Ode ans Ja

o-dependurado

Ode ao sim

E sim, eu digo sim. E avante, avante! Pensar que ele um dia pode vir me encontrar, como um pintinho encontra a mãe ao sair de seu ovo, mesmo que seus olhinhos não abram e esteja depenado sem mão que as tivesse arrancado, um grito pra encontrar. Estou presa em meu quarto com as chaves na mão direita, na canhota, um cacho de cabelo que se vai, ouço seus gritos, como querendo encontrar-me, então jogo-os fora. Há muitos filhos natimortos, perambulando pelas ruas e que nem percebem. É que eu também sou uma delas, e sigo meu caminho sem passado, como uma flor que desconhece a terra onde está, não a raiz. Meu grito chega? As árvores nas montanhas estão escurecendo com o dia, suas sombras estão visíveis em todo seu corpo, tem vezes que o sol faz isso e nem percebe. Um dia, eu estava na praia, e lá também tem árvores, coqueiros e palmeiras e as algas, só que essas a gente não vê às vezes, só quando elas estão na água, aí fica estranho entrar na água, porque elas ficam fazendo cócegas na barriga e no pescoço, elas são gentis e gostam de estar comigo quando vou lá, só que eu queria mesmo era também ficar um pouco mais só com a água, sinto uma falta dela que também faz cócegas, daí eu vou e fico debaixo das algas que ficam lá em cima, aí fecho os olhos porque é bem salgada a água e fica sangrando os olhos, mas dá também pra deixar aberto, os olhos se acostumam ao sangue sal como a pele que começa a criar escamas, a gente pisca e começa a ver os peixes e o oceano inteiro é um grande aquário até eu começar a ficar sem ar porque as guelras são um pouco mais difícil, não dá tempo pra ficar tempo o suficiente e elas aparecerem, e as cócegas, as algas são gentis quando fazem isso ainda que não mostrem muito sorrisos. Quando grito na água a voz vira golfinho e baleia mas não vira ele, não o vira pra me olhar nos olhos, lá longe como as algas aqui embaixo também. O tambor na minha orelha fica tum-tum-tum, vira coração, quando vou bem pra debaixo com as algas e uns peixinhos e às vezes um camarão ou ostra aparecem e saem correndo, só que não de lado como os caranguejos, alguns são brancos quase transparente, só os olhos pipocados que dá pra ver. Tlin-tlong, quem tocou os sinos do vento? e aqui embaixo! ele também vira peixinho mas não é ainda ele, mas o sonho me desperta como um calor. À maneira de uma rosa dos ventos, eu me deito no fundo do oceano e o céu inteiro é algas verdes, roxas, o sol brincou de sem forma e pegou emprestado as cores que deu. O ar está indo embora em bolhas e eu não vou, não vou, vou só, só com ele que vou. Mas só que não dá pra confiar muito em mim, senhores marinheiros, melhor se guiarem pelos céus e seus instrumentos, é que só pra ele eu posso ser uma direção a ser bem entendida, e só então eu o capturo como uma ideia, bloft, uma bolha entre algas, e um risinho quando se partiu no ar, mais um ovo sem mãe, cujo início remonta o nada da insegurança pulo, carecer de coragem é pra quem ainda tem mãe e pai, e irmão, e irmã, e avó, e não tem armas, nudez, olhos, boca, nariz, pele, língua, tudo cobrindo o corpo todo como um manto aéreo a permitir o movimento límpido de seus signos. Ar, sim, eu digo sim, até pro não eu digo sim e não há talvez que me escape e nutra.

Anúncios
Esta entrada foi postada em Sven.

2 comentários em “Ode ans Ja

Comentem!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s