe e o pai de Giselle, dona Clotilde e seu Jão respectivamente, estavam trabalhando. Ela trabalha como secretária de um advogado famoso na região, Everaldo Andrade, homem sempiternamente vestido, segue-o onde quer que seja, reuniões, entrevistas com clientes e a imprensa, quando convidado para dar uma aula ou palestra em faculdades ou colégios (e sempre acabar com sua típica piada: “Bem, até uma próxima vez, rapazes.”, mas poucos entendem ou prestam atenção), dentro de sua bolsa a agenda Ivory com papel marfim e a caneta esferográfica Veneto, prata, fina e tão linda e cara que você nunca viu, tudo bancado e devidamente presenteado para a melhor performance e condizência por Everaldo. Quanto ao seu Jão, ele é dono de uma loja de informática numa galeria do centro da cidade, venda, manutenção, troca, jogos, fones de ouvido, teclados e mouses, já fizera curso de programação de jogos, sabia com certa destreza ler linguagem C#, Assembly e Java, mas é um homem simples, com bem menos pretensões que a mulher. Ambos são brancos e têm cabelo, dito, bom, o que favoreceu Giselle na hora de prendê-lo num rabo de cavalo ou coque, amém. Eles estavam fora, enquanto os adolescentes estavam dentro um do outro, a casa é protegida pelas árvores e paredes, permite refrescância e toque, ora no outro, ora no celular. Nada de camisinha, ela toma as pílulas e ele, cuidado. Tiveram a ideia de sair para comer, caminhar e botar o papo em dia, seja qual for.

— Eu e minha mãe tivemos mais uma discussão, Vando — começou ela após a crise de riso, contração de barriga e dor de bochecha, de chaira —, ela começou a falar de novo sobre eu precisar estudar mais, escolher logo uma carreira. Enfim, que calor.

— Mas então você não acha que ela tá certa? É bom, amor, ser forçada às vezes a fazer coisas que a gente não quer, pra gente não ficar parado, enferrujar e tal.

— Acontece que eu nem sei se quero fazer vestibular esse ano.

— É, me lembro, você falou.

— Não sei o que fazer, faço a menor ideia mesmo. Eu ainda sou nova, cara, e eu sinto que dá pra esperar, sabe? É sempre a mesma história, a mesma pressão, e então vêm as sugestões, que nunca acabam, aí quando me estresso e mando ela parar, ela para, mas aí logo logo, às vezes no mesmo dia porra! chegam as insinuações, as indiretas bem diretas, e que tento abstrair, mas… ai, chega, que saco isso.

— Dá pra esperar sim, linda, lógico que dá, mas até quando? Eu te entendo, mas eu também entendo o lado dela. A gente conversa… não, pera, me ouve, sério: a gente conversa, aí ela, tipo, ela sempre tá muito preocupada contigo, ela quer que você seja feliz. É, eu sei, felicidade ao estilo dela. Teu pai que é mais tranquilo, sempre me fala que deixa vocês se resolverem, mas que tá beeem tranquilo, porque confia em você.

— Meu pai sabe das coisas, manja bem, o perfeito contraponto da minha mãe ansiosa e elétrica. Eu puxei a ele, pô, não dá, eu sou tranquila, tenho meu tempo, meu espaço, minha lógica: dá pra esperar, então espero. E não vou ficar fazendo curso que ela quer que eu faça só pra suprir buraco financeiro. Foda-se isso. O negócio, e todo mundo já entendeu isso, até quem não faz isso, é você fazer o que gosta, o resto é consequência.

— Pixinguinha, Schubert, né. Pessoal morre literalmente de fome, mas é isso aí. Você tem razão, e é bom que saiba que eu te apoio sempre. Mesmo que você queira fazer na-da. Você arranja o que fazer, sei lá, tanta coisa pra estudar, pra viver, não dá pra ficar preso. Eu to lá na faculdade mais porque eu quero depois sair de lá, é puro meio, meio do caminho e tal… não, mas não é pedra, não incomoda, sacou?

— E ainda assim você está sempre reclamando.

