Eu sou um menino. Um menino sem nome e sobrenome. Um entre tantos, incógnito. Um entre tantos, no grupo dos tantos que não compreendem a si mesmo, seus desejos, suas vontades, seus quereres, seus pensamentos e suas escolhas. E há algo que não me deixa prosseguir. Há algo que, simplesmente, domina meus pensamentos e me leva à conclusão de que a vida pode ser mesmo algo fantástico, sem dúvida. Principalmente quando estamos convencidos da ilusão que nossas mentes criam e desfrutam. Ela é mais doce e fantástica ainda quando muitos, em uníssono, passam a viver as ilusões numa sincronicidade absurdamente inebriante. Mas ao mesmo tempo pode ser algo terrivelmente amargo e é cruel discorrer sobre isso quando se busca justamente a cura para a amargura através da escrita. É que a escrita é silêncio e também não é. Uma linha bem escrita soa mais forte que qualquer revolução já feita. Qualquer berro. Por isso escrevo. Por doer demais falar em vão. Sempre falamos em vão. Há uma verdadeira conspiração do que dizemos em destruir o que queríamos ter dito. Mas de alguma forma, é preciso ousar. Por isso escrevo. Como quem teve uma revelação súbita de que a vida é maravilhosa, como já disse. Porque ela é. Tudo o que parece se voltar para nossa destruição é apenas efeito do que queremos. Um dia de chuva que queríamos que fosse de sol. Ou o sol que está quente demais. Mas quando se diz que deveríamos lutar, creio não ser exatamente contra a natureza, ainda que usem exemplos como os meus para confronto. Os ascetas da vida. Eles querem dizer que deveríamos lutar contra aquilo que o homem produz. Luta homem contra homem, e não contra a natureza, que, sim, devemos aceitar, porque não tem como nos fazer mal — e a recíproca não é verdadeira. Mas o que isso tem a ver comigo? Tive um momento em que todos os problemas deixaram de existir. Não como um cientista que se depara com um novo método para explicar mais ainda a estrutura implicada do real. Esse momento, muitos o vivenciaram já. Não tem nada de novo; eu que sou novo nisso tudo, e também mais velho, já que ainda vivo. Só um segundo mais velho que seja. No momento em que não tive mais escolhas senão olhar pra baixo, para saber onde estava, e então pra frente, de pronto sabendo aonde vou. O sempilongo, o instante ativo. O que tanto tememos. A questão incessante: mil desejos satisfeitos ou apenas um conquistado? Viver o todo-dia das gentes ou avançar no escuro? É certo que de ambos os pontos tudo é divino. E onde então a diferença? É como quando nos dedicamos a uma arte. É com muita admiração que olharemos sempre para os polímatas de todos os séculos. E nem para tanto, um artista que domine mais de um estilo já será agraciado em seu meio, e quem sabe até pelos reis. No entanto, aquele que todos chamam de sábio, bem estilo Pai Mei e San San Chan, típico velho que anda devagar e corcunda pra disfarçar, é quem domina perfeitamente apenas uma coisa. O que significa: saber usá-la de todos os ângulos possíveis. Da Vinci é considerado polímata porque soube desenhar de diversas maneiras. Se um cientista adentra o espaço ficcional, ele não escreve ficção, mas uma monografia. Um romancista, fazendo ciência, poetiza. Não há quem faça mais de uma coisa na vida, só quem a faz de muitas maneiras. E essa é praticamente a definição de ser: ser dito de muitas maneiras. Acontece apenas de haver alguns paranoicos perfeccionistas. É assim que sou só. E perdido. Truncado. Satisfazer ou conquistar? E o que pode ser conquistado? A riqueza da vida? Mas como não cair na satisfação? E por que não cair nela e ser mais um? Talvez, de qualquer maneira, aqui ou lá, sejamos já apenas mais um. Então não é bem essa questão que importa. Quando me apaixonava, meu corpo fluía como uma ampulheta. Um grão de cada vez, devagar como todo melhor orgasmo, a loucura do lento. E quando o lençol estava molhado o suficiente, dormia e o dia seguinte virava a ampulheta por si próprio. Todos os dias. Incessante, eu me acabava. Ter todos os dias um prazo de validade, todos os dias me jogar no lixo para ir comprar um novo depois. Sempre me pareceu assim o homem da rotina. E por vezes, a mulher me pareceu ainda mais rotineira na rotina de vencer obstáculos. Uma graça, eles dois! Mas não pensem que eu odeio o amor (nossa, que frase…). Apenas não gosto muito de como se ama. Certamente, só conquistamos o que amamos. Não dá pra ser diferente. Pra usar esse exemplo gracioso de agora, até hoje não ouvi falar de pessoa que pudesse conquistar a rotina, é sempre o contrário. A rotina nos ama, ama tudo o que é vivo. Somos conquistados a todo momento. É do tão pouco amor que nutrimos pela rotina, porque nunca houve consentimento total nessa relação, que nos descartamos ao final do dia, como algo sujo que precisa, o quanto antes, ser substituído — porque não é possível que sejamos só isso. Bem como quando somos roubados ou uma barata anda por nossa mão. De tão pouco amor que sabemos nutrir, como saber conquistar o que se deseja? Como uma ampulheta com duas âmbulas, não dá pra quebrar a rotina a dois, não de início. Quebrar o tempo. Espalhar sua areia. E então medir.

