Der Jagd

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A caça

Seu quarto é um paralelogramo sutil, as paralelas maiores de igual tamanho. Cama igualmente paralela ao armário, seis portas longas, corrediças. Estrelas cintilavam frente sua cabeça, um céu próprio que ela lhe havia reservado. Fora uma viagem cansativa e ele sabia o que esperar, embora isso nunca seja o suficiente.

“Você dorme no quarto hoje. To a fim de dormir na sala.”, ela disse.

Obviamente, ela tinha algo em mente, saia longa de algodão, parte coloração de fábrica, parte um relevo de próprio, cabelos presos num rabo de cavalo, desenvolvendo o rosto forte e único que tanto o eriçava. Ora doçura, medo e choro latente inexplicáveis, ora força, onça que ataca sem mexer um fio de cabelo, morte rápida. Sua camisa revelava um meio círculo de umbigo, rodeado por lanugem. Suas faces também. Uma onça de verdade, mas com a destreza mágica de quem sabe se disfarçar. Segredo, apenas a superfície. Ele acabara de chegar de uma viagem longa, desde o Rio de Janeiro até São Paulo, rodoviária do Tietê. Foram sete pedágios, dois dos quais o ônibus teve de esperar um pouco para passar, por haver um problema na identificação do cartão. Parada em Queluz. A noite começava a bater, poucas luzes iluminavam a estrada ruidosa de caminhões cargueiros. A lua estava quase cheia, a sudeste aparece sua estrela. A previsão dizia chuva, mas até agora nada. Muitas pessoas no ônibus, as mais diferentes, mochileiros do nordeste, nenéns que insistem em chorar, mulheres falando alto no celular e entre si, um motorista rechonchudo bem-humorado mas que parou duas vezes pra usar o banheiro, alguns passageiros reclamaram, como sempre reclama quem manda, barulho de alumínio de salgadinho e bolacha sendo aberto, incrível que o banheiro não tem ar condicionado e alguém resolveu justamente agora, quando o motor está desligado, cagar com força, empesteando levemente o ônibus e a boca de uma das faladeiras, inconformada com a podridão humana. Um negro de bochechas grandes em corpo magro, um pouco vesgo do olho esquerdo, arrumava conversa com uma freira velhinha e depois com outro rapaz que assistia House em seu ipad. Ele resolveu sair e tomar um ar. Embora tivesse placas de proibido fumar, as pessoas preferiam outras ondas, enquanto guardas cuidavam de portas de bancos, restaurante e bilheterias, enfardados e armados. Sua cabeça, sobre camisa branca de algodão com estampa que estraga quando passa o ferro que ele nunca usa, calça bege estilo social, sapato de couro branco, estava vazia no ambiente crepuscular, não haveria poder haver passado ou futuro, e o vento abria os poros de sua pele.

“Tá certo, então. Vou dormir. Estou bem cansado, sabe.”

“Boa noite.”, seu olhar atrasado, de soslaio, responde o suficiente que não falou.

O dia rompeu em Granja Julieta sem o calor usual, repleto de mosquitos e mordidas de pulgas em pés e braços desprotegidos. As nuvens aceitaram ser tingidas de laranja e rubro por ora. Ela entra no quarto como se estivesse vazio e, atrás de uma mesa contígua à cama na frente, tira uma espingarda que parecia impossível estar ali e ele não ter percebido, mesmo no escuro a presença daquilo tinha de ser sentida como um espírito obsessor te olhando. Segurando-a sob o ombro e o braço esquerdos, limpa ao longo do cano com um pano branco com poucos fiapos despontando.

“Vamos, se levanta. Já começou.”

Está pelado sob o cobertor e só ele parecia se importar, cobrindo os mamilos, dedos segurando o cobertor pro caso de ela os puxar, olhos arregalados de susto. É lençol de 180 fios, nada empelotado, rosa mais escuro que o cobertor que ela lhe deu. Jogando o pano sobre a mesa, sai do quarto e continua os cuidados com a arma, desde pegar a munição necessária até guardar. Ele não entende muito bem, e parece que lhe foi comunicado qualquer coisa de nova. Coloca o mais rápido possível a cueca boxer da lupo. O mato estava úmido, pouco sol penetrava. Ela anda um pouco à frente, parecendo-lhe mais calma e acessível. Desde de manhã que olha suave para ele, cutucando-o com o indicador um dos flancos do quadril. Susane andava à frente, de botas, saia longa e uma camisa branca, de alça. Sabiás-laranjeira cantavam de diversos pontos, ordenadamente, ora ou outra interrompendo-se. E então andorinhas piruetando, árvores coníferas de tronco seco, algumas com o alburno danificado talvez por um inseto ou dando a chance de ser fecundada por alguma parasita. Dian se sente mais à vontade para estar com Susane. Por isso, late para um cachorro e aposta corrida, sobe em árvores para poder dar morango para algum mico. Quando desce, vê que Susane está sem sua bota, cabelo solto, maior do que pareceu, sorriso confiante e irônico, convidativo, avançando para Dian, deixa a arma no chão com a mochila, movimentos livres, como um pássaro que carrega as penas como único fardo, ela corre, chama por ele, que pergunta para onde ela vai, não sem deixar de correr despido de pesos. Um precipício aguarda-os, engolindo os que o devoram.

“Towanda!”, Susane grita, olhando para cima de soslaio, rindo um mundo de dentes. Dian se lança de cabeça — e vão.

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