— Ah, mas é contigo, poxa, e só. Eu gosto de conversar contigo sobre tudo. Mas o incômodo é diferente. É tipo você com a tua mãe, é uma coisa que vai passar, você vai embora de casa, vai viver a sua vida, visitar de vez em quando e tal. É o que eu quero com a faculdade. Um incômodo passageiro, que eu tento transformar em algo bom, mesmo que não seja, ou sei lá o quê.

— Hum. Saquei.

Um tempinho pra enxugar o suor da testa e abanar o tórax com a camisa, como uma cuíca. Chegaram na primeira de uma série de curvas até terminar na praça, lugar com bancos de concreto, de madeira, balanço e escorrega de um lado, mesas com padrões de tabuleiro de xadrez, sobre o qual também jogam dama. Nunca vazia, nem de madrugada, quando as baratas fazem companhia aos bêbados e fumantes, tem a ótima qualidade de dispersar o som num buraco negro após chegar ao destinatário. No entanto, essa é a pior hora, irão para os bancos em frente ao bar, fechado agora, chamado “Vovô só quer de graça”.

— E a escola hoje, hein, como foi?

— Mesma coisa de sempre.

A distância aumenta de um modo pouco voluntário. O calor não tem mais a ver. Evandro começa a andar olhando pro chão, ombros levemente voltados para trás, o cabelo causando uma sensação nervosa com as sobrancelhas, sabe-se lá como. “Sempre isso, sempre isso. Essa frieza desmotivada. Que saco, e eu tentando ser legal, perguntar sobre a porra do dia dela, andando nesse calor do capeta infernal. Por que ela faz isso? Me sentir culpado, um chato, um obsessivo, como se eu fosse isso tudo, mas eu não sou. Ela não falou sério daquela vez, eu sei que eu não sou. Ela mesma falou que tinha sido da boca pra fora, cacete. Pediu desculpa e tudo. Então por quê? Meu pai sempre me diz pr’eu ficar mais tranquilo, que mulher é tudo igual, ora tá bem, ora te faz sentir a pior coisa do mundo. Mas não dá pra concordar. Olha só pra ela, uma menina tão linda e incrível. Ela não faz de propósito; eu que devia parar com isso. Eu fico carrancudo e a gente sempre acaba mal por isso. Não quero ficar desse jeito. Que inferno. Você não precisa ficar assim, só falar comigo, cara, melhor que ficar guardando, não adianta de nada — ela fica falando isso daquele jeito… sei lá, condescendente, nem sei o que diabos isso significa, porra. Mas e se eu falo, ela não vai querer conversar, que coisa engraçada! menina bonitinha!, e então vem e eu vou me sentir mal de novo, a porra de um peso. Foda-se.” Nesse ponto, apruma a cabeça e olha o céu, cirros macios como uma planície, vento nenhum, rua pequena entre dois montes, um córrego do outro lado quase seco, a calçada de lá tem pontos de ônibus, carros estacionados em cima dela ou na rua, de qualquer forma dificultando o trânsito de mão dupla. Giselle não o olha diretamente. Ele sente que ela o vê; seus soslaios são terríveis, fina serpente, alfinete pronto para pespontar, os fios sendo suas próprias tripas. Se prepara que lá vem bomba, ele bem sabe: esconder qualquer coisa dela é o que não dá. De repente, a rua se abre inteiramente em três direções, oés-noroeste, és-sudeste e um norte bem patente para que ninguém se perca, onde se encontra o parque, a essa hora algumas crianças brincam, babás babam sob a sombra encontrada, mães idem, e agora os dois amanteszinhos, de mãos não dadas, Evandro com o cenho levemente franzido — ele tem essa maldita mania de não querer ter rugas ou pé de galinha mais tarde, pensa Giselle, contendo um riso, mas não um sorriso —.

— Mamãe hoje vai pra igreja depois que chegar do trabalho. Não sei se vou. Quero encontrar lá o Rodrigo. Meu melhor amigo, não lembra? Ele estava na festa da Alice, não lembra? Sim, alto com cabelo de tigela, como você falou hah hah. Estou querendo falar com ele; faz tempo.

