Ein Tag

Salvador Dalí - The Madonna of Port Lligat (1950)

Um dia

É que o Menino tinha sempre que pensar de novo antes de encontrá-la. Cabeça sempre um pó no vento — uma rua cheia de pássaros que já se foram, silenciosa e inquieta; é que encontrou a Menina: ela, um jeito de flor faz que não sabe haver sol. Sim, pensar de novo, o que dizer quando ver ela? Sempre a coisa mesma de abraço e silêncio embaraçoso. O caminho pra casa dela é tão perto quanto mil quilômetros, só seguir em frente, logo na quinta casa. O Menino está descalço, bermuda e camisa de algodão e poliéster (a camisa tinha um que de elastano, o que os divertia muito), cabelo tão arrumado quanto um gráfico da bolsa de valores, entremeado por dedos que, vez outra, mostrava déficits, inflações e superávits, pra logo abaixo, como lichias descascadas, olhos e boca de romã, ladeada por bochechas bundosas. O sol forte o fez recuar antes de sair de casa. Seu quintal tinha uma árvore com flores de cerejeira. E também um carro em sua sombra. Não era inverno. Entanto, o Menino não podia senão ver seu carro prata coberto do rosa que a mãe e o pai nunca limpavam. Vencendo o calor, a rua, é só seguir em frente. Mas, porra, de novo, o que dizer? Seria melhor esperar até de noite, aí ela não vê essa cara besta tão de primeira. Ah, mas ela… Como ela é possível? E quanto tempo o Menino não a encontrava! O tio uma vez disse que precisava viajar, e que queria levá-lo junto, pois que nunca tinha ainda andado de avião. Como a mãe e o pai deixaram, não teve por que não viajar de noite com o tio, e ver pela janela tanta estrela, que, outrora, a tela da noite mostrara em nunca, que a clara noção lhe veio de que estava vivendo, desde o imemorial, de cabeça pra baixo, e que pra desvirar bastava um ar de coragem que lhe faltou. Fechava a cara pelo sol, e, como num susto, pensou: o dia mostra todas as estrelas que tem porque só tem o sol, mas alguma coisa não deixa a noite mostrar elas todas. E a Menina; olhando pra esquerda, é só seguir reto. Estar nesta rua com risadas de amor é melhor do que ter o que dizer. Foi e foi. Portão verde escuro com barras de ferro, dentro um carro, sombra e piso gelado — tanto demorou que o sol não teve paciência de ver no que ia dar. A lua minguante esteve ali a tarde toda, mas vai ficar, a curiosa. E a noite veio enfim, quando o Menino sem saber o que dizer, se despedia da Menina, mão com mão, ela tinha a cara sarapintada de choro, que só ele sabia tão rápido fazer rir. Se despediram por trocas de amor fraterno da qual ambos saíram machucados. “Eu já tenho um namorado, de quem gosto muito” — pensou o Menino com a voz dela, enquanto volta para casa. Com as costas no portão de casa, ele se senta no degrau. Dava umas quarenta longas passadas de um poste de luz laranja para outro. Sorrindo de soslaio, pensou que pouco importam as estrelas invisíveis, temos tantas aqui perto do chão. Bem quietinho, a noite esfria com o vento, o Menino chora o abraço que a solidão lhe dá. Quando a cabeça está no ponto certo de ser facilmente quebrada no asfalto, o frio asfixiando, ele percebe que não chora uma ausência. O Menino percebeu, ainda com lágrimas e petéquias, que amor é um sempre de alegre mais.

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