Prova de língua

Com um olho de cobra, perquirindo todos os alunos da classe, o professor, camisa social salmão ao estilo de uma bata, calça bege de algodão, sapatênis marrom claro de couro, ou é lustrado ou é novo, o que é um incômodo terrível para a pele sobre o tendão calcâneo, óculos com bordas pretas grossas, lente fina, sobre o cabelo.

— Não razzzzurem a prova, apenassss passssem uma linha ssssobre a palavra errada e esssscrevam ao lado a palavra correta. Não é permitido o uzzzzo de caneta vermelha ou lápissss, nem mezzzzmo no rasssscunho. Dezzzzejo boa prova a todossss.

Tratava-se de uma sala composta de ar-condicionado, piso branco de azulejo, cada fila de cadeira em um degrau cuja metade ficava na altura do professor, cortinas de brancura roubada pelo tempo, e sete alunos bem diferentes um do outro. A prova consistia numa primeira fase escrita na qual todos passaram, o que foi motivo para embaraços futuros, o professor tirando e botando os óculos. Era um texto de três páginas e oito questões, cada valendo um ponto e um quarto. O primeiro passo é interpretação.

A segunda prova já começava a desafiar os limites do comum. Os alunos seguiram o professor para a sala adjacente, onde não havia cadeiras, mas só uma mesa ao centro e sete potes de tamanho médio. Havia uma linha de luzes apenas onde os alunos deviam ficar. Pela sombra que a luz mostrava, dava para saber tratar-se de potes semicirculares. Estando todos em seus devidos lugares, aos poucos, o professor girou o interruptor e os alunos, alguns com o ríctus revelando normalidades protocolares, tratavam-se de repetentes ou verdadeiros estoicos, e revelou-se uma penca de setenta línguas em flor.

— Agora, alunossss, é pressssizzzzo que vossssêssss comam essssassss línguassss em um minuto, ssssem prorrogassssão.

— Mas professor — perguntou uma aluna — e se vomitarmos?

— Vômitossss não sssserão permitidossss nem antesssss, nem durante, nem apóssss a prova. Todassss assss línguassss devem sssser digeridassss e esssscretadassss naturalmente, pelo ânussss — uma pontada anal sobreveio em alguns alunos, mas nada que os fizesse desviar o olhar.

Em suas marcas, o professor deu a largada no mesmo instante em que ativou o cronômetro. Os alunos, obviamente, não podiam encostar as mãos, colocavam-nas sobre o cóccix, apenas lábios, língua e dentes seriam permitidos como instrumentos de toque. Houve quem começasse à maneira tradicional: atacaram o início da penca com uma mordida imensa, mastigando o mais rápido que podiam, até começarem a lambuzar as faces de sangue e saliva, além de lágrimas ocasionais. Outro método consiste em atacar a penca pelo meio, comendo uma língua e partes das outras, até que sobrassem apenas duas metades. A esse ponto, cabelos, suíças, bigodes e barba não estariam isentos do grude sangue-salivar, os mais diversos penteados eram criados pela fome, de modo que, ocasionalmente, permitiam a entrada de alguns consultores de moda e cabeleireiros para tirar fotos da próxima onda do verão em vias de começar, o que muitas vezes incluía um lance de dados sem dados mas com esperma e comida semimastigada, dada a nem sempre boa observância da higiene lingual. Um candidato espirrou e soltou um pum tão fortes que foi desclassificado junto com outros dois concorrentes que riram mais do que deviam a ponto de engasgar e vomitar na bacia, tanto própria quanto alheia, e no chão. O professor botou e tirou menas vezes os óculos.

Na sala adjacente, três carteiras formando um círculo, sala bem iluminada e janelaberta. Os quatro alunos, dois homens e duas meninas, uma das quais transexual e um dos quais não-binário, pararam frente às cadeiras, esperando instruções dos professores. Pelo que parece, a prova se limitou aos calouros, de modo que o professor parecia mais feliz, pois entrou sorrindo serenamente com os óculos na cabeça.

— Poissss bem, a próssssima prova conssssisssste num jogo de cadeirassss, com essssessssão do fato de que não haverá múzzzzica.

Uma pontada, em diversos graus, em cada um dos mais de sessenta esfíncteres de um humano nas normas da ABNT, certamente foi ansiada e alcançada. Tratava-se, estava claro para todos, do jogo do cunilíngua no qual tivera inspiração mais de um filme de terror recente: os alunos tinham que ficar de quatro e bundefora, formando um círculo ao redor do círculo de cadeiras, e tirar a língua era o equivalente a música parar, com o porém de que o tirador só poderia se mover se o pessoânus se mexesse antes, e qualquer movimento em falso seria motivo de desqualificação. Assim, se, na prova anterior, peidos eram permitidos, nessa, eram expressamente proibidos, assim como fezes pendentes em pelos ou hemorroidas. Para evitar enganos, todos os quatro foram pro banheiro no início do corredor. Foi um momento bonito pela fraternidade, uns olhando o cu dos outros para avisar se ainda tinha algo, do mesmo modo que se pergunta, após a refeição, se o dente está sujo. Limpados, voltaram juntos para a sala, os cis evitando ao máximo o olhar, enquanto que as alternatividades tinham menos pudor.

Arrancando suspiros fortes do professor, essa foi a prova mais longa e extraordinária, tanto pelo tempo quanto pelos dois desclassificados numa prova que apenas uma pessoa tinha que sair, dadas as três cadeiras. Agachados, todos começaram a salivar o cu um do outro, cócegas inevitáveis, unduflexando o abdômen de todos, como que acionando a engrenagem da roda. Após a quinquagésima volta, percebendo que até a graça já tinha se enfadado, o professor reparou em movimentos pélvicos com alta dosagem de suspeito. A menina cis vinha depois da menina trans; o menino cis vinha logo depois do menino não-binário. Assis estava claramente se aproveitando da proximidade vaginanal para criar distrações próprias de elevado teor orgásmico. Não mais a língua, mas a boca inteira cobria o ânus de Ossis, evidência clara de método antigemidos. O que aconteceu é que os lábios de Assis escondiam que ela tirava a língua do ânus de Ossis, de modo a compensar a falta vocogemente. E o mais surpreendente é que Ossis percebeu o distanciamento lingual de Assis, mas não se manifestou. Levantadas as devidas sobrancelhas professorais, começou a prestar mais atenção no suspeito. Ah! Eis aí, o mancebo miserávi! Rápidos movimentos oculociliais fora do ambiente noturno e dormindinho, claramente, evidenciava a compensação prostaterótica que o rapaz experienciava pela primeira vez, senão não teria esquecido de mandar ver na cadeira. Assim, o professor imediatamente interrompeu o coitanal para proferir a desclassificação summa cum laude de ambos. Do que a cis e o cis não se arrependeram, dado o futuro conjunto que os aguardava.

Destarte, sobraram Atrans e Onário, guiados para a outra sala adjacente, a última, na qual nenhuma prova foi realizada, mas um certificado de proficiência em línguas foi emitido, permitindo-os a próxima fase: a prova oral.

moznosti-dialogu

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Esta entrada foi postada em Sven.

2 comentários em “Prova de língua

  1. phelipe disse:

    Eis portugueza cunilíngua tupigambá lesionada pélos profeszores de leteiratura! Gratia deorum pachecorum!

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