— Pode ir, ué.

— Eita que o ferreiro veio e eu nem vi!

— Você não vê muitas coisas, né.

Sobrancelhas levemente levantadas nas bordas, coro com a boca de dentes levemente amarelados. Seu rosto brilhava de sol e surpresa irônica. Evandro se limitava a não a olhar de jeito nenhum, claramente não entende de sutilezas periféricas, como uma boa parte dos homens sem dificuldades com mulheres.

— Tá bom, pode falar. O que aconteceu, hein?

— Você sabe e só quer me fazer falar. Então melhor não, falou? Que merda, sempre isso.

— Se é pra ficar assim, seria melhor eu nem ter saído de casa. Você do nada fica desse jeito e acha que tenho que saber o que você está pensando. Ficar dentro da tua cabecinha não adianta, não tem como eu saber, tem que falar mesmo, ou então se resolver com você mesmo as suas paradas e não ficar descontando em mim, se você não sabe conversar, né. Que saco.

— Bem, agora você falou bonito, hein. Que orgulho — e pega sua bochecha esquerda com o indicador e polegar da mão esquerda, como que querendo arrancar para si um pedaço de sua vida. — Eu sei que você tem razão… E você também sabe.

— E daí? Não é por aí, cara.

— É o que te dizem, né, algumas pessoas. Não faça isso comigo também. Direção, cada um tem a sua.

— Não quis dizer isso. É só que você tá se forçando, cara. Você não é assim, de vingança e essas coisas.

Uma menina de saia jeans e camisa de gola, que faz o favor de cair toda hora, pra sua indiferença ainda despeitada, cai perto do banco onde estão, quase que de cabeça no cimento, puta que pariu, agora ela vai começar a chorar, um silêncio de susto pré-choro, olhos arregalados, cabelo, preso em rabo de cavalo, espalhado pelo chão de terra. A mãe ou babá vem gritando pra ela se levantar e parar de chorar, pega-a pelo pulso direito e estapeia suas costas e cabelo sujo. Evandro e Giselle olharam assustados, mas ninguém ajudou a menininha de narinas abertonas, que horror, fecha isso, por favor (pensa todo mundo). Dois meninos, de short e descamisados, estão rindo à vera, prontos pra levar um esporro daqueles de quem quer que esteja cuidando deles, uma pequena lição de empatia, deve ser. E num momento silencioso a voltar, nem carro nem moto nem quase ninguém na rua, aqueles dois olhos que ele finalmente encara ao voltar para frente, e dos quais não sai, encimando um nariz reto e levemente aquilino, vontade de morder tudo eternamente, oceano de água fresca e chá.

— Você nem acredita em Deus — quase sussurrando, dirigindo os olhos pro chão, arqueando o corpo.

— Mas o Rodrigo acredita, por isso ele vai tá lá.

— Você já percebeu as iluminuras da igreja onde o Rodrigo vai porque acredita em Deus?

— Meio desnecessário, né. Mas sim, já vi. O que tem?

— São de França. Dá pra perceber pelo azul forte, os contornos mais bem definidos. Na época do império, encomendaram de lá algumas.

— Sim…

— No teto tem uma pintura, um quadro, o que por si só já é legal. Quer dizer, tem a moldura de um quadro pintado, você já deve ter visto. Um sol, Jesus de um lado, Deus-seu-pai do outro, não sei se dá pra diferenciar quem é quem; Maria lá embaixo olhando-os, e, nesse espaço, uns querubins com uma fita protegendo o pinto.

— Não sabia que você já tinha tado lá, muito menos que tinha reparado tão bem.

— Eu sei. Às vezes, eu vou lá só pra prestar atenção no que há nas pedras. Hora ou outra, tem um cachorro preto deitado na nave colateral, geralmente à esquerda, pra quem tá entrando. A gente tem isso em comum, né? Quer dizer, eu e você. Vamos em igreja, mas não acreditamos em Deus. Vamos por outros motivos. Mais físicos, acho que posso dizer. Eu vou pela arquitetura e pintura; você vai pelo Rodrigo e sei lá mais o quê.

