Krank

Eu só preciso dizer que eu estou aterrorizado com a vida. Com a incrível realidade dela. Com a finitude de tudo. Estou doente e isso não é segredo para mim. Há muito não consigo raciocinar com a ingenuidade de uma criança. Com a doçura de uma jovem apaixonada. Com o delírio da certeza ou com o niilismo de brilhantes filósofos. Estou incrivelmente aterrorizado e amedrontado com o hoje, o agora, o vir a ser incerto. Estou doente. Sim, doente. E isso não é literatura, não é um conto, não é isso ou aquilo. Isso é exclusivamente um pedido de socorro. Daqueles que fazemos em momentos de fé e que neste momento justamente pela falta dela caímos helicoidalmente num abismo de desespero e aflição.

 

 

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Eu sou um menino. Um menino sem nome e sobrenome. Um entre tantos, incógnito. Um entre tantos, no grupo dos tantos que não compreendem a si mesmo, seus desejos, suas vontades, seus quereres, seus pensamentos e suas escolhas. E há algo que não me deixa prosseguir. Há algo que, simplesmente, domina meus pensamentos e me leva à conclusão de que a vida pode ser mesmo algo fantástico, sem dúvida. Principalmente quando estamos convencidos da ilusão que nossas mentes criam e desfrutam. Ela é mais doce e fantástica ainda quando muitos, em uníssono, passam a viver as ilusões numa sincronicidade absurdamente inebriante. Mas ao mesmo tempo pode ser algo terrivelmente amargo e é cruel discorrer sobre isso quando se busca justamente a cura para a amargura através da escrita. É que a escrita é silêncio e também não é. Uma linha bem escrita soa mais forte que qualquer revolução já feita. Qualquer berro. Por isso escrevo. Por doer demais falar em vão. Sempre falamos em vão. Há uma verdadeira conspiração do que dizemos em destruir o que queríamos ter dito. Mas de alguma forma, é preciso ousar. Por isso escrevo. Como quem teve uma revelação súbita de que a vida é maravilhosa, como já disse. Porque ela é. Tudo o que parece se voltar para nossa destruição é apenas efeito do que queremos. Um dia de chuva que queríamos que fosse de sol. Ou o sol que está quente demais. Mas quando se diz que deveríamos lutar, creio não ser exatamente contra a natureza, ainda que usem exemplos como os meus para confronto. Os ascetas da vida. Eles querem dizer que deveríamos lutar contra aquilo que o homem produz. Luta homem contra homem, e não contra a natureza, que, sim, devemos aceitar, porque não tem como nos fazer mal — e a recíproca não é verdadeira. Mas o que isso tem a ver comigo? Tive um momento em que todos os problemas deixaram de existir. Não como um cientista que se depara com um novo método para explicar mais ainda a estrutura implicada do real. Esse momento, muitos o vivenciaram já. Não tem nada de novo; eu que sou novo nisso tudo, e também mais velho, já que ainda vivo. Só um segundo mais velho que seja. No momento em que não tive mais escolhas senão olhar pra baixo, para saber onde estava, e então pra frente, de pronto sabendo aonde vou. O sempilongo, o instante ativo. O que tanto tememos. A questão incessante: mil desejos satisfeitos ou apenas um conquistado? Viver o todo-dia das gentes ou avançar no escuro? É certo que de ambos os pontos tudo é divino. E onde então a diferença? É como quando nos dedicamos a uma arte. É com muita admiração que olharemos sempre para os polímatas de todos os séculos. E nem para tanto, um artista que domine mais de um estilo já será agraciado em seu meio, e quem sabe até pelos reis. No entanto, aquele que todos chamam de sábio, bem estilo Pai Mei e San San Chan, típico velho que anda devagar e corcunda pra disfarçar, é quem domina perfeitamente apenas uma coisa. O que significa: saber usá-la de todos os ângulos possíveis. Da Vinci é considerado polímata porque soube desenhar de diversas maneiras. Se um cientista adentra o espaço ficcional, ele não escreve ficção, mas uma monografia. Um romancista, fazendo ciência, poetiza. Não há quem faça mais de uma coisa na vida, só quem a faz de muitas maneiras. E essa é praticamente a definição de ser: ser dito de muitas maneiras. Acontece apenas de haver alguns paranoicos perfeccionistas. É assim que sou só. E perdido. Truncado. Satisfazer ou conquistar? E o que pode ser conquistado? A riqueza da vida? Mas como não cair na satisfação? E por que não cair nela e ser mais um? Talvez, de qualquer maneira, aqui ou lá, sejamos já apenas mais um. Então não é bem essa questão que importa. Quando me apaixonava, meu corpo fluía como uma ampulheta. Um grão de cada vez, devagar como todo melhor orgasmo, a loucura do lento. E quando o lençol estava molhado o suficiente, dormia e o dia seguinte virava a ampulheta por si próprio. Todos os dias. Incessante, eu me acabava. Ter todos os dias um prazo de validade, todos os dias me jogar no lixo para ir comprar um novo depois. Sempre me pareceu assim o homem da rotina. E por vezes, a mulher me pareceu ainda mais rotineira na rotina de vencer obstáculos. Uma graça, eles dois! Mas não pensem que eu odeio o amor (nossa, que frase…). Apenas não gosto muito de como se ama. Certamente, só conquistamos o que amamos. Não dá pra ser diferente. Pra usar esse exemplo gracioso de agora, até hoje não ouvi falar de pessoa que pudesse conquistar a rotina, é sempre o contrário. A rotina nos ama, ama tudo o que é vivo. Somos conquistados a todo momento. É do tão pouco amor que nutrimos pela rotina, porque nunca houve consentimento total nessa relação, que nos descartamos ao final do dia, como algo sujo que precisa, o quanto antes, ser substituído — porque não é possível que sejamos só isso. Bem como quando somos roubados ou uma barata anda por nossa mão. De tão pouco amor que sabemos nutrir, como saber conquistar o que se deseja? Como uma ampulheta com duas âmbulas, não dá pra quebrar a rotina a dois, não de início. Quebrar o tempo. Espalhar sua areia. E então medir.

