“Sentou-se, mexendo o drinque e sentindo-se distante de mim. Preocupa-se
com a maneira pela qual o seu amor por mim vem e vai, aparece e desaparece.
Duvida de sua realidade simplesmente porque não é tão homogeneamente
gostável quanto um gatinho. Deus sabe que
 é triste. A voz humana conspira
para profanar tudo sobre a terra.”
“acontece que eu sei, e é muito difícil que alguém o saiba melhor do que eu,
que um escritor extasiadamente feliz é na maioria das vezes um tipo
deprimente demais para se ter por perto”

J. D. Salinger

 

A chuva caía como para afirmar a tristeza. O ruço escondia as montanhas de árvores canoras, sabiás-laranjeiras ronronavam piu-ah piu-ah, umidade se juntava às teias de aranhas grandes, sob as quais mofo crescia e minhocas arejavam o solo. A chuva está fraca, sussurra. E eu penso. Penso na quantidade absurda de sofrimentos de que o passado se insuflava, na quantidade absurda de desavenças, erros sem contorno, lágrimas sem sal e sangue, uma conversa pós-sexo que saiu tão errada quanto um sinal de menos que era para ser mais, uma divisão multiplicadora de ilusões de que pensávamos escapar, sem percebermos a armadilha da imobilidade em que caíamos, nós, que somos tão dinâmicos e sentimos exacerbadamente. Andando uma vez contigo na rua, me lembro disso como um cafuné, enquanto atravessávamos uma faixa de pedestre, uma mais ou menos velhinha foi meio que correndo atravessar a rua e eu pensei “Vai lá, passo-passo-jeté, sua imbecil”, no que comecei a rir contidamente. Você também riu embora não soubesse por quê, já que eu nunca te disse: você é tão sensível, tem uma compaixão tão grande pelos outros, que muitas vezes prefere se sacrificar. Como sofremos de um amor incondicional pela humanidade. Como amamos sem exceção. Justamente por isso, também, nos tornamos piores que caranguejos e suas carapaças, nos armamos contra quem mais amamos, porque já estamos cansados de sofrer, cansados demais desses dias difíceis em que choramos, de tanta gente estúpida e sem coração, em todos os lugares, todo mundo quer se matar, ninguém quer viver, ninguém quer dialogar, entender, aprender, amar, as pessoas se isolam em tempestades de mentira, de cegueira e facas na mão, e eu amo como você não se cala, não se torna pedra, e é amor, viva, forte e nunca deixará de ser — a não ser quando se esquece disso tudo, quando esquecemos.

Shh… shh… calma, silêncio… não precisamos falar nada. ouça como tudo acabou. ouça como tudo está passando. seu corpo funcionando. atenção, tudo é perigoso, divino-maravilhoso. mais de uma vez sonhei hiper-realisticamente em chupar o suor de suas pernas após um dia de trabalho. mais de uma vez sonhei em não deixar que você me encostasse porque eu não merecia tanto amor que eu tenho para dar. mais de uma vez sonhei detalhisticamente sobre como seus peitos ficavam duros e você quase quebrava meu pescoço quando estava quase lá. mais de uma vez sonhei que apenas gozava para que você ficasse feliz e sentisse que estava me dando prazer. mais de uma vez acordei molhado após mais uma vez ter sonhado que mais uma vez te dava esse amor que me transborda. shh… pra que tanto barulho? a forma é vazio, o vazio é forma. a cor ilumina o céu, o céu ilumina a cor. nascer é sofrimento, sofrimento é nascer. não nascer é não sofrimento, não sofrimento é não nascer. você acredita nisso? eu também não, acredito sem acreditar. medito sem ser budista. tudo o que é impermanente é felicidade ou sofrimento? bhikkhus responderão sofrimento. eu respondo que é alegria. que o mundo mude, que o mundo sofra, que todos sofram, que todos gozem. amém pro primeiro átomo que disse o grande sim eu quero sim e nunca mais parou e nunca mais para. e ele disse sim eu quero até o não: “vença-me, seduza-me, fique comigo, ah faça-me sofrer! me quebre que eu te ensino a amar abismos” — muitas vezes fala e riage sem limites, ainda que os criem sobre ela, e sobre nós. e quando sonhar mais uma vez contigo, você será como minha pele.

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