Schlaflose Betrachtung

Meditação insone

Por que diabos, questiono-me, insistimos em nos meter nas ninharias cotidianas da vida? Nas insignificâncias diárias que constatamos ser inúteis, e que nos sorvem, amiúde, o animo por completo. Há toda sorte de questões na vida nas quais não deveríamos empreender nenhuma energia, pela simples motivação de nos preservar, sobretudo do enfado. Há evidentemente fortuitas situações que deveríamos tratar como se fossem guerras, mas elas raramente existem no mundo em que vivemos, e quando existem, quão mais raros os bons guerreiros, que, não obstante o medo, avançam. Que aprendamos a desviar o olhar de tudo aquilo que não merece atenção. É necessário que aprendamos a viver, mas não falemos uma palavra sobre isso. Não falar, eis tudo. Viver, e que, para isso, utilizemos uma quantidade minima de palavras faladas. Que aprendamos a ser concisos e certeiros, para não repetir o mesmo pensamento e fala duas vezes. Talvez não devêssemos desviar o olhar, mas desviar a fala: contê-la. De nada te servirá que o outro saiba o que tu pensas sobre as coisas na maioria das vezes. Sê, em silêncio. Que tuas palavras sejam apenas divertimentos, na companhia dos que tiverem contigo — nas colheitas do dia, e disparidades da noite. Um fulgor de saber rir é bem maior que qualquer seriedade. Lutas? Para que lutas? Não importa o que se passou, mas o que fazer depois. Não contar o sofrimento passado ou presente. O primeiro já não é mais; o segundo é falso e pouco interessante. Se o sofrimento não for substância de vida, então que seja de morte; assim poderão dizer o que quiserem depois. Se for, a cabeça estará mais firme no pescoço, a postura estará quebrantada de cicatrizes, mas a alegria que disto surge é que será o que requer a vida, esse campo profundo de plenitude.

Nächtlicher Spaziergang

Passeio noturno

Sempre é necessário um novo recomeço para cada coisa que se escreve, para cada página, frase. Como um looping eterno em busca da perfeição, ou da total desgraça. Como controlar os dedos titubeantes e culpados do autor? Como suportar a vida? Como prosseguir? Repouso num dos cantos de meus aposentos, já passa da meia noite. Minhas pernas estão cansadas, meu corpo exaurido, exalou o dia inteiro o suor para conter o super aquecimento da máquina na qual estou preso, sinto o doce desgaste e a doce inundação de endorfina no sistema. Meu corpo repousa. Meus ouvidos escutam o canto que veio ao mundo por Bach,  Matthäus-Passion. Meu olhos contemplam uma árvore que repousa taciturna, adornada meticulosamente, com luzeiros coloridos, num canto da sala escura. Inclino a cabeça para trás, dou-me por vencido, acabam-se para mim as perspectivas futuras de sequência da sucessão de quadros repetidos. Inclino a cabeça para frente, sirvo-me de uma taça de vinho que descansava o tempo todo na pequena mesa ao meu lado. Passo a mão nos meu cabelos molhados de modo a jogá-los para trás. Inspiro, de uma vez só, todo o ar da pequena sala, e num segundo, após a retração, inundo a sala de gás carbônico, mas a natureza se encarrega da posterior homeostase. Fecho os olhos, estico meus braços para cima, contraio toda minha musculatura, formo na poltrona um arco jogando meu corpo violentamente contra a mesma. Levanto-me, afasto o tapete, começo a despir-me. Deito-me nu no chão com o abdômen voltado para as entranhas da terras. Estico meu braços e viro a cabeça de modo a ficar com minha face lateralmente apoiada no chão. Encolho-me na posição fetal no chão gelado. Levanto. Arrumo a desordem. Caminho até minha sala de banho. Abro o registro d’água na sua temperatura natural. Sento debaixo do curso d’água e ali fico até o alvorecer, tentando escorrer junto das águas as minhas impurezas. Tudo por ser humano, em demasia. Como poderia, no entanto, fugir disso? À vontade