Was ist das Leben?

Nós não sabemos quem somos! De nós mesmos somos desconhecidos. Fomos induzidos a sermos da maneira como somos pela família, pelo meio onde crescemos e tivemos as nossas impressões do mundo, impressões essas tidas com os olhos turvos dos preconceitos milenares. Há entre nós aqueles que julgam ter uma clareza superior, de onde é possível entender a história e sair fazendo apontamentos sobre o mundo e tudo o que nele foi, no que nele é e no que nele deveria ser. Há entre nós, os céticos, livres de qualquer crendice e de sistema de pensamento, comportamento, entre nós, os niilistas mais incorrigíveis, os que julgam-se mais puramente livre de qualquer ilusão acerca do mundo e de qualquer certeza. Há uma coisa terrível para nós, a certeza, a única, de que estamos participando do eterno espetáculo de horrores da capacidade humana de criar pensamentos, sistemas de pensamentos, inúteis, que nos distraem enquanto vivemos e nos levam mais longe e nos deixam mais confusos quando temos que responder a pergunta: o que é a vida? Eu, como homem pós-moderno, posso entre outras respostas superficiais responder: a vida é o eterno parecer inerte, observando o espetáculo que se criou, a constante homeostase entre as forças, o domínio delas, a neutralização da vida, como um gorila que experimenta uma boa dose de acepromazina e se rende àquilo que aconteceu. Afinal, nunca saberemos e seremos capazes de entender que somos um absurdo. E seremos sempre guiados de mãos dadas pela vida, dando e recebendo a pílula de como compreender tudo e sermos sábios ou conhecedores.

Worten

No fim são as palavras que sempre me sobram. Elas estão presentes em todos os momentos, recheando meus pensamentos, saindo como trovões de minha boca em momentos de descontrole, estão expostas em todos os lugares informando sobre a vida que por aí está, lembrando-me, quando abro os livros de história, do passado. Eu gosto das palavras, sobretudo das palavras que meus olhos veem, sinto-me mais eu, sinto-me inteiramente responsável pelas ilusões que elas me levam a viver, e sempre desconfio das palavras que meus ouvidos ouvem. Gosto da descoberta inocente das palavras e da pronúncia inexata que eu lhes atribuo. Por vezes, com uma frequência sazonal, aborreço-me com a vocalização das palavras, com o pouco caso com que todos têm, desperdiçando-as, dizendo-as frivolamente, nas cotidianas conversas encenadas, repetidas e sem vida.

No fim as palavras são nosso grande instrumento de vida. São capazes de nos fazer mudar o rumo de nossas vidas. São capazes de nos transformar, de nos fazer praticar as mais variadas ações. De nos fazer amar, de nos prender a um lugar ou de nos libertar e dispersar nossos passos mundo a fora. Elas nos despertam sentimentos vários, nos fazem passar da paz a guerra e vice-versa. Deem-nos mais palavras, deem-nos mais ilusões, deem-nos mais conceitos, deem-nos distrações mais profundas, deem-nos problemas mais complexos, usem as palavras de modo mais nobre, para mais um dia continuarem distraindo-nos da vida, ou até mesmo na vida, que no fim das contas dá no mesmo!?

