Sofro, Lídia…

Antes mesmo de poder sentar-se sobre a cama e espairecer o dia na noite claustrosa de seu quarto, por onde se movia a parede undosamente, náusea de estar imersa em longínquo estanho, ouvindo assomos vagos de folas a banhar sutil o chão antigo, sentiu a dor comprimir-lhe a cabeça, e tentou protegê-la com suas mãos qual um elmo. Que face corada! As bochechas queimavam em protesto de ondas, cortejo maldito que implora pelo outro, préstito ebúlico que incandesce pela solidão. De tal modo, sequer se lembrava por que estava assim, sofria não obstante a razão, enquanto sua mão viajava pelas paragens de cobertor alpino, os olhos diferenciavam, ao seu lado, um pequeno maço de papéis dobrados, certamente endereçado a ela, única herança do homem, recobrava-se aos poucos, de cujas exéquias participara havia horas. O dia passava distante dela, não reteve um lapso que fosse, senão o da mortalha e do cadafalso. Ah, pensava, soubesse ele o quanto sonhei.

Enfim, num relance de movimento impetuoso, embaralhando a visão, jogou-se da cama e se pôs de joelhos frente aonde estava o maço, rigidamente plano, obra típica – mussitava – de um homem como ele. Se ainda não o abrira, era devido à reverência de sempre diante dele, agora nessa sua imagem sósia, esplendor apoteótico da sapiência que ela, sentindo-se jovem despreparada de todo, nunca pensava conseguir ter. Aquele monte grosso de papel dobrado, grecoarquitetonicamente dobrado, o qual abriu com a consciência ainda onírica de quem mal acorda. Rugia a fome na presença daquelas letras ignotas, que, ainda que organizadas, confluíam com o maçante aumento sonoro de gritos e buzinas, conversas sobre nada insistentemente mantidas. Levantou-se, tomou banho e comeu como se respirasse, de modo tão maquínico que, tempos depois, recordando-se, se assustou.


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Caríssima Lídia,

encontro-me lasso, prostrado sobre o leito à mercê de todas as agruras, só, no entanto calmo. Escrevo-te, sabendo que amanhã estarei morto, porque a vejo, a tétrica face chupada da Morte, aguardando inquieta com seu eterno traço de riso em todas as coisas; sempre que passa por minha porta, eu não suporto vê-la, embora tenha, por vezes, esboçado-lhe algum sorriso. Escrevo-te, desejando que morto estivesse, para não me ver obrigado a suportar mais um segundo do que vejo, independente do que seja. Eu me alegro por minha morte, pudesse eu já tê-la encontrado. Mas, ela está em todos os lugares, exceto aonde achego meu olhar, espreita-se reptilmente; e eu consigo ouvir cada um de seus passos, ver cada eco ganhando força em minha direção. Tudo conflui para isso, tudo deseja e me à minha morte guia.

Há tempos que desejava já ter ido e anseio por isso. A cada palavra que escrevo, mais sinto puir incontinenti as de minha cútis camadas, mais me sinto um cadáver, mais tenho a inquebrantável certeza de não ser mais que isso. Caem os cacos, aos poucos caem os cacos. Ouço-os. Vejo-os. Sinto-os. Seus odores invadem agríope o meu paladar.

Sofro, Lídia, do medo do destino, de qualquer mudança que possa invadir-me incauto o meu ser, ainda que seja a mudança para melhor, ainda que possa banhar-me na eterna serenidade, não o quero. Haurir-me pudesse somente de minha reta via, de arroxeados lábios, sem qualquer sorte de transviamentos, sentindo olvidar-me volucre em cada passo.

Do caos, Lídia, sofro, do mundo, de sentir-me incapaz, em sonhos até, de escapar disso tudo, de não me deixar sugar pela balbúrdia da turba. Queima-me a rua em cada ponto ágil, em cada ser inconsciente de seu lugar, em cada salto esquizofrênico. Nada disso ao sábio deve apetecer, pois que cada um desses apenas o que bem respira sem si bem viveria. Há neles uma alegria tão fugidia, tão falsa, porque inconstante, tão medíocre, que mais vale fechar os olhos e os ouvidos ao passar.

Lídia, sofro, sim, de nunca ter podido ter alguém com quem ficar, de todas as companhias com quem até hoje ansiei fossem-me impossíveis, dói-me estar apenas na falsidade do sonho. Nasci antigo no espírito, desde petiz não fui mais que uma metáfora nalgum livro em frangalhos, desejando nada além de pelas próprias poeiras minhas ser deglutido. Quis ser, outrossim, antigo o meu amor, um cupido enorme por toda a humanidade, e quando encontrei formas supernas em terrenas formas, Lídia, eu não alcei ter mais que o assombro de minha inalcançabilidade. Que deuses, que agraciam, são estes, eudaimônicos, um homem com alma em gamas longínquas? Por que, pois, não me constituíram igualmente longínquo, na inconsciência dos peixes, de breves rosas que apenas a luz conhecem, de um adormecido Endymion?

Sob as cobertas, sinto que mais cada vez fria se torna a cama e planas aquelas.

Os cantos dos pássaros vários invadem o meu quarto, Lídia, o Sol alteia, o que tão-somente me remete à noite vindoura e à que acabou de passar. Amedronta-me, Lídia, de não ter tido a oportunidade de um piscar de olhos de luz sofrer. Quando julguei-me feliz, ainda que sozinho, não pude gozar da naturalidade ingênua necessária, sempre me vi pensando, calculando-me a mim e aos outros, ainda que ébrio sou impossivelmente sóbrio. Posso, em algum dia incerto, haver sorvido sereno um instante de plena alegria, mas eu sofro de não conseguir mo lembrar, Lídia, sequer inventar a mim um desses instantes, ainda que somenosmente, entrevejo poder.

O meu corpo dói de não ter conseguido viver.

Da indiferença, Lídia, do passar das horas, dos dias, de todos em relação a mim, sofro, de quem de mim cuide só haver minha vaidade, de mais cada vez lento andar meu tempo enquanto assisto ao espetáculo do mundo de que me ausentei ir-se impiedoso antes que possa perceber que passou. Isolo-me idiota, porque não devo conter-me a vida onde nada se deseja altivamente desperto à calma. Somente junto às crianças com olhos repletos de diversa natureza pude criar as pontes que me religassem ao mundo, que desmoronaram sob meus pés ao chegar ao liame, e de novo longe, Lídia, acenei só às crianças que já não mais a mim podiam ver; às suas costas acenei e sorri aos meus utópicos Mestres. Sofro do peso de me criar um mundo mais verdadeiro, Lídia, onde possa me permitir o influxo constante das paisagens sobre mim; onde exista a diferença por instinto, não a igualdade por repressão.

Sofro, Lídia, da certeza desses papéis jazer sobre uma fratura anômala. Incapaz, como sou, de não ser autêntico com um sonho que amo, de não aceitar a rejeição que me foi a vida, que também agora se prepara para me largar a mão.

Meu braço vai lasso perdendo sua curvatura, sua vitalidade. Lídia, sofro de nunca ter podido estar no mundo senão como uma assíntota, criando somente pelas tangentes de minha alma. Mas, nada, Lídia, poderia ser maior para o meu corpo, que no ar miro se evolar vivaz, que a dor de minha possibilidade única de não passar só, nesta terra que assim me quis, ser não mais que um sonho de infância que me abandona.

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