Overclock

É um dia quente, tão quente que machuca proteger os olhos. O mato está bem seco — e ainda é manhã —, do outro lado sente-se o cheiro terrível de mato queimado de sol. Lá, é como um paraíso de sons de folhas secas a serem pisadas. O céu está tão liso quanto a pele de alguém. A umidade do ar piora tudo. Plantas rasteiras, por algum motivo, como que para rir de todos os que as veem, têm flores em botão, em direção ao sol e chamando-o para mais perto, como que para lhe contar um segredo: “Mais quente, seu broxa”. Flor filha da puta.

E com tudo isto ao meu redor, estou sozinho. (obrigado narrador, agora pode deixar comigo) É essa a grande certeza. Cada um uma ilha, podendo ou não encontrar ao longe a borda de outra ilha, e pronto, eis o máximo de companhia que você tem. Não venha me dizer que estou sendo trágico nem nada. Não estou exagerando, nem querendo que tenham pena de mim. Sai pra lá; abraça a mãe. Você não tem nada novo pra me dizer. É sempre a mesma coisa que dizem. Ah, então você acha que tem algo novo? Então, vá, me diz. Aham. Hum. Entendi. Tá vendo? (isso durou uns trinta minutos, mas não vou gastar o tempo de ninguém aqui com mais do mesmo, faz favor, né) Você me faz te ouvir esse tempo todo pra confirmar: nada de novo. Tua principal ideia é de que o amor é a linha que não só une como traz pra perto, aproxima as duas ilhas. Tu é bem bobocão, hein. Primeiro por pensar que o amor age dessa forma. Vem cá, deixa eu te falar uma parada que você nunca deve ter ouvido na tua vida e que pode até explodir tua cabeça: se é de amor que vamos falar, então saiba que o amor nunca age a dois. Ele age, no mínimo, a dois, seu besta. Fosse você e tua mulher mais mente aberta, você realmente acha que não estariam amando outras pessoas? No coração tem espaço pro mundo inteiro, pra usar exatamente o que você falou no início, mas acabou se contradizendo no final. Mas não se trata do mundo inteiro efetivamente, mas do teu mundo inteiro efetivamente. É relativo pra caralho sim, e não venha me dizer que eu tô errado só porque você acha que o relativismo não diz nada. Você não vê como um paranoico, ainda que seja possível ser paranoico ao teu modo. E isso já é ser paranoico. Idem pra tudo mais que você imaginar, até a porra da tua mãe, a minha querida tia Nanda. Agora, outra coisa, deixa eu ver se me lembro. Era algo de você dizer que traz pra perto as ilhas, né. Isso, isso, exatamente. Então, porra, cara, você namora a tua namoradinha a tantos anos e acha que a conhece? Acha que alguma coisa se aproximou de alguma coisa? Fisicamente sim, mas eu não quero separar assim as coisas. Física ou emocionalmente, não tem diferença, o que interessa é que tudo pode acabar da noite pro dia e toda essa aproximação se mostrar de fato como é: a distância impossível de ser ultrapassada.

Sabe, vou te contar uma parada. Nem sei por quê. (trata-se do mesmo dia, hora e local que o narrador bacana começou essa bosta toda) Um dia, eu estava vindo pra cá, aí passei por aquele trecho cheio de mato que você sabe que eu curto passar. Estava muito quente. Aí eu vi uns cinco, seis cachorros do outro lado. Tinha dois cachorros bem grandes. Eles estavam parados, parece que acharam comida e estavam esperando os dois grandões acabarem de comer. Só que acontece que um pequeno não esperou. Mas eu só acho que foi isso que aconteceu; é imaginação pra poder preencher a lacuna. Só sei que quando ouvi, os dois cachorros voaram pra cima do cachorro pequeno, preto, morderam muito ele e ficaram balançando. Um deles ficou no pescoço, o outro, nas patas traseiras e barriga. Eles ficaram nessa por quase um minuto. Qualquer movimento que o cachorrinho fizesse, era motivo pra eles baterem ainda mais nele. Só quando o cachorrinho devia estar muito fraco foi que eles pararam de balançar ele, mas não o tiraram da boca ainda. Deixaram ele no chão bem devagar, aí foram embora. Eu fique parado, vendo tudo, não mexi um dedo e não mexeria ainda hoje. O cachorrinho, quando o grupo já estava um pouco afastado, se levantou, todo machucado, lambeu os beiços, olhou pros lados e foi andando em direção a eles. Sim, cara, ele voltou, ele foi pra lá e ainda hoje deve estar com eles. Não me pergunte por que estou te contando isso; já disse, ué, que não sei. É só que pareceu haver uma conexão entre as duas coisas. E bem acho que há.

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Esta entrada foi postada em Sven.

Um comentário em “Overclock

  1. Anônimo disse:

    um finíssimo fio costura duas extremidades: ponte para ninguém passar
    ou um trecho de caminho cheio de mato

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