No fim continuarei a entediar-me, sazonalmente, da sequência sucessiva das cenas repetidas, das palavras repetidas, dos conceitos rasteiros, das paisagens que outrora eram pura poesia, da vocalização das palavras carinhosas e brandas de minha progenitora. Continuarei a entediar-me com tudo, a querer por um ponto final nas palavras, na vida, nas ilusões. Não obstante, serei grato, sempre, pelas palavras que carrego em mim, que deixam-me sempre com sede de mais palavras, mais ilusões e portanto de mais vida. Serei grato por ter atravessado um deserto, em silêncio, com a ajuda das silenciosas palavras que meus olhos conhecem bem. E buscarei entender a vida, o silêncio e a palavra necessária, para extrair mais vida da vida.

Schlaflose Betrachtung

Meditação insone

Por que diabos, questiono-me, insistimos em nos meter nas ninharias cotidianas da vida? Nas insignificâncias diárias que constatamos ser inúteis, e que nos sorvem, amiúde, o animo por completo. Há toda sorte de questões na vida nas quais não deveríamos empreender nenhuma energia, pela simples motivação de nos preservar, sobretudo do enfado. Há evidentemente fortuitas situações que deveríamos tratar como se fossem guerras, mas elas raramente existem no mundo em que vivemos, e quando existem, quão mais raros os bons guerreiros, que, não obstante o medo, avançam. Que aprendamos a desviar o olhar de tudo aquilo que não merece atenção. É necessário que aprendamos a viver, mas não falemos uma palavra sobre isso. Não falar, eis tudo. Viver, e que, para isso, utilizemos uma quantidade minima de palavras faladas. Que aprendamos a ser concisos e certeiros, para não repetir o mesmo pensamento e fala duas vezes. Talvez não devêssemos desviar o olhar, mas desviar a fala: contê-la. De nada te servirá que o outro saiba o que tu pensas sobre as coisas na maioria das vezes. Sê, em silêncio. Que tuas palavras sejam apenas divertimentos, na companhia dos que tiverem contigo — nas colheitas do dia, e disparidades da noite. Um fulgor de saber rir é bem maior que qualquer seriedade. Lutas? Para que lutas? Não importa o que se passou, mas o que fazer depois. Não contar o sofrimento passado ou presente. O primeiro já não é mais; o segundo é falso e pouco interessante. Se o sofrimento não for substância de vida, então que seja de morte; assim poderão dizer o que quiserem depois. Se for, a cabeça estará mais firme no pescoço, a postura estará quebrantada de cicatrizes, mas a alegria que disto surge é que será o que requer a vida, esse campo profundo de plenitude.

Versuch und Irrtum

Quantos pensamentos já não passaram por minha cabeça desde aquele tempo. Tudo que pensei, tudo o que escutei, senti, vi e vivi. Quantos segundos são necessários para misturar todo o passado e projetar numa tela turva em minha mente junto com uma avalanche de sentimentos? Aqui não há ninguém, e só eu posso sentir isso. E sempre será assim. Memórias indecifráveis, fantasmas invisíveis. Sinto saudades de alguns sentimentos primitivos, inocentes e doces que outrora tinha. Sinto saudades dos medos ilógicos. Tenho uma vontade estranha de poder ter conhecido a mim mesmo no passado, sobretudo, sem que aquele menino que eu era soubesse disso. Como nos tornamos isso? Onde que nos perdemos do nosso caminho? Qualquer coisa de lastimável há em nós. Qualquer coisa de vergonhoso. De sujo. Por mais que queiramos nos considerar os homens pensantes mais sensatos, racionais e por mais que nos apaixonemos por nossas ideias e acreditemos serem elas  as mais inteligentes e corretas, seremos sempre aquilo que tenta e erra, aquilo que envaidecidamente se sabota a si mesmo num eterno vagar errante, consolidando as sujeiras mais mesquinhas, com ou sem paixão. Não há nada pior que sentir vergonha de si mesmo por se autoflagrar acreditando apaixonadamente em algumas ideias que, sobretudo, não são nem nossas. Isso nos faz questionar cada pensamento, cada sentimento, e nos joga cara a cara com a impossibilidade de assim fazê-lo sem ter a neutralidade para tanto, sem que nos apaixonemos novamente. A vida mais doce é com o silêncio e o ecoar das – nossas – ideias dentro da nossa cabeça, num quarto pequeno, gelado, com a luz do sol a iluminar os móveis e os ácaros que dançam, placidamente, após o balanço do lençol no ar.