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Quantos erros, arrependimentos, desgostos, remorsos, ódios, lástimas, autodesprezos, baixa autoestima, nostalgia fracassada, lágrimas nunca derramadas, e tudo numa vida, num preátimo cósmico que não será recordado, não estará nas tábulas da história, nem em suas entrelinhas, como a dizer que sua vida não vale a pena, não vale nem não valer, não vale o não que ela oferece, não vale a linguagem de que você desfruta. Nada. Revolta intensa contra o que passou, o subjuntivo, o ângulo mínimo que fora necessário para a extrema felicidade, o tempo governado de Saturno, nunca mais volta nem será, nem temos sequer mais a possibilidade de dizer que foi. O tempo de ouro solidificou-se no ouro a conduzir imagens televisas. Ouro que suja o corpo de um tom preto impossível em qualquer continente, inexistente senão nele próprio. Isso envolve minha alma. Me arrasta para o fundo inalcançável. Quebra pernas e braços, reduz o absoluto no absolutamente. Nada. Minha voz se dissipa frente a possibilidade de um ângulo obtuso, escaleno demais. Não sei mais para onde vou. A história não me marcará. A doença não faz mais que me afundar na história. Nesse escrito não há força. Gangrena. Pus escorre pelo meu ouvido, e é disso que me alimento. Só posso me alimentar disso. Não me foi concedida a graça de preencher minha necessidade de nitrogênio com outra substância. Só a doença me salva. Me oferece o pão e a faca. Não há mais quem nasça de joelho algum porque ele está dobrado, rezando por clemência ao único ser que pode ser que tenha algo a me oferecer que não seja a gosma auricular. As lágrimas me ressecam; evito-as. Não enlouquecer é o mais importante. Tristeza até vai, mas enlouqueceduras não. Quero estar despreocupado. Não ter quem cuide de mim, como uma enfermeira. O manicômio é o signo da loucura. Mas onde terminam suas grades? Me aterra, Lídia, não saber mais para onde ir. Me deixe em paz, vá embora, não precisa mais ficar. Estou me acostumando, algo em meu joelho quer despontar. Desde que não seja uma cruz, eu aceito. Nada sairá de meus testículos. Se for para eu ter filho, que saia do meu joelho. Terá de ser forte, mais forte que uma florzinha besta. Poema trouxa. Durmo ajoelhado. Meu filho não terá descanso. Apenas minha mão, vez por outra, surge da escuridão. Cresce, seus muros não acabam. Constroem muralhas quem quer evitar porrada, mas muro é signo de murro. Pura atividade. E você, trouxinha, é o passivo da história. Abre as penas e deixa entrar, que dói menos. Vaselina é cimento. Se acostuma: nada melhor que os costumes. Porto seguro. Grande mãe, gorda e flamejante mãe, em cujo seio encontro alimento saudável e puro. Vomito. Meu corpo, algo de doente e corrosivo de que a teratologia ainda não ouviu dizer, rejeita. Explode de meus orifícios meu alimento. Senhor, dai descanso aos meus joelhos, pois não suporto mais o passado. Minhas costas doem, não aguento mais os mistérios. Sê corajoso e desvela-te por ti mesmo! É o quê? Meus olhos que são trevados? Até quando essa desculpa? Alimento branco gosmento sai de minhas orelhas: eis o ser, maior tesouro, grande mistério de todos os tempos: nitrogênio. Guerras. Mas dê descanso aos meus joelhos. Sinto algo querer sair dele, uma dança, piruetas. Mas nada disso posso, a culpa me enverga. Atavismo, que sejas apenas um mito. Apenas um dito científico. Nada mais. Nada. Sugo o branco, repleto de verdura, azulura, marronura, que sai de meus ouvidos e jogo no chão, já to cheio. Plenamente saciado, pronto para sentir fome de novo. Tempo, me deixa em paz. Teus idos não podem, para sempre, querer carregar-me. Quedo para não mais permitir tanta drenagem de meus fluidos. Renovações. Quero. Surge de mim. Não sei explicar, mas não quero. Surge, por favor! Senhor, bem amado salvador de todos os tempos, preencha-me. Seja tu, seja eu, preencha-me. Que o nitrogênio não me baste! que o azoto não me baste! Ouço a rua, ouço as aves, ouço as plantas, as placas, marcas, pó. Não volto, não volto! Vou.

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