Tote Pfade: Erinnerungen

Veredas mortas: memórias

Sorrio às lembranças dos nossos outonos e das nossas primaveras. Tão logo se aproxima mais um outono, não temos mais a proximidade de outrora. Você, como a primavera, brilhava e florescia de todas as formas, e eu, como o outono, era apenas o presságio de pensamentos frios, de pensamentos filosoficamente pessimistas. Embora fôssemos o oposto um do outro das mais variegadas formas, éramos um dois quase perfeito. Os tempos de recesso escolar sempre foram meus períodos prediletos. Podia ver-te. Gostava da maneira como discutíamos e defendíamos nossos compositores preferidos, como divergíamos a respeito da arte, como ficávamos horas e horas discutindo conceitos filosóficos; amava quando brigávamos e rolávamos pelo chão, sob o ar morno do começo do outono, com nossos corpos seminus e rasgávamos o resto das nossas vestimentas durante o confronto, afinal éramos dois rapazotes cheios de vontade na defensoria das nossas posições, ainda que não nos importássemos muito com elas; e depois, suados e exauridos, acomodávamos por um longo período nossos corpos entrelaçados, até eles se recomporem. Eu adorava massagear teu corpo, depois de tantas alavancas, torções e pressões que utilizávamos para derrubar e dominar um ao outro, ver ele funcionando por assim dizer. Achava divino a maneira desavergonhada com a qual nos tratávamos nus, e a fluidez das nossas conversas quando ainda deitados ao solo acariciávamos com a ponta dos dedos o peito, abdômen e as coxas um do outro. Tudo era um sonho no real, a vida vasta. Minha mão rangia de formigamentos incessantes, apocalípticas e extáticas ao sentir em minha palma os pelos que lhe cobrem o corpo, desde suas panturrilhas até o cocuruto, língua forte, júbilo rubro, mansa e tenra; conseguia ver em seus desvãos que também você sentia o mesmo que eu, a pele, sempre em riste quando comigo, aponta os céus e nosso amor que lá está. Mas lá é aqui, e aqui é agora: agora — sempre.

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Leiden

Sofrimento

Hoje acordei com a certeza de que a felicidade deve ser passageira, o que de fato interessa ao ser humano é a dor e o sofrimento, a tristeza por assim dizer. Eu mesmo ao escutar um violino chorar sinto-me extasiado. Quão mais triste é o ser, mais nobre ele é. Quão maior a doença, maior a alegria de vida. Foi o que um dia pude apreender de alguém que passou por mim e tinha olhos de mundo, longe, onde tudo quanto é o que é existe com um pundonor que é difícil não se sentir alegre. Isto faz crescer ainda mais a vontade de viver das coisas, ainda que todos os filósofos insistam: “É impossível!” – quantos deles souberam falar isto enquanto olhavam para esta tal coisa impossível e pisavam em um chão diferente de seus escritórios, de suas salas de aula, sentados em qualquer outro lugar que não fosse a cadeira que nunca erra, ainda que contribua em erros? Não dá para confiar naquilo que vemos escrito, pois a chuva não permite que o escrito se mantenha; é a felicidade, passageira e, por isso, sempre voltante, da própria natureza não saber se lembrar. Nem gregos nem romanos souberam venerar isto tudo com a mesma intensidade que eu possuo hoje, da qual tenho uma certeza absoluta e que me angustia não saber nomear um deus para isto: a felicidade da vida é saber adoecer. Os conhecedores gritam-me de novo: “Que tipo de realidade é essa que se afirma pelo negativo? Você não vê as coisas!” – Mas, quem falou que a tristeza é uma negatividade? Ah, vida, que triste quem não soube ser. Hoje eu acordei. Amainaremos ou encresparemos as velas da nossa alma ao sofrimento? Nos comportaremos feito vermes ou escolheremos viver nobremente sem a ignóbil felicidade deles que ao sentir aproximar-se a tempestade encolhem-se mais que depressa?

Autores: Sven; Gean.