Virou a face sobre a palma da mão esquerda para fitá-la. Ela nunca tirara os olhos deles, estava virada totalmente para ele, como o olhar do elefante dos arahants, que consiste em virar completamente o corpo sem mover o pescoço, de modo a que só a pessoa fitada saiba que o está sendo; geralmente, não é boa notícia. Mas Giselle brinca com os conceitos do mundo, é sua força. Evandro, no entanto, sabe tirá-la dos eixos. Ela pensa que é misteriosa por não falar muitas coisas, e pensa o contrário de Evandro por sempre dizer tanto, mas é sempre contrário. Sentir os contornos, melhor que os franceses do século retrasado. E agora não sabe o que dizer, senão estar virada para ele.

— Eu não queria estar estudando o que estou estudando. Estou fazendo isso porque é melhor que nada. Também não sabia o que fazer. Arquitetura? Artes? Sei lá. Eu sempre tive bom senso pra arte, e quase nunca alguém percebeu isso em mim. Você mesma, a mulher a quem mais me dei a conhecer, que me conhece no mais fundo, até à próstata — ela solta uma tosse de risada, batendo-lhe levemente com a mão, “Como pode um rosto enrugado de alegria ser tão lindo!”, pensa ele gritando— hah hah, você curte que eu sei, e eu também. Mas enfim, sabe, eu to estudando. Não to parado. E temo que nem a igreja esteja, de tal modo tudo se movimenta e se realiza. Mas pera, pera, vou terminar, mas tipo, sabe, eu entendo você, não estou te acusando de nada, nadinha mesmo. A igreja também se movimenta. Você não ficará parada nem se quiser. Nem a morte é o fim do movimento. Acho que seu fim só existe no frio. Mas pode ser que apenas diminua a velocidade, ou entre num novo tempo, em que aquela velocidade é normal, e se assim é, assim seja.

— Hah hah, cara… Nem tenho o que dizer mais.

Abraçou o pescoço e beijou sua nuca. Giselle tinha uma força, mas sua fraqueza também era sutil. O silêncio, típico de tantas mulheres, e de alguns homens à la James Dean em East Eden, é tão raro de ser silencioso. Em Solidões, de Oswaldo Montenegro, há uma mulher com amnésia, mas que só finge. O plano liso da memória se torna pura falsidade, basta mudarmos a direção do olhar para perceber as anfractuosidades. Quão difícil nada querer. O presente, eternamente, tempo da insatisfação. Quer felicidade? Compre uma máquina do tempo. Giselle apoiou a face no ombro direito de Evandro, camisa de algodão levemente aveludado, o braço no seio dos peitos, no umbigo, nas coxas, o dia arrefecia, o mar foi embora.

— Eu tenho tanto lugar pra mim. Mas é tanto medo — sussurra Giselle, uma voz de vácuo enchendo os ouvidos de Evandro, distante como só distante poderia estar — É uma vontade tão grande de chorar. Você sabe. Tenho medo de não conseguir. Tenho medo de falhar. Tenho medo que meus pais tenham razão. Tenho medo de estar perdendo algo. Eu tenho um plano, e não sei o que fazer se ele falhar. Isso me leva a uma inação insuportável. Inação… quase que sem nação. Que clichê modernista — eles riem; as faces de Giselle roseiam, botões de alegria — De um jeito ou de outro, não vou parar agora. Vestibular esse ano não dá. Quero um tempo para mim mesma. A escola roubou muito de mim já. Recuperar o tempo perdido, sabe? Mas sem sonho ou sono. Acordada mesmo. Lúcida para bem entender o sonho que é viver. Esse ser-crescendo.

Evandro beijou sua testa, onde principiam os cabelos. Seis horas da tarde, como o tempo passou — quanto silêncio se passou? Nuvens esticadas ao arrebol, gradações de vermelho percorrendo-as, as árvores da montanha em sombra: eis a hora preferida de Giselle, ainda apoiada no ombro aveludado, quando o sol ilumina a sombra das coisas. Uma planície se forma por um instante, tudo se tornou visível e se mostra plenamente. A sombra de Evandro lhe abraça de volta.

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